Medalha Olímpica é arma de Felipe Gomes contra o preconceito
Atleta, que mora no Complexo da Maré, quer usar a fama para derrubar ideias distorcidas contra deficientes e moradores de comunidade
Atleta, que mora no Complexo da Maré, quer usar a fama para derrubar ideias distorcidas contra deficientes e moradores de comunidade
Para Felipe, não existe dificuldade capaz de o impedir de seguir em frente na luta por ouros Paralímpicos no Rio (Foto: Rio 2016/Alex Ferro)
Aos quatro anos de idade, os médicos disseram que ele nunca poderia correr. Hoje, Felipe Gomes é campeão Paralímpico e mundial nos 200 metros e tem tudo para brilhar nos Jogos Rio 2016. O brasileiro, que é cego, vive na Favela Nova Holanda, encravada no Complexo da Maré, um dos lugares mais carentes do Rio, e é um dos destaques do evento-teste do atletismo Paralímpico, que começa nesta quarta-feira (18).
A fama e as medalhas Olímpicas, segundo ele, ajudarão na luta contra o preconceito existente contra os deficientes e os moradores de comunidades. "Se eu aparecer na televisão ganhando medalha, mostrando a minha história, se os veículos de comunicação continuarem fazendo o que têm feito... Se dez pessoas me ouvirem e eu atingir duas, está valendo", afirma Felipe.
A deficiência surgiu quando Felipe era criança, e também naquela época nasceu o gosto pelo esporte. "Nasci com glaucoma, tive catarata e descolamento de retina. O médico falou que eu não poderia nem gritar, nem pular, nem correr", conta o brasileiro. "Eu gostava de jogar capoeira, era muito arisco."
Aos 11 anos, quando morava no Espírito Santo, descobriu o futebol para cegos, e mais tarde conheceu o goalball e o judô. O atletismo chegou em maio de 2003, convidado inesperadamente por um amigo para uma competição. "Me inscrevi e comecei a treinar. Em uma semana, fui para a competição e terminei com o bronze nos 100 metros e a prata no revezamento (4x100 metros)."

Felipe conta com a experiência de Jonas (e.) para um melhor desempenho nos 400m (Foto: Rio 2016/Alex Ferro)
Embora curta, a carreira de Felipe é repleta de medalhas: prata no Mundial de 2013, dois ouros e uma prata no Parapan de Toronto, em 2015, ouro e prata no Mundial de Doha, também no ano passado. O sucesso na última temporada rendeu uma indicação ao prêmio de atleta do ano pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), vencido pelo canoísta Luís Carlos Cardoso. Mas a conquista que mais marcou Felipe veio antes, nos Jogos Paralímpicos Londres 2012. "Não estava nem entre os cinco primeiros do ranking e de cara peguei o ex-recordista mundial. Ganhei dele, fui crescendo e ganhei ouro nos 200 metros."
No Rio, a meta de Felipe é conquistar quatro medalhas: 100 metros, 200 metros, revezamento 4x100 metros e a novidade, os 400 metros. "A mudança (para os 400m) exige mais treinamento", disse o atleta, que destaca a boa estrutura que tem hoje. "O Time Trevo, o Time Rio (da Prefeitura do Rio de Janeiro) e a Caixa me apoiam e tenho usado os recursos que ganho para investir em mim, A pista da CDA (Comissão de Desportos da Aeronáutica, no Campo dos Afonsos) é muito boa, tem a academia aqui do lado. Em todos esses anos, é a melhor estrutura."
Segundo Felipe, um dos desafios para os Jogos é se acertar com o guia Jonas Alexandre, com quem está desde o começo do ano. "Ainda cometemos muitos erros, mas conversamos no dia-a-dia. Quando acertarmos, com a vontade que estamos, vamos melhorar nossos tempos", diz ele, que projeta o sucesso do Brasil nos Jogos Paralímpicos. "A meta é atingir o quinto lugar no geral (do quadro de medalhas)."
Na comunidade da Maré, Felipe diz que a rotina geralmente é tranquila. "Graças a Deus não tenho problemas para circular. Tem até coisas curiosas, como os bandidos dizendo: 'Ô, te vi na televisão. Vamos conquistar a medalha de ouro'. O pessoal está antenado", brinca o atleta, que lamenta algumas situações."É desagradável sair de casa e passar do lado de um caveirão (carro blindado do Batalhão de Operações Policiais Especiais, o Bope) para ir treinar".
A fama e as medalhas, segundo ele, ajudarão a mudar o conceito muitas vezes distorcido que se tem tanto do deficiente quanto do morador de comunidades. "Se eu aparecer na televisão ganhando medalha, mostrando a minha história, se os veículos de comunicação continuarem fazendo o que têm feito... Se dez pessoas me ouvirem e eu atingir duas, está valendo", afirma Felipe, otimista com o que terá pela frente na vida e nos Jogos. "Vai dar tudo certo."