Encontro inédito de Hermeto Pascoal e Manu Dibango faz cariocas dizerem 'merci'
Com plantio de mangueira e homenagem ao chef Claude Troisgros, evento sela compromisso do Rio 2016 com a francofonia
Com plantio de mangueira e homenagem ao chef Claude Troisgros, evento sela compromisso do Rio 2016 com a francofonia
Hermeto Pascoal e Manu Dibango: encontro inédito no idioma universal (Rio 2016/Alex Ferro)
Texto: Pedro Só
Fotos: Alex Ferro
Definir como “o melhor de dois mundos” seria cabível, mas inexato. Um gênio brasileiro, Hermeto Pascoal, 79 anos, e um nome legendário da música africana, o camaronês Manu Dibango, 82 anos, somaram poderes no palco do Espaço Tom Jobim, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, para celebrar a parceria entre o Comitê Organizador Rio 2016 e a Organização Internacional de Francofonia. Como era de se esperar, os dois se entenderam por música, o mais universal dos idiomas, tocando com o acompanhamento da Cyclophonica Orquestra de Câmara de Bicicletas, diante de uma plateia de convidados formada por diplomatas, jornalistas e simpatizantes da cultura francesa.
O encontro entre os dois nomes legendários, inédito, foi uma das surpresas do evento, que incluiu a entrega de medalhas a três personagens "que ajudam a transformar o Rio de Janeiro em cidade global": o chef Claude Troisgros (radicado há 36 anos no Rio e superidentificado com a cozinha “carrioca”), o jornalista e empresário Loïc Gosselin, que vive há duas décadas no Brasil, e Manu Dibango.

O primeiro número musical ficou a cargo de estudantes do Ciep 449 Leonel de Moura Brizola Brasil França, escola pública bilíngue de Charitas, Niterói (a 25 quilômetros do centro do Rio) que está incluída no Transforma, programa de educação do Rio 2016. Eles misturaram "Les Eaux de Mars" (versão de "Águas de Março", de Tom Jobim, feita por Georges Moustaki com ajuda o próprio Tom) e "Aquele Abraço", de Gilberto Gil, com a jovem cantora Cristiane Gomes, 17 anos, se mostrando à vontade no português e no francês - teve até um "arrête!" para comandar a parada final dos músicos.
Em seguida, Mário Andrada, diretor de comunicação do Rio 2016, reforçou o compromisso da edição carioca dos Jogos Olímpicos com a francofonia. Ao mencionar os laços culturais e afetivos da cidade com o idioma, lembrou de Nicolas de Villegaignon (1501-1561), cuja voz ecoou na Guanabara antes mesmo da fundação do Rio de Janeiro: "Desde 1555 o francês faz parte da nossa vida, da nossa alma e da nossa música".
“Eu não conhecia Hermeto, só a música dele. Mas já tinha ouvido falar sobre o jeito dele, então espero o inesperado”, havia comentado Manu Dibango, na véspera. Hermeto, por sua vez, admitiu, poucos minutos antes do encontro: “Nunca ouvi a música do Manu. Vou conhecer daqui a pouco”. Depois dos acertos finais com Leonardo Fuks, líder da Cyclophonica, o Bruxo (como é conhecido o alagoano) combinou sua entrada tocando escaleta em “Bebê”, tema clássico lançado há 40 anos, no álbum “A Música Livre de Hermeto Pascoal”, e tudo fluiu muito bem.
Hermeto Pascoal
A frase do Bruxo resumiu o espirito do encontro, que culminou em versão ímpar de "Soul Makossa", o clássico hit de Manu Dibango, com a escaleta de Hermeto desafiando as frases do saxofonista a cada intervenção. Nada, porém, que reduzisse a força rítmica e hipnótica do tema.


O encontro de titãs fez a alegria de ouvidos importantes como os da flautista Odette Ernest Dias, 87 anos, parisiense que em 1949 se mudou para o Rio, brilhou em orquestras sinfônicas e se tornou matriarca de uma família respeitadíssima na música clássica. "U-la-la! Ela tocou com Villa-Lobos!", exclamou Manu Dibango, ao ser informado - por Leonardo Fuks - sobre o currículo da nova "fã". Outro que vibrou, na primeira fila, foi o DJ Marcelinho da Lua, integrante do grupo Bossacucanova.
Marcelnho da Lua, DJ e integrante do grupo Bossacucanova

Ao final da apresentação, o chef Claude Troisgros e Manu Dibango saíram do Espaço Tom Jobim para plantar uma mangueira, árvore de origem asiática que os portugueses introduziram na África e no Brasil. "Símbolo da união do Brasil e dos 80 estados e governos de língua francesa, em nome dos ideais Olímpicos", anunciava a placa instalada à frente da muda.
Radicado no Rio de Janeiro há quase 37 anos, Troisgros apontou a importância de eventos e encontros do gênero para a difusão da francofonia na cidade: "Quando cheguei ao Rio, a maioria dos meus clientes no restaurante falava francês. Hoje, apesar de a apreciação da cultura e da gastronomia francesas serem enormes entre os cariocas, a situação é diferente. Esse trabalho é fundamental para mexer com isso".