A carreira de sucesso do técnico Nélio Moura lhe rendeu o prêmio de Melhor Técnico em esportes individuais, concedido pelo COB. A homenagem ocorreu na cerimônia do Prêmio Brasil Olímpico, dia 16 de dezembro, no Teatro do MAM, no Rio de Janeiro.
Nos Jogos Olímpicos de Pequim 2008, atletas treinados pelo técnico Nélio Moura dominaram as provas de salto em distância e conquistaram duas medalhas de ouro. O destaque foi a medalha de ouro de Maurren Maggi. Irving Saladino, atleta também treinado por Moura há quatro anos no Brasil, obteve o primeiro ouro olímpico da história do seu país, o Panamá.
Em 1992, Nélio iniciou os treinamentos com a medalhista de ouro, na época com 16 anos. Ele é técnico da seleção brasileira desde 1990, e em seu currículo destacam-se competições como: os Jogos Olímpicos (Sydney 2000, Atenas 2004 e Pequim 2008); Jogos Pan-Americanos Juvenil, Sub-23 e Adulto; Campeonatos Mundiais de Adultos; Mundiais Indoor; Mundiais Juvenis; entre outros. Moura tem mais de 20 artigos técnicos e científicos publicados em revistas especializadas, além de ser mestre em Performance Humana.
O que representa ser o treinador da primeira mulher a conquistar uma medalha de ouro no atletismo brasileiro?
A conquista da Maurren em Pequim foi espetacular e representou também o ponto alto de minha carreira e da Tânia (esposa). Seu ineditismo, no entanto, não foi para mim o que realmente importou. Competíamos no presente, com metas absolutamente concretas e realistas. Vê-la produzir seu melhor, no momento mais importante de sua vida esportiva foi algo indescritível.
Como é receber a premiação de melhor técnico de esporte individual, que ocorreu pela primeira vez no Prêmio Brasil Olímpico?
Estou bastante contente por ter a honra de representar os treinadores de modalidades individuais no primeiro ano em que o prêmio é desmembrado. Normalmente, pelas características do próprio esporte, treinadores de modalidades coletivas têm uma exposição bem maior que a nossa. Essa iniciativa do COB pode ajudar a mostrar as particularidades do trabalho do treinador de modalidades individuais.
Qual a sua avaliação como treinador de atletismo da organização dos Jogos Pan-americanos Rio 2007?
A organização dos Jogos Pan-americanos Rio 2007 foi, no meu ponto de vista, impecável. Atletas e treinadores tiveram as melhores condições para buscarem os melhores resultados naquele evento.
Quais sugestões você daria para que a realização Jogos Olímpicos de 2016 no Rio de Janeiro estimule o crescimento do esporte no país e na América Latina?
Ainda há tempo para iniciarmos um grande projeto de desenvolvimento do esporte olímpico no Brasil e na América Latina, que possa trazer alguns frutos já em 2016, mas principalmente a partir de 2020. Uma eventual vitória da candidatura do Rio deve servir como motor para a implantação desse projeto, que pode permitir o desenvolvimento esportivo sustentado na região. O principal é não esquecer que não basta uma grande organização na preparação e durante o próprio evento. O investimento na formação e na preparação das equipes olímpicas, e o bom uso das instalações após os Jogos, são fatores que determinarão o sucesso dessa iniciativa.
Qual a sua expectativa para a candidatura Rio 2016?
Reforçando a resposta anterior, minha expectativa é que não apenas demonstremos nossa capacidade para organizarmos grandes eventos, mas também de nos prepararmos adequadamente para eles, bem como a capacidade de usar a estrutura construída para o desenvolvimento contínuo do esporte no Brasil.
Como um jovem atleta se interessa pelas modalidades de saltos?
A figura do ídolo, do modelo tem uma importância muito grande na conquista de novos adeptos para a modalidade. Hoje, temos o maior e melhor ídolo que poderíamos desejar: uma pessoa carismática, vitoriosa, perseverante, com uma história de vida ímpar e exemplar, e genuinamente interessada em contribuir para que sua medalha se multiplique.
Você também é treinador do panamenho Irving Saladino, que obteve o primeiro ouro olímpico da história do seu país com um salto de 8,34m. Quais os desafios de treinar um atleta estrangeiro e qual foi a sua sensação ao vê-lo ganhar?
O Irving tem muitas semelhanças com os atletas brasileiros e, morando no Brasil há mais de quatro anos, já está plenamente adaptado. Também já acho que o conheço tão bem quanto aos demais atletas que oriento, portanto sua nacionalidade não impõe dificuldades maiores. O desafio era similar ao da Maurren: como transformar em realidade a possibilidade de medalha? Só depois da competição, acompanhando pela internet a celebração ocorrida no Panamá, é que me dei conta da grandeza de seu feito.
Quais são os atributos necessários para ser um bom técnico de atletismo?
Há uma série de pré-requisitos, mas basicamente quem deseja se tornar um bom profissional deve buscar a melhor formação, de maneira continuada. Não dá para parar de estudar. Precisamos estar aptos para consumir Ciência, aplicar no nosso dia-a-dia a melhor informação que estiver disponível. Mas há também uma série de atributos pessoais que determinam a Arte do treinador e quem conseguir a melhor combinação entre Arte e Ciência acaba tendo mais sucesso.
De que maneira o esporte pode servir como ferramenta de inclusão social?
Sempre acreditei que o esporte educa e tem um grande poder de transformação. São incontáveis os exemplos de pessoas que tiveram suas vidas completamente mudadas pelo esporte, a maioria delas anônimas. Pessoas que tiveram a oportunidade de estudar, que desenvolveram valores éticos e morais, que se socializaram, enfim, que conquistaram a cidadania, através do esporte.