A escola dourada do Professor José Roberto Guimarães
Único campeão olímpico no masculino e no feminino, técnico é o símbolo da vitoriosa trajetória do voleibol brasileiro
Único campeão olímpico no masculino e no feminino, técnico é o símbolo da vitoriosa trajetória do voleibol brasileiro
Guimarães é festejado pelas campeãs em Pequim 2008 (Foto: Cameron Spencer/Getty Images)
O foco, a disciplina e a intensa dedicação ao trabalho após quatro décadas de envolvimento com o esporte impressionam tanto quanto a serenidade, a humildade e o bom papo de José Roberto Guimarães. Único técnico do mundo a conquistar a medalha de ouro olímpica do voleibol tanto no feminino quanto no masculino, vivenciou desde o início e contribuiu intensamente na formação de uma escola brasileira, a mais vitoriosa da atualidade. Fez a diferença e foi pioneiro nas duas categorias. Alcançou o topo do rendimento sem o ar professoral. Não chegou aonde chegou à toa.
Aos 57 anos, professor no esporte e na vida, José Roberto defenderá o título com as meninas do Brasil em Londres 2012. Comanda a seleção desde 2003. Em Atenas 2004, participou de um dos jogos mais dramáticos da história olímpica, a derrota do Brasil para a Rússia na semifinal, de virada, após vencer os dois primeiros sets e perder sete match points. Trauma superado, o ouro inédito chegou após campanha irretocável em Pequim 2008: um set perdido em oito jogos disputados.
Inédito também foi o ouro dos brasileiros em Barcelona 1992. Sob seu comando, a vitória sobre a Holanda na final veio a consagrar uma trajetória construída sobre as bases do profissionalismo e da organização.
Em uma tarde chuvosa, à beira de uma das quadras do amplo e bem equipado Centro de Desenvolvimento das seleções brasileiras, complexo localizado na cidade de Saquarema, a duas horas do Rio de Janeiro, o lendário técnico concedeu a seguinte entrevista a Rio 2016:
Boa parte dos especialistas acredita que a melhor maneira de massificar uma modalidade e, em conseqüência, obter uma base de talentos que rumam para o alto rendimento é apostar no desenvolvimento do esporte na escola. Como o voleibol brasileiro atingiu o estágio de excelência em todas as categorias sem priorizar este modelo?
Garimpamos talentos dentro das escolas e também pela vida afora, em um ponto de ônibus, em qualquer lugar. Onde a gente consegue visualizar um talento, uma jogadora mais alta, um jogador mais alto, não tenha dúvida que vai ter um técnico de voleibol sempre de olho. Isso acontece desde quando eu ainda jogava ou até um pouco antes. Durante toda a minha vida de técnico, eu sempre escutei histórias de outros colegas contando a respeito de talentos que eles encontraram pelas ruas, pelas escolas, e que foram importantes para esse desenvolvimento.
Você vivenciou a origem de uma escola brasileira de voleibol, por assim dizer...
E o que aconteceu na realidade, na escola brasileira de voleibol, é que a gente tinha um padrão de vida diferente. Nós tínhamos que estudar, trabalhar, treinar, não tínhamos tanta disponibilidade, não éramos profissionais. A partir do momento que profissionalizou, ou seja, botou um grupo de garotos treinando todos os dias juntos, o nível subiu alucinantemente. Isso aconteceu em 1977. Começamos a treinar como as outras escolas, as melhores do mundo, Japão, Rússia, Bulgária, Polônia, Tchecoslováquia na época. Os países do Leste Europeu eram os mais desenvolvidos, bem como Japão e Cuba. Estados Unidos sempre foram desenvolvidos nas universidades. Passamos a ter muita gente estudando voleibol, isso também foi primordial.
Quais as diferenças fundamentais entre as três escolas que dominam os rankings mundiais masculino e feminino atualmente, Brasil, EUA e Rússia?
Nos Estados Unidos, começa no college, depois vai para a universidade. Logicamente, as bolsas são importantes, os alunos procuram ter bolsas de estudo para poder jogar, para poder se desenvolver. Passam pelo processo de seleção e seguem. É uma grande escola, não só de voleibol, mas de esporte.
Na Rússia, já existe uma procura muito grande por parte do cidadão russo, por gostar da modalidade. O voleibol é o segundo esporte, juntamente com o basquete. No inverno, o hóquei no gelo é muito procurado, mas o voleibol, daquilo que eu tive oportunidade de conversar com algumas jogadoras russas, também é. O trabalho da seleção começa cedo, como no Brasil. Eles têm mais ou menos a filosofia que a gente tem, de levar essas jogadoras cedo para a seleção, trabalhá-las. Têm um bom campeonato nacional, o campeonato russo é forte e, como eles estão na Europa, têm condição de disputar vários torneios de alto nível. Isso faz com que o nível interno também suba.

Você levou as equipes brasileiras masculina e feminina a outro patamar em Jogos Olímpicos. A que você atribui estes pontos de inflexão em Barcelona 1992 e Pequim 2008? O que faltava antes que o vôlei brasileiro agregou nestes dois momentos para alcançar o topo?
