Joaquim Cruz convoca para os Jogos Paralímpicos: "Você sai mudado para melhor"
Brasileiro, hoje técnico da equipe dos Estados Unidos, conta como foi a transição para o paradesporto e elogia o trabalho feito no Brasil
Brasileiro, hoje técnico da equipe dos Estados Unidos, conta como foi a transição para o paradesporto e elogia o trabalho feito no Brasil
Rio 2016/Gabriel Nascimento
Joaquim Cruz está entre os grandes nomes da história do atletismo mundial. Campeão Olímpico dos 800m em Los Angeles 1984, com 1min43s00, mais tarde virou treinador de meio-fundistas nos Estados Unidos, onde mora. Em 2005, outra virada de vida: tornou-se técnico de atletas Paralímpicos norte-americanos. E é nessa função que ele comparece ao Estádio Olímpico, no Rio de Janeiro, para o Open Internacional, que vai até sábado (21). O torneio Paralímpico no Engenhão encerra a série de eventos-teste para os Jogos Rio 2016.
“Os esportes Paralímpicos são muito bonitos de se assistir, muita gente nem sabe o que está perdendo. Quero convidar os brasileiros a vir ao Engenhão apoiar os atletas. Não só os brasileiros, mas também os estrangeiros”, diz Cruz. Ver uma prova de salto em altura com atletas amputados, segundo ele, é uma experiência de vida. “Você chega de uma maneira no estádio e sai de outra, completamente mudado. Para melhor.”
Como atleta, Cruz teve no britânico Sebastian Coe, seis anos mais velho, um de seus maiores rivais. O brasileiro tinha 18 anos em 1981, quando bateu o recorde mundial juvenil dos 800m em São Paulo. No mesmo ano, competindo entre adultos, foi para a Taça de Atletismo de Roma, mas “nem saiu na foto”, de tão longe que ficou do vencedor Coe, recordista mundial da prova com 1min41s73 entre 1979 e 1997. “O Coe é baixinho, mas quando ele corria ficava do meu tamanho [1,88m], enorme! Ele, o Johnny Gray, o Peter Elliott, o Steve Scott... Atletas que, se estivessem na prova, eu sabia: tinha de resgatar o melhor de mim para poder vencê-los.”
(Foto: Getty Images/Steve Powell)
Cruz relembra com bom humor o primeiro contato profissional com o paradesporto, em 2005, quando foi com a equipe norte-americana ao aberto Europeu em Helsinque, na Finlândia. "Foi uma sensação diferente. Estava distraído, olhei para o chão e vi uma perna. Dei um pulo! Pensei: como é que o cara deixa a perna aqui no chão?!", conta o brasiileiro.
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O brasileiro conta que só se sentiu seguro de que poderia contribuir quando foi questionado sobre a meelhor tática para a prova dos 1.500m de cadeirantes. “'Eu? Não tenho experiência nenhuma!'", relembra. "Mas me disseram que não tinha diferença, que a tática era igual, a mesma distância. Dei minha opinião e o garoto foi lá. Não ganhou, mas tentou executar. Ali foi o momento em que me aceitei no grupo”.
A criatividade ajuda na transição para o atletismo Paralímpico. “Você tem de adaptar situações rapidamente. Peguei meu conhecimento, minha infância brincando no Brasil, explorando o mundo naturalmente. Como se ensina um atleta com deficiência visual a fazer um exercício que ele não conhece? É tato, contato, som. É dessa forma que a gente se comunica.”
Joaquim Cruz ainda passou pela experiência de ser guia – de Ivonne Mosquera-Schmidt (deficiente visual, classe T11), uma das atletas dos Estados Unidos que compete no Engenhão. Segundo o treinador-guia, 90% dos atletas que estão treinando com ele têm potencial para pódio nos Jogos Paralímpicos.
“Os brasileiros? Claro que a gente estuda. O paratletismo aqui sempre teve um trabalho muito bom. O Andrew Parsons, presidente do Comitê Paralímpico, faz os dois lados: de gestão e de estar sempre com os atletas. São tantos os que eu admiro... O Brasil já tem uma geração que ainda nem conheço. Mas a gente faz um trabalho com os olhos voltados para o Brasil.”