Maurren Maggi e um detalhe do tamanho do mundo
Campeã olímpica do salto em distância relembra Pequim e fala dos Jogos em casa em 2016
Campeã olímpica do salto em distância relembra Pequim e fala dos Jogos em casa em 2016
Maurren Maggi dá a volta olímpica em Pequim 2008 (Foto: Getty Images/Jamie Squire)
Uma vírgula. Um traço. Um segundo em milênios. Um mar de gotas. Nos Jogos Olímpicos de Pequim 2008, um grão de areia em um estádio lotado. Um sopro, uma batida de coração. Para a brasileira Maurren Maggi, nada pode ser maior do que um centímetro.
Foram 26 passos em oito segundos, o salto com o pé direito e um voo de 7,04m. Então, mais de 30 minutos de expectativa. A principal concorrente, a russa Tatyana Lebedeva, campeã olímpica e mundial à época, teria mais quatro tentativas de saltos. Queimou três. Na última chance, encaixou a técnica perfeita. Levantou da areia olhando a régua de marcação da distância. Em alguns segundos, o resultado no placar eletrônico: 7,03m.
Com as duas mãos no rosto e o público em polvorosa, Maurren corre pela pista e encontra seu staff na arquibancada. Emocionada, estende uma grande bandeira do Brasil e sai para a volta olímpica com uma miniatura da bandeira chinesa. Era o ouro mais aguardado, o auge em um detalhe.
“Uma emoção única para mim”, relembra. “É o topo do mundo. É onde todos lutamos para chegar. Está lá na história, ninguém apaga. Agora, depois de quase três anos, já está na hora de pensar em defender meu título. A experiência conta. Tem novas meninas surgindo, mas, até 2012, cabeça focada para competir de igual para igual”, diz Maurren, prestes a completar 35 anos, mãe de Sofia, mas com o mesmo ar jovial, quase infantil, nas expressões de quem, até pouco tempo, carregava seu bichinho de pelúcia junto com o material esportivo pelas pistas do mundo.
Jogos Olímpicos em casa
Competir na pista do Estádio Olímpico João Havelange, palco do Atletismo em 2016, é corriqueiro na carreira de Maurren. Foi campeã dos Jogos Pan-Americanos Rio 2007 com as arquibancadas lotadas gritando seu nome. Em maio, experimentou novamente o clima da instalação no GP Brasil 2011. Mais um ouro.
“É sempre bom competir aqui. Eles [o público] são uns fofos! Apoiam muito. A gente sempre cresce dentro de casa. Em 2016, vai ser espetacular. Os brasileiros sabem fazer festa. Não sei se consigo chegar até lá, mas, se chegar, quero comemorar depois dos Jogos, mais do que antes”, brinca a atleta, que treina em São Paulo, centro financeiro e cidade mais populosa do Brasil.
Maurren chegou a disputar provas dos 100m com barreiras até 2002. Focou, então, no salto em distância, incluindo no cardápio o salto triplo em algumas ocasiões. A marca que a levou à medalha de ouro olímpica foi apenas a terceira melhor de sua carreira. Em 1999, atingiu 7m26, em Bogotá (Colômbia). Em 2003, fez 7m06 em Milão (Itália). O recorde mundial do salto em distância feminino é de 1988. A soviética Galina Chistyakova obteve 7m52 em Leningrado (hoje na Rússia).
A Escola brasileira
O ouro de Maurren Maggi a alçou ao patamar de maior nome do atletismo brasileiro feminino na história. Conquistou a quarta medalha dourada para o país no esporte, após Joaquim Cruz, nos 800m em Los Angeles 1984, e Adhemar Ferreira da Silva, no salto triplo em Helsinque 1952 e Melbourne/Estocolmo 1956. A receita para diminuir a distância entre os ouros olímpicos, Maurren acredita que esteja na escola.
“A educação e a escola foram fundamentais. Sempre tive o esporte dentro da escola. Me destaquei onde estudava, ganhei bolsa para competir e fui me desenvolvendo. A escola é o caminho. Um dia, aqui no Brasil, isso vai ser natural. Massifica o esporte e então trabalha em cima dos mais talentosos. Daí surgem novos campeões olímpicos”.
Dadas as oportunidades, Maurren encurtou distâncias que pareciam infinitas. Após a ausência nos Jogos de Atenas 2004 por conta de uma suspensão por doping, voltou a competir depois de dois anos longe das pistas. Desde então, venceu como nunca. No Estádio Olímpico de Pequim, o pulso e as palmas, um sopro e as batidas do coração, impulsionaram um centímetro que não poderia ser maior.