Espírito olímpico em verde e amarelo: a trajetória de Emanuel
Maior vencedor da história do Vôlei de Praia, atual campeão do mundo aos 38 anos prova que o esporte vai além da competição
Maior vencedor da história do Vôlei de Praia, atual campeão do mundo aos 38 anos prova que o esporte vai além da competição
Emanuel segura a marca do Jogos Olímpicos Rio 2016™ na praia de Ipanema (Divulgação: Rio 2016™)
No último dia de competições dos Jogos Olímpicos de Atenas 2004, o maratonista brasileiro Vanderlei Cordeiro de Lima liderava a prova no 35º dos 42 quilômetros quando um espectador invadiu a pista e o empurrou com os dois braços até tirá-lo da área de competição. Apavorado com o ataque, precisou da ajuda de pessoas em volta para se desvencilhar e voltar ao trajeto. Parcialmente recomposto, perdeu duas posições e o sonho dourado virou bronze.
A cena que chocou o mundo não pôde permanecer indiferente a Emanuel. Ouro no Vôlei de Praia um dia antes, ao lado do parceiro Ricardo, o paraibano radicado no Rio encontrou o compatriota na volta ao Brasil e, durante um programa de televisão, ofereceu sua medalha. Em rede nacional, a homenagem fez o país se emocionar com os dois abraçados, chorando a dor de uma oportunidade desfeita no ar.
Mais do que ser apontado por especialistas como o melhor jogador de Vôlei de Praia da história, com dez títulos do Circuito Mundial, três do Campeonato Mundial, o ouro em Atenas 2004 e o bronze em Pequim 2008, Emanuel é um atleta por excelência e a síntese do espírito olímpico. Aos 38 anos, prepara-se para sua quinta edição dos Jogos. A aura jovem e humilde, porém, o faz crer que muito ainda tem a aprender. Empolgado com Rio 2016, não descarta jogar em casa daqui a cinco anos.
Confira a entrevista com o mito da areia:
Onde você estava em 2 de outubro de 2009, quando o Rio transformou-se em sede olímpica?
Eu lembro muito bem. Fui convidado a ir a Copenhague, mas, naquele fim de semana, a gente tinha uma etapa do Circuito Brasileiro em Recife. Eu me lembro que estava jogando, era mais ou menos quatro horas da tarde quando a gente soube o resultado. Na arena, foi como um gol do Brasil em Copa do Mundo de futebol. Foi anunciado no sistema de áudio, foi aquele boom de alegria, todos os torcedores começaram a gritar. Para nós, Rio 2016 começou ali.
O Vôlei de Praia não terá um legado de infraestrutura física, porque o Estádio de Copacabana será uma instalação temporária. O que Rio 2016 deixará para o esporte?
Dois grandes momentos: a preparação até 2016, que é a motivação de todos os atletas de fazer parte do show, e depois, os efeitos que vão ficar. As crianças que assistem ao esporte, que têm entre 10 e 14 anos e estão começando no esporte, é o momento de assistirem e resolverem: “eu quero fazer esse esporte”. Foi o que aconteceu comigo. Quando eu tinha 11 anos, estava decidindo qual esporte queria. Aí, o Brasil foi medalha de prata em Los Angeles 1984, com a seleção masculina de Voleibol. Aquilo certamente me motivou.
Seu esporte é relativamente novo. Você participou de todas as edições de Jogos Olímpicos desde a estreia em Atlanta 1996. Como avalia a evolução do Vôlei de Praia?
O Circuito Brasileiro começou em 1991, e foi o ano que eu comecei no esporte também. Em todos os anos anteriores, era um campeonato por ano só, o chamado Campeonato Brasileiro, que era no Rio de Janeiro e com um representante de cada estado. Foi o primeiro ano que eu participei. Ganhei um campeonato no Paraná e vim representar o estado. Nesse mesmo ano, os dez primeiros foram selecionados para jogar pelo Brasil.
Em duas palavras, o que eu posso dizer da evolução do Vôlei de Praia é: assustadora e organizada. Assustadora, porque cresceu muito rápido. A partir do momento em que foi transformado em esporte olímpico, teve uma evolução de respeito, de cultura. De uma hora para outra, saiu de um esporte de verão para ser um esporte olímpico muito bem conceituado. Teve uma evolução em cada edição dos Jogos. Organizado, porque a Confederação Brasileira conseguiu fazer desse esporte um esporte vitorioso. Trouxemos medalhas em todos os Jogos até hoje.
Você tem 38 anos e continua jogando. Muitos da primeira geração do Vôlei de Praia olímpico ainda atuam. Como vê a renovação de talentos no Brasil e no mundo?
