Misty May: o valor das adversárias e de dois ouros olímpicos
Rumo à terceira medalha de ouro em Jogos Olímpicos, jogadora de Vôlei de Praia fala da evolução do esporte e da importância de competir com adversárias de peso
Rumo à terceira medalha de ouro em Jogos Olímpicos, jogadora de Vôlei de Praia fala da evolução do esporte e da importância de competir com adversárias de peso
Misty May-Treanor com a medalha de ouro de Pequim 2008 nas mãos. À esquerda, Kerri Walsh. (©Getty Images/Jamie Squire)
Aos 34 anos, Misty May-Treanor parece saber melhor que ninguém que o pior oponente é aquele que você não conhece. A jogadora de Vôlei de Praia, nascida no berço do esporte – a Califórnia – sabe que o caminho até o ouro é repleto de adversários. No caso dela, adversárias, as melhores duplas femininas do mundo, com as quais aprende a ser melhor a cada partida.
Misty May jogou seu primeiro torneio de Voleibol aos oito anos. Passou os quatorze anos seguintes aperfeiçoando-se na versão de quadra coberta. Mas o Voleibol cresceu tanto e atingiu tal nível de exigência que a atleta, que se juntou à seleção feminina de Voleibol dos Estados Unidos em 1999, achou melhor pegar um pouco de ar fresco. Então, no mesmo ano, decidiu jogar Vôlei de Praia e juntou-se a Holly McPeak, disputando o primeiro torneio da FIVB (Federação Internacional de Voleibol) em Salvador, no Brasil. A dupla se separou em 2000, ano em que conquistaram o quinto lugar nos Jogos Olímpicos de Sydney.
Mas foi com Kerri Walsh que Misty May alçou voo até o topo do pódio olímpico. A partir de 2001, a dupla dominou os torneios da FIVB e da AVP (Associação Americana de Vôlei de Praia) e conquistou a medalha de ouro nos dois últimos Jogos Olímpicos, Atenas 2004 e Pequim 2008.
Misty, que se recuperou completamente de uma torção no ligamento cruzado posterior (LCP) do joelho em 2002, sabe que o momento de glória sempre chega. Sabe que, para alcançar a medalha de ouro, é preciso aprender com as adversidades, mas, principalmente, com os adversários.
Confira abaixo a entrevista com a atual bicampeã olímpica de Vôlei de Praia.
Walsh/May-Treanor caminham rumo à terceira edição de Jogos Olímpicos e ao terceiro ouro. A dupla é apontada como a melhor da história do esporte. O que significa, para você, ser “a melhor da história”?
Fico muito lisonjeada por ser chamada de “a melhor da história”, mas eu gosto de pensar que ainda estamos aprendendo e crescendo como jogadoras. É claro que isso significa muita coisa, mas eu pude aprender com as melhores jogadoras (Adriana, Shelda, Jackie, Sandra, Holly McPeak, e agora Juliana e Larissa). Nosso esporte é muito difícil e, para continuar no topo e alcançar o que eu e Kerri conseguimos, foi necessário muito foco e trabalho pesado.
Você vem da Califórnia (EUA), berço do Vôlei de Praia. Vivenciou o rápido crescimento do esporte após a entrada no programa olímpico, em Atlanta 1996. Como vê a evolução do Voleibol de Praia, um esporte relativamente novo, mas que já está entre os maiores sucessos de público em Jogos Olímpicos?
Acho que o nosso esporte é um dos melhores eventos para se assistir nos Jogos Olímpicos. Está sempre lotado, e os fãs se divertem. O esporte cresceu tanto que ficou conhecido no mundo inteiro, com torcidas de jovens e de pessoas mais velhas. Espero que, em Londres e no Rio, a instalação de Vôlei de Praia seja uma das primeiras com lotação esgotada. Não é apenas ótimo ver os atletas, mas a atmosfera da praia também permite que os espectadores relaxem, torçam alto e curtam o esporte.
Quais foram as adversárias mais duras que já enfrentou dentro de quadra?
