Escócia, o país do... golfe
Rei fora da lei, Jaime IV ajudou o esporte a se consolidar, na virada para o século 15, antes de ganhar o mundo
Rei fora da lei, Jaime IV ajudou o esporte a se consolidar, na virada para o século 15, antes de ganhar o mundo
O clube de Saint Andrews é considerado a "Casa do Golfe" na Escócia (Richard Heathcote/Getty Images)
Texto: Denise Mirás
Existe a lenda do hobbit que arrancou a cabeça do goblin chamado Golfimbul com um taco, cabeça essa que voou pelo ar e caiu em um buraco. Também há um documento, anônimo, dando conta de um jogo holandês de taco e bola de couro na cidade de Loenen aan de Vecht, datado de 1297, em que vencia quem acertasse um alvo a centenas de metros com o menor número de tacadas. Mas a invenção do “gowff” é mesmo atribuída a habitantes da Escócia (país que nos Jogos Olímpicos faz parte da equipe da Grã-Bretanha), que também entrou com um rei pioneiro nessa trajetória coroada agora com o retorno do esporte ao programa dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro em 2016. O golfe foi Olímpico apenas em Paris 1900 e St. Louis 1904.

Apaixonado por artes e ciências (mantinha uma oficina de alquimia no Castelo de Stirling), Jaime IV (1473-1513) derrubou a proibição do esporte no país. Curiosamente, quem tinha tornado o golfe ilegal fora seu avô, Jaime II. Aos 25 anos, em 1498, James IV lia de tudo, como contou o enviado espanhol Pedro de Ayala a seus soberanos Fernando e Isabel. Sabia latim, francês, alemão, flamengo, italiano, espanhol e “línguas dos selvagens que vivem em algumas partes da Escócia e suas ilhas”.
Além de promover experiências no castelo (um de seus alquimistas, chamado de Padre Damião, teria tentado sair voando), o rei escocês ainda arrumava tempo para a mulher e quatro filhos, mais quatro amantes e outros oito filhos – em meio às partidas do proibido golfe.
O golfe teria vindo do chole (ou soule), jogado entre times, com taco e bola como no hóquei, no Nordeste da França e na Bélgica no século 13. Em 1421, Hugh Kennedy, Robert Stewart e John Smale, soldados de um regimento escocês aliado dos franceses, contra os ingleses, no Cerco de Baugé, teriam levado a novidade para casa.
Em 1457, na primeira menção ao golfe documentada, um decreto do rei James II foi enviado ao Parlamento escocês, proibindo o jogo, assim como o futebol medieval (o futebol “de multidão”, uma correria entre adversários brigando para levar uma bola feita de bexiga de porco para “gols” em cada extremo de uma cidade). O soberano escocês queria seus soldados treinando arco e flecha para os conflitos recorrentes com a Inglaterra, em vez de dispersos com tacos ou com bolas.
Saiba tudo sobre golfe com nosso infográfico
Décadas depois, no entanto, seu neto Jaime IV se mostraria fã do esporte. Considerado um golfista “fora da lei”, fez a primeira compra registrada de equipamentos: um jogo de tacos fabricados por um artesão especializado em arcos, da cidade de Perth, por 13 shillings.
Finalmente o veto à prática de golfe foi levantado por ele mesmo, James IV, em 1502, com a assinatura do Tratado de Glasgow entre Escócia e Inglaterra. Com isso, o rei abriu caminho para essa paixão, que se espalhou de vez pela Escócia e depois por toda a ilha da Grã-Bretanha
Considerado um esporte de inverno, o golfe se beneficiava com a grama mais baixa dessa época do ano, nas terras chamadas de links, arenosas e batidas pelo vento do Mar do Norte, no nordeste da Escócia. Vários clubes foram surgindo (hoje são 550 no país).
É de 1552 a primeira referência por escrito ao clube de Saint Andrews – que se tornaria conhecido como “A Casa do Golfe” –, em Fife, na Escócia. No ano seguinte, por decreto, o arcebispo local permitiu que a população jogasse nesses domínios (o acesso público a campos de golfe se tornaria tradição na Escócia – o que não aconteceu em outros países) e também ajudou o esporte a se enraizar na cultura e até no caráter dos escoceses.

Ainda nesse século 16, duas mulheres aparecem na história: Catarina, rainha-consorte da Inglaterra, em carta de 1513 ao cardeal Wolsey se refere à popularidade do golfe. E de 1567 vem a referência à rainha Maria da Escócia, que teria sido vista jogando golfe com o duque de Bothwell para celebrar a morte do marido Henry Stuart, o lorde Darnley - ela mesma depois foi decapitada por ordem da prima, a rainha Elizabeth I, da Inglaterra.
Outro rei James, agora o VI (depois renomeado James I, quando reinou sobre Escócia e Inglaterra), reconfirmou o direito da população de jogar golfe aos domingos (então considerado “dia de sermão”), em 1618.
A primeira menção por escrito a “campo de golfe” é do advogado sir John Foulis, de Ravelston, que diz ter jogado em Musselburgh Links em 2 de março de 1672. Por isso, se diz que The Old Links é o mais antigo campo de golfe do mundo (teria sido lá que a rainha Maria foi vista jogando depois do assassinato do marido, um século antes).
O primeiro torneio internacional de golfe de que se tem notícia foi promovido em 1680 pelo duque de York (depois nomeado rei James II, da Inglaterra, Escócia e Irlanda, entre 1685-1688), ao ser desafiado por dois nobres ingleses em Leith, na Escócia
O duque de York fez parceria com o sapateiro John Patterson, que ganhou dinheiro suficiente para construir uma casa em Edimburgo.
A sociedade foi fundada em 1754 por “22 nobres e senhores”, que se tornaria o histórico Royal and Ancient Golf Club of St. Andrews – e vale lembrar que apenas em 2014 (!) 85% de seus membros votaram pela permissão a mulheres de se associarem...
Nos anos 1800, o golfe se espalhou rapidamente pela Ilhas Britânicas e depois por suas colônias, além de outros países da Europa, até chegar à Ásia. Hoje se estima entre 50 e 60 milhões de praticantes de golfe no mundo
De acordo com a R&A, entidade que organiza o Aberto de St.Andrews, em 2014 o golfe estava em 206 países, distribuído por 34.011 campos (9.895 clubes fechados e 24.116 clubes/campos públicos) e um total de 576.534 buracos.