Paixão e visão estratégica: as ideias de Patrick Baumann
Em entrevista exclusiva, secretário-geral da FIBA fala da nova disciplina com times de três jogadores e torce por um “Yao Ming indiano”
Em entrevista exclusiva, secretário-geral da FIBA fala da nova disciplina com times de três jogadores e torce por um “Yao Ming indiano”
Patrick Baumann é o secretário-geral da FIBA (Foto: Divulgação/FIBA)
Aos 44 anos, o secretário-geral da Federação Internacional de Basquetebol (FIBA), Patrick Baumann, já passou por quase todas as funções dentro e fora de uma quadra. Foi jogador e árbitro na Itália. Supervisor e instrutor de árbitros na Suíça, seu país de origem. Fez o curso de treinador, comandou um time de juvenis e organizou torneios e clínicas de basquetebol para jovens antes de receber uma oportunidade na sede da FIBA, na Alemanha, em abril de 1994.
Trabalhou com o lendário Borislav Stankovic, o homem que liderou o processo de inclusão de atletas da NBA, a liga profissional norte-americana, na disputa dos Jogos Olímpicos a partir de Barcelona 1992. Em janeiro de 2003, tornou-se seu sucessor como secretário-geral na entidade que comanda os rumos do basquetebol no mundo.
Presente à sede do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016™ para o sorteio das chaves dos torneios feminino e masculino de Londres 2012, Baumann fez uma análise detalhada do momento atual de um dos esportes mais populares do mundo. Comentou sobre planos e projetos da FIBA, falou da expansão do esporte para regiões menos desenvolvidas do mundo e revelou um objetivo em particular: que a Índia vivencie o mesmo boom de popularidade do basquetebol que a China experimentou com o fenômeno Yao Ming.
Confira a entrevista:
Quais são as expectativas para os Jogos Olímpicos de Londres 2012? O que o mundo pode esperar após a grandiosidade de Pequim 2008?
Não vai ser comparável a Pequim. Nem todo mundo conhecia bem Pequim, ou a China, ou o que eles poderiam mostrar, portanto foi uma outra atmosfera. Não é melhor que Londres, é apenas diferente. Agora, você chega a Londres, que é uma cidade incrível, e vai presenciar Jogos Olímpicos em uma cidade que já recebeu os Jogos [Nota: Londres foi sede em 1908 e 1948]. O espírito dos Jogos vai estar lá. Estou ansioso, vai ser empolgante.
Depois de quase três anos, como avalia a escolha do Rio como sede dos Jogos de 2016? Qual o significado para o esporte em geral?
É uma incrível oportunidade para o país e a cidade se promoverem a nível mundial. O Rio é muito conhecido em todos os lugares pelo seu ambiente, que é fantástico. A cidade, por si só, já é empolgante. Para a América do Sul, o investimento em esporte que virá pode trazer benefícios por décadas depois dos Jogos. Estamos todos na expectativa. Foi a escolha certa e será uma grande oportunidade para toda a região, para todos os atletas que vêm trabalhando duro por anos. Vamos ver muito crescimento nos rankings mundiais de atletas dessa parte do mundo. Isso só traz benefícios.
E para o basquete em particular? Quais os próximos planos da FIBA para a América do Sul?
O basquetebol é jogado em todas as partes. Temos países que têm programas de basquetebol muito fortes na América do Sul. Alguns têm um pouco mais de dificuldade para chegar ao nível da Argentina e do Brasil, mas a Venezuela, por exemplo, estará sediando agora o Torneio Pré-Olímpico Mundial masculino e regularmente tem um bom desempenho. O Chile recebeu o Campeonato Mundial feminino sub-19 e faz um bom trabalho com as meninas. Quando os Jogos acontecerem aqui, vai haver uma grande excitação nesses países para que se qualifiquem e participem. Temos uma liga de clubes nas Américas que está indo muito bem. Agora, está na televisão para toda a região. Você vê que o esporte está cada vez melhor, e não apenas na Argentina e no Brasil.
A expansão do mercado asiático em diversas áreas está se refletindo no basquetebol? Como analisa a conjuntura na Ásia?
O basquetebol é extremamente popular na Ásia. Especialmente no leste, na China, ou no sudeste, onde existem ligas muito boas, muito bem estruturadas em vários países. Depois, temos países muito fortes, como o Irã, que vêm trabalhando muito duro nos últimos anos. A dificuldade que certamente existe na Ásia é a altura dos atletas, mas, ainda assim, chineses, coreanos e outros têm as habilidades para formar excelentes times. A questão econômica está no mesmo contexto do que acontece aqui no Brasil. O futuro está onde há investimento hoje. Se o dinheiro for investido apropriadamente e a estrutura for feita de forma profissional, como na Europa ou na América do Norte, veremos mais da China, da Coréia, do Irã, chegando e jogando no mais alto nível. É a lógica da economia e das ambições desses países.