Ah. Todas as duplas contra as quais competimos são duras. O mundo está certamente tendo que correr atrás do Brasil e dos Estados Unidos, que ocupam a linha de frente do Vôlei de Praia. Tivemos ótimas disputas com Adriana/Shelda, com a dupla chinesa Xue/Zhang e agora com Juliana/Larissa. Não importa contra quem jogamos, devemos sempre jogar no nosso nível mais alto.
De que forma ter chegado ao quinto lugar em Sydney 2000, formando dupla com Holly McPeak, colaborou para o bicampeonato olímpico posterior?
Acho que ter participado dos Jogos Olímpicos com Holly foi uma grande festa. Ninguém esperava que chegássemos lá, e nossa classificação foi dificultada porque eu tinha lesões. Mas provamos que todos estavam enganados e conseguimos. Com certeza, ter chegado tão perto colocou mais lenha na fogueira e me deixou sedenta pelo ouro. Só de termos chegado aos Jogos de 2000, consegui ver que eu podia chegar lá e, se desse duro, o ouro estava a meu alcance.
Em 2004, sua dupla enfrentou Adriana Behar e Shelda na final olímpica e saiu vitoriosa. O time brasileiro é apontado por muitos como um dos melhores da história. Sete anos depois, o que guarda daquela caminhada olímpica em Atenas?
Meus ídolos são Adriana e Shelda. Para mim, jogar na mesma quadra que elas é muito bom. Eu ainda as considero o melhor time da história. E participar constantemente de disputas com a dupla me ajudou a ser uma jogadora melhor.
Ainda parece um sonho [ter conseguido a medalha em Atenas]. Embora tenha se passado bastante tempo, o filme ainda roda na minha cabeça toda vez que ouço o hino nacional dos Estados Unidos. O que mais me vem à memória é o quanto eu e Kerri estávamos focadas e tínhamos apenas um objetivo na cabeça.
Em 2008, você foi eleita a melhor jogadora dos Jogos Olímpicos. Conte um pouco sobre a experiência em Pequim.
Acho que, dos três Jogos Olímpicos em que estive, o de Pequim foi o que mais aproveitei em termos de experiência olímpica. Consegui ter um tempo para assistir a outros eventos. Em Jogos anteriores, devido à agenda das competições e muito foco, eu não me permitia relaxar e aproveitar. Grande parte da minha família estava lá, portanto, ganhar na frente deles e poder comemorar com eles depois é algo de que nunca mais me esquecerei. Os Jogos de Pequim me ensinaram a recuar um pouco, respirar e aproveitar a jornada.
Estados Unidos e Brasil são historicamente as maiores potências do Voleibol de Praia, mas a China já mostra resultados significativos. Acredita que os dois tradicionais países estão com o reinado em risco?
Penso que tanto os Estados Unidos quanto o Brasil ajudaram a moldar o Vôlei de Praia como um esporte. O reinado está ameaçado? Claro que está, mas é ótimo ver o esporte crescendo mundo afora e outros países desenvolvendo suas estratégias para competir no mesmo nível que Brasil e EUA.
O Brasil receberá Jogos Olímpicos pela primeira vez em 2016, e o Voleibol de Praia será disputado no tradicional palco da Praia de Copacabana. Você já competiu sob o sol forte e o calor humano do público do Rio. Quando soube da vitória da cidade, o que pensou e sentiu?
Quando o Rio ganhou a candidatura, eu pensei que finalmente o Vôlei de Praia estava voltando a acontecer em uma praia de verdade, ou que pelo menos as competições aconteceriam na praia. A última vez em que as competições de Vôlei de Praia aconteceram em uma praia de verdade foi em Bondi, nos Jogos de Sydney. O espírito dos fãs e das pessoas no Brasil é fantástico. Sei que a instalação de Vôlei de Praia será o melhor lugar para estar durante os Jogos de 2016. Sempre gostei de jogar para a torcida do Rio. Embora seja quente, a energia é inigualável.