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Um mundo novo

Ouro na Copa de Halterofilismo, Joseano Felipe é o brasileiro mais perto da classificação para os Jogos Paralímpicos

Por Rio 2016

Evento internacional na Arena Carioca 1, no Parque Olímpico da Barra, testou a operação da modalidade para o Rio 2016

Ouro na Copa de Halterofilismo, Joseano Felipe é o brasileiro mais perto da classificação para os Jogos Paralímpicos

Treinado pelo filho, Joseano está entre os oito primeiros do ranking do IPC (Rio 2016/Alex Ferro)

Texto: Denise Mirás    Fotos: Rio 2016/Alex Ferro

“São coisas que acontecem e depois merecem reflexão. Será que eu teria de estar aqui?” Quem se pergunta é Joseano Felipe, 42 anos, policial militar aposentado. Paraibano que mora em Natal, Rio Grande do Norte, bateu o recorde das Américas da categoria até 107kg do halterofilismo, e está ao lado da área de competição na Arena Carioca 1, no Parque Olímpico da Barra. É sábado (23), último dia da etapa carioca da Copa do Mundo e esse resultado praticamente valeu a vaga para participar pela primeira vez dos Jogos Paralímpicos – no Rio 2016.

E por que Joseano está ali, pensativo, refletindo sobre o significado da conquista de mais uma medalha de ouro na carreira, agora por levantar 206 quilos e se tornar o melhor do continente em sua categoria?

Porque foi baleado na coluna vertebral em 2000, durante ação para evitar a fuga de Valdetário Carneiro - lendário assaltante de bancos conhecido como O Lampião do Nordeste -, em uma rebelião no presídio de Alcaçuz, em Nísia Floresta, cidade próxima a Natal. Assim, Joseano se tornou cadeirante e entrou em depressão. Somente quando começou a fazer hidroginástica e depois conheceu o halterofilismo a convite de Zeca Vilar, que reencontrou motivação. Em 2005, vice-campeão brasileiro, se convenceu: “Este é o meu esporte”.

Felipe Joseano, medalha de ouro na Copa do Mundo de Halterofilismo do Rio de Janeiro 2016

Policial militar que ficou paraplégico após ser baleado durante rebelião em um presídio levou o ouro na categoria até 107kg

 

Em pódios, ouvindo o Hino Nacional, Joseano diz que “passa o filme de sua vida pela cabeça”. Segura o choro, mas ali percebe como “tudo passou muito rápido”.

No sábado, com seu recorde das Américas, ainda estava meio inconformado porque não fez os 210 quilos que queria. “Faltou um pouquinho.” Quando começou, levantava 116. Entre 2013 e 2015, passou de 180 para 210, mas conta que em treinos já chegou aos 215.

Assim, vem em uma ascendente. Diz que ganhou uma sacudida há cerca de um ano, quando começou a treinar com o filho, Phelippe Michel - que está no último ano da faculdade de educação física -, e os dois se aproximaram mais. “Se não tivesse acontecido, eu estaria aqui? Iria me unir mais a meu filho? Estaria trabalhando com ele, feliz prá caramba?”

Joseano Felipe, como outros atletas brasileiros do halterofilismo, não irá à etapa da Copa do Mundo de Dubai, nos Emirados Árabes, de 15 a 19 de fevereiro. Vai partir direto para a última, de Kuala Lumpur, na Malásia, entre os dias 24 a 28.

Curiosidades sobre o halterofilismo no nosso infográfico interativo

Vai tentar melhorar sua colocação no ranking. Se está em sétimo, na real está em sexto, porque a China tem dois atletas acima dele, mas só pode contar um na classificação para os Jogos Paralímpicos. Os oito primeiros de cada categoria terão vaga direta no Rio 2016, sem precisar calcular remanejamento de vagas ou esperar por convites, mas cada país pode classificar apenas um representante por categoria. "Não posso deixar escapar essa cance de competir nos Jogos Paralímpicos. Venho melhorando marcas, mesmo com a minha idade", ressalta, antes de comentar como é ter o filho como treinador.