Exatamente esse trabalho que foi iniciado. A gente não pode esquecer de todos aqueles que desenvolveram o voleibol anteriormente. O Brasil sempre teve uma escola, tecnicamente falando, muito boa, porém nossos jogadores não eram tão altos. Eram habilidosos, mas não tinham possibilidade de treinar muito. A partir do momento em que a gente foi em busca de um biótipo maior, mais forte, e tentando preservar as qualidades técnicas que os nossos antigos jogadores possuíam, esse salto de qualidade aconteceu.
Descobrimos que éramos parecidos com algumas escolas. Japão, por exemplo, a própria Tchecoslováquia, que tinha um estilo parecido com o nosso, mas eles tinham jogadores mais altos e mais fortes, e que treinavam todos os dias. Quando passamos a treinar como eles, começamos a jogar de igual pra igual. Aí, foi uma questão de tempo, de experiência, de grandes competições, e de encontrar gerações talentosas. Apareceu já nos anos 80, com aquela geração que foi prata [em Los Angeles 1984]. Fez escola, vários jogadores da seleção de 1992 se espelharam na seleção de prata e aquela geração nos ajudou muito, em vários aspectos. Foi só questão de organizar melhor o nosso trabalho que os resultados apareceram.
No feminino, demorou um pouco mais...
Feminino tem um outro porém, que é o fato de as mulheres de uma fase anterior à nossa terem uma vida mais curta em termos de esporte. O lado da gravidez, do casamento. Isso, de uma forma ou outra, altera um pouco o ciclo da mulher. Eu já tive problemas por jogadoras que ficaram fora por causa de gravidez. Outros treinadores também tiveram. No masculino, é uma coisa mais contínua. Demorou um pouco mais no feminino exatamente por essas quebras que ocorreram, por algum problema que algumas jogadoras importantes tiveram ao longo da sua trajetória.
Você esteve em Jogos Olímpicos como jogador (Montreal 1976), duas vezes como treinador da seleção masculina (Barcelona 1992 e Atlanta 1996) e duas com a feminina (Atenas 2004 e Pequim 2008). Conte um pouco das suas experiências e da sua expectativa para Rio 2016.
De todos os Jogos Olímpicos que eu participei, eu posso descrever um que foi sensacional, para mim o melhor, que foi Barcelona 1992. O segundo, para mim, foi Pequim, não por causa das medalhas de ouro, mas pela organização. Barcelona conseguiu construir Jogos em função da cidade. Construíram as rodovias, os ginásios, os estádios, mas não em função dos Jogos, em mostrar para o mundo que a Espanha poderia fazer. Tudo para a melhoria das condições de Barcelona. Ajudou muito e está ajudando ainda. O Rio tem que ter isso na cabeça. Não é só fazer grandes Jogos, que eu acho que vai fazer, mas que ganhe em infraestrutura. O grande legado é esse.
Onde você estava no dia 2 de outubro de 2009, data da vitória do Rio? O que sentiu quando o Presidente do COI, Jacques Rogge, virou a placa com o nome da cidade e fez o anúncio histórico?
Devia estar em algum lugar do mundo com a seleção (risos), mas estávamos todos torcendo. Meu primeiro sentimento foi de alegria, por ter ganho. O segundo momento foi de “será que a gente vai conseguir fazer grandes Jogos, mostrar para o mundo que nós somos um país organizado, que a gente vai conseguir fazer um grande evento como esse?”. Mas, ao mesmo tempo, dentro de mim, participando de vários eventos internacionais como brasileiro, e principalmente dentro do Brasil, a gente sempre conseguiu fazer muitas coisas boas. As competições realizadas no Brasil são as melhores, pelo menos falando em termos de voleibol. E os Jogos Pan-Americanos foram um bom evento. Então, eu estou tranquilo de que o Brasil vai conseguir fazer algo muito legal.
Em suas palestras, você costuma tocar em uma questão presente na vida de todo atleta de rendimento: o preço que está disposto a pagar para chegar ao topo. Como ex-atleta e treinador, quatro décadas envolvido com o esporte, que renúncias precisou fazer para chegar ao limite? Depois de tantas conquistas, ainda vale a pena?
Tive que abrir mão de praticamente tudo. Da relação com os meus amigos, minha família, meu país. Para aprender mais, tive que sair do meu país, morar fora, ser técnico na Itália, na Turquia, aprender mais sobre as minhas adversárias. Tive que deixar as coisas que eu mais gosto na vida para poder ir em busca do meu sonho, que era uma medalha de ouro. E eu sabia que, para colaborar com a minha equipe, eu também tinha que fazer a minha parte de sacrifício, para que eu pudesse passar melhor as informações para as jogadoras. Todos nós fizemos sacrifícios e continuamos fazendo.
Foram quatro anos fora. Na realidade, eu não precisava fazer isso para ganhar dinheiro, porque eu ia ganhar a mesma coisa aqui no Brasil. Fiz por sacrifício mesmo, de ir à luta lá, de filmar, de conversar, de entender como funciona a cabeça dessas jogadoras. Treinar algumas delas, minhas próprias adversárias no futuro, ensiná-las algumas coisas, lógico, mas, ao mesmo tempo, conhecê-las e ver como jogavam. Foi difícil, mas muito importante esse convívio fora do Brasil. Valeu a pena. Quando olho para trás, faria tudo novamente. Aprendi línguas diferentes, conheci pessoas e lugares muito interessantes. O vazio de não ter a família junto é ruim, mas eles entenderam porque eu estava fazendo isso e está tudo certo, vida que segue.