Eu vejo renovação, mas é um esporte diferenciado dos outros. O atleta que treina Vôlei de praia fica mais forte e está provado que ele pode jogar por mais tempo. Vou dar o exemplo do Franco, que tem uns 46 anos e continua na ativa, jogando bem. O número de contusões é diferente do Voleibol de quadra, onde você tem problemas de coluna, de joelho, por causa do salto. É um esporte muito saudável e isso faz com que o atleta jogue mais tempo. Em termos de renovação, está tendo, sim. A Confederação Brasileira está investindo em um campeonato sub-21, que a nível mundial já existe. Até cinco anos atrás, não existia esse tipo de campeonato, então ficava muito grande o espaço entre começar na escolinha e chegar ao profissional.
Você veio do Voleibol de quadra. No início, era comum esse processo. Hoje, a lógica mudou e a formação já se inicia na areia. Por quê?
No começo, como não tinham muitos profissionais trabalhando com isso, técnicos, preparadores físicos, realmente os atletas que vinham da quadra tinham mais condições. Já vinham praticamente prontos, era só jogar. Mas acredito que, nos últimos dez anos, o Vôlei de Praia ficou muito mais específico e eu posso dizer que são dois esportes totalmente diferentes. A base é o voleibol? É. Mas os sistemas de treinamento, de estratégia, de jogo, de viagens, é totalmente diferente. Um jogador que venha da quadra para cá não vai conseguir se adaptar tão fácil quanto antes. O jogador de praia que vai jogar na quadra também terá dificuldades. A velocidade de jogo, a técnica, a estratégia, tudo é muito distinto.
Após sete anos, como se recorda da medalha de ouro em Atenas 2004?
Para mim, a medalha de ouro foi construída. Todo mundo acha que é só chegar nos Jogos e vencer, e eu tenho plena consciência que não é assim. Você tem que construir a medalha. De três em três anos, já tem que se preparar para isso. É uma preparação mental, estrutural, tem que ter os melhores profissionais trabalhando ao seu lado. Eu só consegui fazer isso na minha terceira oportunidade. Fui entender qual era o contexto dos Jogos só na terceira. Na primeira, eu era muito jovem, tinha 23 anos, não entendia o que significava. Na segunda, eu já estava mais experiente, fomos eu e Loiola como favoritos. Aprendi o que era uma pressão olímpica, e ficamos em nono lugar. O poder de tudo isso é entender que você tem que ter uma preparação diferenciada para os Jogos, não é simplesmente chegar lá, jogar e ganhar.
Qual é a diferença?
Todos os rituais que acontecem. A dificuldade do primeiro jogo, por exemplo, acontece muito em Jogos Olímpicos. Você está representando o seu país, não está representando os atletas. Tem times que você não acredita que vão fazer algo, e jogam muito bem. Os que são melhores não jogam nada [risos]. A síndrome do primeiro jogo existe, a síndrome da semifinal existe também. Tem muita gente que só se prepara para chegar ao quadro de medalhas, não se prepara para o jogo. Nós, brasileiros, procuramos sempre resultado. Então, cada partida que o atleta vai lá, tem 20 pessoas da mídia querendo resultado, tem a família, tem o país, e nós somos muito emotivos, então isso atrapalha. A preparação tem que pensar em todos os aspectos e, para 2004, eu consegui gerenciar isso junto com a minha equipe. Eu e Ricardo saímos vitoriosos desde o momento em que a gente começou o projeto, que foi em 2002.
Em Atenas 2004, a invasão de um espectador durante a Maratona prejudicou o brasileiro Vanderlei Cordeiro, que liderava a prova e terminou com o bronze. Tempos depois, em um gesto que comoveu a todos, você ofereceu sua medalha de ouro a ele - ele agradeceu e, emocionado, disse que não poderia aceitar. Conte um pouco sobre essa amostra de espírito olímpico.
Eu sou um atleta verdadeiro. Eu faço esporte porque gosto. Admiro muito os atletas na essência, atletas de verdade, não só jogadores. Na minha cabeça, tem uma diferença muito grande entre os jogadores, que simplesmente fazem o esporte, e os atletas, que têm uma postura íntegra dentro e fora da quadra, que têm a preocupação com o esporte e a preocupação com a juventude. E o Vanderlei se mostrou exatamente isso. Com tudo que aconteceu, ele ainda glorificou a medalha de bronze, dizendo que era muito mais importante até do que se fosse o ouro, porque foi a que ele conquistou. Um ato nobre desses tem que ser honrado, tem que ser homenageado.
Para mim, a minha conquista da medalha de ouro foi o contexto. Aquela medalha de metal que eu tinha recebido não significava exatamente o tamanho da minha conquista, e isso que eu queria passar para o Vanderlei. Quando você dá a medalha de ouro para alguém, é porque ele realmente merece, e ele merecia. Essa era minha intenção.