Oussama Mellouli e Kirsty Coventry: a África conquista o mundo
No Brasil, medalhistas de ouro se empolgam com Rio 2016 e torcem pelos primeiros Jogos na África
No Brasil, medalhistas de ouro se empolgam com Rio 2016 e torcem pelos primeiros Jogos na África
Kirsty Coventry e Oussama Mellouli levam a África ao topo (Fotos: Getty Images/Ezra Shaw)
Quando Oussama Mellouli subiu ao bloco de partida 7 para a final dos 1.500m nado livre em Pequim 2008, o mundo só tinha olhos para... Grant Hackett. O peso da touca amarela australiana e dos dois últimos ouros olímpicos da prova na bagagem, o recorde mundial, os flashes, as câmeras, o barulho da torcida, tudo empurrava a lenda da raia 4 rumo ao topo. De novo. Mas Mellouli achava que não.
Os primeiros 500 metros, o tunisiano completou na penúltima posição. Na marca dos 1.000, já estava em terceiro, colado nos líderes Hackett e Cochrane. Para a última das 30 voltas na piscina, Mellouli virou na frente. No fim, em uma prova de quase 15 minutos, tocou a parede 69 centésimos antes do rival. Segurou-se na raia, respirou por um momento e bateu no peito. Incrédulo, o público vibrava com uma das maiores surpresas dos Jogos.
Era a primeira medalha de ouro individual de um nadador africano na história. “Quando o primeiro conquista um resultado assim, a tendência é que muitos passem a seguir. No meu país, depois da vitória, o número de praticantes de natação cresceu quatro, cinco vezes. A estrutura para o esporte cresce junto. As famílias animam seus filhos a aprender, se dedicar, com um exemplo que está próximo a eles”, comemora o ídolo, ganhador da segunda medalha de ouro de seu país, depois de Mohamed Gammoudi, nos 5.000 metros do atletismo, em 1968.
Glória africana
A resistência e a perseverança dos tunisianos é o espelho da África na história olímpica. Dois outros países do continente conquistaram medalhas na natação. A África do Sul, pioneira, teve em Joan Cynthia Harrison (100m costas em Helsinque 1952) a inspiração para Penny Heyns levar os dois ouros no nado peito em Atlanta 1996, nos 100m e 200m. Em 2004, Atenas testemunhou o inesquecível duelo no revezamento 4x100m nado livre masculino, onde a equipe sul-africana bateu os EUA de Michael Phelps.
Ouvir o hino com um representante no lugar mais alto do pódio também já foi privilégio do Zimbábue. Kirsty Coventry, atual bicampeã dos 200m costas e recordista mundial, personifica a esperança para milhões.
“No meu país, há muita desigualdade, mas eu sou um exemplo de alguém que não veio de uma família rica e pôde conquistar seus objetivos. No esporte, todo mundo é igual, independente de sua cor, raça, país. Dentro da piscina, da quadra, do campo, não há qualquer tipo de diferença. Simbolicamente, mostra ao mundo que é possível conviver com o diferente. Traz lições para a vida dos indivíduos e dos países”, afirma Kirsty, na primeira visita ao Brasil.
Esperança e desenvolvimento
Ver o sonho olímpico virar realidade também para o Rio de Janeiro empolga os campeões. “Essa vitória leva a esperança, não só para a América do Sul, mas para todas as regiões em desenvolvimento, de que é possível ser tão bom quanto os outros ou melhor. É importante para o Brasil e para seus vizinhos”, considera Mellouli, que foi bolsista do Programa Solidariedade Olímpica, do Comitê Olímpico Internacional.
“O Brasil tem muito potencial. Jogos bem-sucedidos aqui servem de exemplo para outros centros. Esta cidade recebe muito bem as pessoas e é isso que vai mostrar em 2016. É ótimo para os atletas que a cidade e as pessoas estejam envolvidas, que haja este clima e energia. Esporte tem a ver com isso”, completa a zimbabuana.
Povos irmãos, América do Sul e África são as últimas fronteiras das sedes de Jogos Olímpicos. Para Oussama Mellouli e Kirsty Coventry, não por muito tempo.
“A África recebeu uma edição da Copa do Mundo de futebol no último ano e foi uma boa experiência, mesmo que tenha havido alguns problemas. Receber os melhores atletas no seu país inspira as pessoas. Espero e acho possível que isso aconteça no futuro”, diz Kirsty, acompanhada pelo tunisiano. “O Brasil quebra barreiras. É mais uma prova de que os povos são capazes de superar seus desafios. O exemplo da Copa no continente africano serve para os Jogos Olímpicos”.
Em 2016, aos 32 anos, ambos pretendem estar no Rio, mesmo que não na piscina. Os recordes, os flashes, as câmeras, vêm e vão. Ficarão um dia para trás, como as barreiras de todo um continente. Chegar ao topo parecia impossível aos olhos de muitos, mas Mellouli e Coventry acharam que não.