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Um mundo novo

Esther Vergeer, número 1 do tênis em cadeira de rodas, aposta no esporte mesmo longe das quadras

Por Rio 2016

Atleta holandesa visita sede do Comitê Rio 2016, elogia o projeto dos Jogos e conta seus planos após encerrar carreira

Esther Vergeer, número 1 do tênis em cadeira de rodas, aposta no esporte mesmo longe das quadras

Esther Vergeer visita o Comitê Rio 2016 e posa com a marca dos Jogos Paralímpicos (Rio 2016/Alex Ferro)

Ela é uma lenda viva do esporte paralímpico internacional. Invicta há uma década - sua última derrota foi em 30 de janeiro de 2003, em Sydney, para a australiana Daniele di Toro - a tenista holandesa Esther Vergeer coleciona nada menos que sete ouros e uma prata paralímpicos, além do impressionante recorde de 470 vitórias consecutivas no tênis em cadeira de rodas.

Mesmo após anunciar em fevereiro deste ano sua aposentadoria das quadras, a trajetória de Esther no esporte ainda está longe de terminar. Além de liderar uma fundação para crianças com deficiência, a número 1 do ranking desde 1999 tem a certeza de que pretende continuar a atuar no universo esportivo. Integrante do Comitê Paralímpico Holandês, a atleta esteve na sede do Comitê Rio 2016 para conhecer o projeto e compartilhar sua vasta experiência com os organizadores dos Jogos.

Rio 2016: Após encerrar a sua carreira como atleta, quais os seus próximos passos?

Esther Vergeer: Desde que decidi encerrar a minha carreira, estou decidindo quais serão os meus próximos passos. Sei com certeza que ainda quero estar envolvida com esportes paralímpicos e por isso estou atualmente trabalhando com o Comitê Paralímpico Holandês, quando concordamos que vamos trabalhar juntos para promover o ambiente ideal para os nossos atletas nos Jogos do Rio. Por isso estou aqui, para conhecer o projeto e ver como eu posso ajudar a partir da minha experiência em Jogos anteriores, dar algumas dicas, etc.

Rio 2016: O quão diferente é conhecer a organização dos Jogos?

EV: É muito interessante! Como atleta, você acaba só se envolvendo nas competições e no seu próprio processo para chegar até lá e dar o seu melhor. Mas você não tem noção de tudo que está envolvido no evento, como coisas como acomodações, transporte e as próprias instalações são organizadas. Então, é muito impressionante ter a dimensão do evento e perceber como você, pela sua experiência, pode contribuir com ideias para antecipar soluções.

Rio 2016: E sobre o projeto dos Jogos Rio 2016? Quais foram as suas impressões?

EV: Eles nos mostraram todo o projeto e fiquei muito impressionada do que vi até agora. A Vila Paralímpica, por exemplo, vai ser excepcional. Muito confortável para os atletas, mas também muito prática para treinamento e para as próprias competições. Ainda falta bastante tempo e temos muito a fazer, mas já consigo ver o quão estruturado é o comitê organizador e que existe muita experiência aqui dentro. Então, sim, será um longo processo, existem desafios, mas todos aqui estão abertos para discutir e dispostos a ouvir as ideias de todos. Isto é ótimo.

Rio 2016: Você conseguiu conhecer um pouco do Rio na sua visita?

 EV: Ah, sim! Esta é a minha primeira vez no Rio e estou muito impressionada com a cidade. Chegamos no domingo (22) e, até agora, conhecemos o Pão de Açúcar e a Praia de Copacabana, onde fica o meu hotel, e também, visitamos uma favela carioca. Eu realmente gostei da cidade. Meu irmão e todos os meus amigos que estiveram aqui antes também e se apaixonaram pela cidade. Agora eu consigo ver o que todos eles estavam falando.

Rio 2016: Como você conheceu o esporte paralímpico?

EV: Eu tinha oito anos de idade quando perdi os movimentos da perna. No meu centro de recuperação, uma parte do programa de tratamento era a prática de esportes. Eu simplesmente amava me sentir ativa. Era realmente muito jovem e não queria ter que lidar com a minha deficiência o tempo todo. Praticar esportes era a minha maneira de me sentir ativa e de brincar com os meus amigos. Foi assim que eu conheci o tênis em cadeira de rodas e me apaixonei pelo esporte de imediato.

Rio 2016: Você chegou a tentar outros esportes?

EV: Tentei muitos esportes diferentes e acho isso de extrema importância. Acho que pessoas com diferenças devem tentar o máximo de esportes que puderem e então descobrir aquele que mais se identificam e que podem ser melhores. Aí é procurar instalações onde você possa treinar, se aperfeiçoar e se manter ativo.

 Rio 2016: Como você começou a competir?

 EV: Foi um processo natural: você começa a treinar uma ou duas vezes por semana, e quando começa a fazer com mais frequência, de repente, você conhece todo este mundo do esporte – que para mim era o mundo do tênis. Então você começa a ouvir sobre esses torneios estaduais, nacionais e internacionais. A questão é: uma vez que você comece a jogar, você saberá se é bom o suficiente e especialmente se já está pronto para começar a competir.  

Rio 2016: Você imaginava que chegaria tão longe na sua carreira?

EV: Não, de jeito nenhum. Especialmente não no início. Você começa no esporte por gostar de praticar e porque se diverte com isso. Ser número um ou número dois não era um grande objetivo para mim, até mesmo chegar aos Jogos Paralímpicos. Eu comecei a disputar campeonatos nacionais e internacionais após quatro anos de esporte e foi aí que comecei a perceber que talvez tivesse a chance de chegar até os Jogos. Mas, uma vez que você planta esse desejo em você, é uma das maiores motivações que existem: estar nos Jogos Paralímpicos, porque essa é uma das experiências mais maravilhosas que você vai ter na sua vida.

Rio 2016: Você se lembra da primeira medalha nos Jogos?

EV: Claro! E todas as outras também. Cada edição dos Jogos é única. Sidney 2000 foi a minha primeira, mas Atenas 2004 foi uma experiência diferente, e Pequim 2008 foi diferente de todas as outras. Londres 2012 teve um gostinho especial porque agora eu sei que foi a última vez. Mas a primeira eu não esqueço. O sentimento de conquistar a medalha de ouro e não ter ideia do que viria a seguir. Além disso, testemunhar o mundo inteiro abraçar o esporte paralímpico. Isto é muito especial.

Rio 2016: Infelizmente para todos nós que somos seus fãs, você encerrou a carreira este ano. Poderia nos dar uma dica de quem poderá ser a próxima Esther?

EV: Eu realmente não sei! Não sei nem se existirá uma. Acho que cada atleta tem seus próprios pontos fortes e fracos. Não sei nem se o tênis em cadeira de rodas será o esporte que apresentara o melhor resultado. Torço para que seja algum atleta holandês, mas principalmente, que seja alguém que ame seu esporte tanto quanto eu.

Rio 2016: Quais são as suas expectativas para o tênis em cadeira de rodas no Rio 2016?

 EV: É difícil dizer o quanto, mas tenho certeza que os Jogos Rio 2016 serão diferentes dos demais. Sei que o tênis em cadeira de rodas está se desenvolvendo a cada ano e está crescendo bastante no Brasil. Sei que os atletas brasileiros estão se destacando, especialmente uma brasileira que tem ganhado grandes expectativas [a jovem Natália Mayara, que já chegou a competir contra Esther e afirma que a holandesa é a sua fonte de inspiração no esporte]. Mais do que tudo, sei que este é um ótimo esporte e que será um evento inesquecível em 2016.