No caso da China, o fenômeno Yao Ming foi fundamental na popularização do esporte. Qual a importância dessas referências para o desenvolvimento do esporte?
Yao Ming é hoje uma pessoa incrivelmente poderosa no sentido de que as pessoas conhecem ele. Agora, ele começa, por exemplo, a ter seu papel no governo. Em Xangai, ele continua sendo dono de um time. Está comentando jogos na televisão e as pessoas gostam de ouvi-lo. E agora temos Jeremy Lin! [Nota: Jogador nascido nos Estados Unidos, de ascendência asiática, que atua pelo New York Knicks, da NBA] Lin é uma mania! Então, há sempre o momento para um ou outro jogador que aparece, grandes e jovens talentos que se tornarão estrelas mundiais. Esperamos que, em dez anos, tenhamos um Yao Ming na Índia! Isso seria um incrível salto para o basquetebol por podermos penetrar neste subcontinente, que está se desenvolvendo, mas não como outros centros.
Diversos esportes estão se adaptando a novos formatos, que atraiam o interesse da juventude e que seja amigável para a mídia. O basquete, por exemplo, foi testado no modelo de meia-quadra com três jogadores por time nos Jogos Olímpicos da Juventude. Como avalia esta renovação?
Nós vamos continuar desenvolvendo o Três-a-três, que estará também nos Jogos Olímpicos da Juventude Nanjing 2014. Estamos desenvolvendo a disciplina mundo afora. Teremos, neste verão, pelo primeiro ano, um Tour mundial com cinco etapas, mais a final, que será em Miami, Estados Unidos. Teremos dois campeonatos mundiais, um na Grécia, para os seniores, outro na Espanha, para os juniores. Estaremos lançando um aplicativo para Iphone e Android, para as pessoas jogarem e serem parte da comunidade do Três-a-três. Teremos um ranking, como temos no xadrez, no tênis. Nossa visão é multiplicar o número de amigos e jogadores do basquetebol de várias formas nos próximos quatro, cinco anos. Obviamente, nós gostaríamos de ver o Três-a-três no Rio 2016™ ou em 2020. Estamos nos esforçando muito para estar preparados para entregar documentos já para 2016.
De que maneira se desenvolve a relação da FIBA com a NBA? Vinte anos após a inclusão de atletas da liga norte-americana nos Jogos Olímpicos, como analisa o impacto daquela decisão para o esporte?
Primeiro de tudo, as relações são boas entre FIBA e NBA. Em segundo lugar, há uma relação excelente entre o basquetebol de modo geral e as atividades que a NBA vem fazendo ao redor do mundo. Tudo que eles investem vem ajudando a desenvolver o esporte no mundo inteiro. São 20 anos entre os Jogos de Barcelona 1992 e Londres 2012. É incrível como o esporte se tornou global, muito também pelo trabalho feito pela NBA ao redor do mundo. Agora, estamos tentando modelar os próximos 20 anos. Estamos tendo debates muito animadores com a NBA. Sempre há muitas dificuldades, mas, em geral, a ideia é que há muito mais a fazer juntos, há muito para incrementar no Campeonato Mundial, por exemplo. Há muito para compartilhar em termos de valores com os administradores da NBA. Há muito o que crescer.
Fazendo um exercício de análise para daqui a dez anos, como vê a FIBA e o basquetebol no mundo? Qual é o seu sonho?
Eu adoraria ver, por exemplo, China e Estados Unidos em uma final de Jogos Olímpicos, ou ainda o Brasil contra uma equipe africana. Seria um sonho. Se você tiver China, América do Sul e África subindo um degrau e tornando-se capazes de desafiar as grandes nações do basquetebol, acho que seria um sucesso extraordinário para o esporte.
Com 44 anos, o senhor já é secretário-geral da FIBA e membro do Comitê Olímpico Internacional. Pessoalmente, o que ainda espera vivenciar dentro do Movimento Olímpico?
Tenho muita honra e continuo empolgado como uma criança por estar nesse ambiente. É extraordinário conhecer as pessoas, viajar pelo mundo e estar perto de amantes do basquetebol. Outro lado é ter a possibilidade de pegar o telefone e ligar para pessoas como Carlos Nuzman, que trouxe os Jogos para o Brasil. Isso tudo é uma experiência muito enriquecedora para mim, que vim da Suíça, um país onde o basquetebol ainda é pouco desenvolvido. Mas, no fim das contas, o que realmente empolga é ir a um estádio, independente de ser o nosso esporte. Sentir a emoção dos atletas quando um competidor inesperado ganha os 100 metros, por exemplo. É o tipo de coisa que ainda me provoca calafrios e é isso que torna tudo tão legal. E aí tem todas as pessoas em volta. Você não é amigo de todos, mas todos são amigos do esporte e apaixonados pelo esporte, e isso é que dá a emoção a este ambiente. Me considero um sortudo de estar envolvido nisso.