“Meu filho pega pesado. Estabelece metas para marcas e por competição. Em casa, quem manda sou eu, mas no treino... Quem manda é ele”

Equipe brasileira se destaca em evento-este 

Joseano Felipe não foi uma estrela brasileira solitária nesta estapa da Copa do Mundo que serviu como evento-teste da modalidade para os Jogos Rio 2016. Para o técnico de halterofilismo do CPB Valdecir Lopes, os atletas do Brasil “mostraram coragem”. “Atingiram o desempenho que a gente esperava. Um ou outro não, mas temos tempo de corrigir.” No geral, levaram dez medalhas (quatro de ouro, duas de prata e quatro de bronze), à frente do Chile e da Colômbia, 

Essas correções serão feitas até a etapa de Kuala Lumpur da Copa do Mundo, na Malásia, de 24 a 28 de fevereiro, a última chance de tentar marcas para ficar entre os oito melhores do mundo de cada categoria e não depender de remanejamento de vagas ou convites para participar dos Jogos Paralímpicos Rio 2016.

Valdecir, que é técnico de Márcia Menezes (da categoria até 86kg), destacou Joseano Felipe – o único brasileiro que hoje se coloca entre os oito do mundo – assim como a própria Márcia, Bruno Carra (até 59kg) e Evanio Rodrigues (até 60kg), que deixaram de fazer suas marcas “por detalhes”. “Daqui para frente vamos analisar o desempenho de todos, acompanhar nossos adversários na etapa de Dubai e chegar a última etapa já com a matemática pronta sobre os resultados que precisaremos.” A parte psicológica será fundamental. “Repito que mente pronta vale mais que corpo treinado”, completou Valdecir.

Visão internacional

Jon Amos, o diretor-executivo do Comitê Paralímpico Internacional (IPC, na sigla em inglês) para o halterofilismo, se mostrava animado até para brincar, no sábado (23), último dia da etapa do Rio de Janeiro da Copa do Mundo que foi disputada na Arena Carioca 1, no Parque Olímpico da Barra. “Satisfeito, eu nunca estou”, fez graça.

A frase era só para desenrolar uma série de elogios sobre o torneio que serviu como evento-teste para o Comitê Organizador Rio 2016. “Foi muito proveitoso. Estivemos muito perto de como será nos Jogos. Os voluntários foram impecáveis”, comentou o britânico.

Amos explicou as pequenas mudanças a serem discutidas, basicamente sobre a apresentação dos atletas. Foi testada uma nova maneira: em vez de listarem os nomes de todos do grupo de cada categoria, os atletas foram mais valorizados, chamados um por um ao palco de competição. “Precisamos de pequenos ajustes, como no tempo entre a saída da área de aquecimento e a subida na rampa para a apresentação dos atletas no palco”, disse, destacando que mais o aquecimento e levantar peso são mais importantes do que dar tchauzinho para a torcida.

Copa do Mundo do Halterofilismo no Rio de Janeiro 2016

Evento testou instalações como a rampa de acesso de atletas da área de aquecimento para o palco de competição

 

Pedro Meloni, gerente de Levantamento de Peso e Halterofilismo do Comitê Rio 2016, fez uma avaliação positiva. “Tivemos o modelo novo de apresentação e vamos pensar em uma pequena modificação na rampa que leva do aquecimento ao palco, para que seja um pouco menos inclinada”, contou.

Outra novidade foi o carbonato de magnésio, que os atletas esfregam nas mãos para conseguir mais aderência ao segurar a barra. “Em vez do pó, usamos em bloco e todos adoraram”, explicou Meloni. O medalhista de ouro Joseano Felipe confirmou que “suja menos” e os atletas não precisam ter o trabalho de lavar as cadeiras de rodas quando chegam ao hotel.

Copa do Mundo de Halterofilismo no Rio de Janeiro 2016

Entre as novidades, o carbono de magnésio em barra agradou os atletas porque suja menos do que o aderente em pó

 

Do ponto de vista de testes de operação, a etapa carioca da Copa do Mundo de Halterofilismo foi “fantástica”, segundo Edílson Rocha, o Tubiba, diretor técnico do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB). “Os atletas viveram o clima de competição, a acessibilidade, o fluxo dos deslocamentos, o nível de rigor e a cobrança da arbitragem internacional.”

Além dos testes de oficiais técnicos e equipamentos, também houve controle antidopagem. Maria Fernanda Frias, do departamento responsável pelo setor no CPB, explicou que foram feitas coletas de urina e também sangue, a cargo de oficiais da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABDC), que passaram por curso sobre especificidades de atletas Paralímpicos. 

Saiba mais sobre ingressos para as competições de halterofilismo dos Jogos Paralímpicos Rio 2016