Vivendo e aprendendo a torcer
Atualizado em 15/08/2016 — 17H58Com uma ajudinha dos atletas, torcida aprende quando é hora de gritar e quando é hora de se calar nos Jogos Rio 2016
Com uma ajudinha dos atletas, torcida aprende quando é hora de gritar e quando é hora de se calar nos Jogos Rio 2016
A alegria dos torcedores brasileiros não passou despercebida por ídolos olímpicos (Getty Images/David Ramos)
Desde o início dos Jogos, o comportamento apaixonado da torcida brasileira vem brilhando nas arenas Olímpicas, mas também dividiu opiniões pelo gosto excessivo por vaias. Grande parte do público nacional é debutante nos Jogos Olímpicos e, segundo especialistas, tende a recorrer à cultura do futebol, esporte mais popular do país. Tamanho entusiasmo, entretanto, arrebatou lendas esportivas como o velocista jamaicano Usain Bolt e o nadador norte-americano Michael Phelps.
“Foi louco. Eu sinceramente pensei que meu coração ia explodir dentro do peito. Ter esse nível de excitação, de aplauso nas arquibancadas durante a competição... Não sei se eu já tinha ouvido qualquer coisa como isso”, disse Phelps, veterano que competiu pela quinta edição seguida no Rio.
Michael Phelps (direita) desfila com um cartaz de agradecimento para a torcida (Getty Images/Adam Pretty)
Adotado pelo público no duelo contra o argentino Juan Martín Del Potro, o tenista sérvio Novak Djokovich foi efusivamente aplaudido mesmo após sua eliminação: “Não sei como agradecer. Esse tipo de atmosfera senti poucas vezes na minha vida. Foi como se estivesse no meu país, me senti como se fosse brasileiro. Foi incrível”.
Para o Time Brasil, o apoio é ainda mais intenso e constante. A torcida tem comparecido mesmo em esportes com pouca tradição no país, como canoagem slalom ou hóquei sobre grama. Estreante nos Jogos, a seleção brasileira masculina de hóquei sobre grama foi impulsionada por novos fãs confiantes numa difícil virada sobre a Espanha, que acabou vencendo por 7x0. Na canoagem slalom, o atleta Pedro Gonçalves, sexto lugar no K1, se surpreendeu pela quantidade (e pela energia) do público no Parque Olímpico de Deodoro.
Além dos conterrâneos e dos grandes ídolos internacionais, a torcida verde-e-amarela costuma sair em defesa de atletas e times com menores chances: embalou uma virada do time de basquete da Croácia sobre a Espanha e, sem sucesso, tentou fazer o mesmo com o time de basquete da China contra o Dream Team dos Estados Unidos (lançando até mesmo musiquinhas de última hora, como “Ôôô Chi-ná, Chi-ná!”).
Para defender ardorosamente seu favorito, os brasileiros são capazes de torcer em momentos que requerem silêncio (como o saque do tênis ou a largada da natação) ou de vaiar atletas em provas individuais (como na ginástica ou no tênis de mesa). Diretor de comunicação do COI, Mark Adams brincou com a dificuldade de entender a lógica da torcida brasileira nas arenas: “Os fãs brasileiros parecem muito igualitários. É um pouco difícil entender por que vaiam um atleta e não o outro”.
Bicampeã Olímpica de judô na categoria meio pesado no Rio 2016, a americana Kayla Harrison sentiu na pele a pressão da torcida brasileira por tirar a medalha de ouro das mãos da gaúcha Mayra Aguiar, que conquistou o bronze.
“Para ser honesta, eu pensava que a Mayra iria ganhar e ir à final, porque eles [torcedores] me vaiaram o dia todo, mas tudo bem. Eu os perdoo, eu amo muito o Brasil”, disse ela.
Rivais, árbitros, argentinos e Hope Solo (a goleira da seleção americana de futebol que postou piada nas redes sociais sobre a zika no Brasil) são os alvos principais das provocações. Muitos brasileiros desaprovam. Na Cerimônia de Abertura, a carioca Christine Adamo adotou a estratégia de aplaudir a delegação argentina para ajudar a abafar as vaias da plateia durante o desfile de países: “Nunca aplaudi tanto a Argentina na minha vida! Acho vergonhoso demais vaiar um país dessa maneira”.
Para promover a rivalidade saudável entre brasileiros e argentinos, o Rio 2016 lançou nas redes sociais a campanha #HermanosOlímpicos, apoiada por atletas como Gustavo Kuerten e Fernando Meligeni.
A pedagoga Érika Pires conta que, no tênis de mesa feminino, a atleta naturalizada brasileira Lin Gui precisou pedir clemência da torcida contra sua adversária: “A brasileira Lin Gui estava ganhando quando a espanhola começou a chegar perto. A torcida vaiava todas as vezes que a espanhola se preparava para sacar. Lin Gui pediu para parar e a torcida respeitou”.
O pedido de silêncio de Bolt nas competições de atletismo no Engenhão e dos organizadores no Campo Olímpico de Golfe também foram imediatamente respeitados.
Voluntária segura uma placa para mostrar à torcida quando é preciso fazer silêncio. (Rio 2016/Rafael Cavalieri)
Fã de basquete, o publicitário Danilo Melo acredita que a torcida tem feito a diferença para o time brasileiro. “Já no tênis, infelizmente não está respeitando o silêncio que o esporte exige”, opina ele.
O médico Guilherme Szerman tem uma impressão diferente, principalmente no caso do tenista alemão Dustin Brown, que teria sido vaiado mesmo após romper ligamentos do tornozelo numa disputa contra o brasileiro Thomaz Belluci.
“Só vaiamos em alguns momentos quando ele fez brincadeiras com a torcida. Aplaudimos muito o alemão quando ele tentou voltar a jogar e depois quando desistiu do jogo. A história foi mal contada”, comentou Szerman.
No Hipismo CCE (Concurso Completo de Equitação), a euforia das arquibancadas preocupou os cavaleiros por conta dos animais, que poderiam se assustar com o barulho. O juiz chegou a pedir, várias vezes, para que a torcida guardasse os aplausos para o fim da prova.
“A torcida gritou mesmo assim quando os brasileiros (Mário Appel e Carlos Parro) apareceram. Faltou noção”, disse a bióloga Renata Novaes.
Para o repórter Marcelo Laguna, que tem no currículo a cobertura de quatro edições dos Jogos Olímpicos, os brasileiros ainda estão aprendendo a torcer por esportes Olímpicos.
“Torcida local, ainda mais latina, sempre vai fazer uma pressão. Mas os brasileiros estão exagerando um pouco. É o fim do mundo vaiar em tênis de mesa ou fazer barulho quando o nadador está no bloco da piscina. A hora do bloco é de silêncio absoluto, porque o atleta precisa ouvir o sinal para não queimar a largada. Isso é reflexo da falta de cultura esportiva. Temos um público aqui que está vivendo os Jogos Olímpicos pela primeira vez”, disse Laguna.
Um dos maiores legados da primeira edição dos Jogos no Brasil é permitir que os brasileiros aprendam mais sobre os esportes e o espírito Olímpico, defende Mário Andrada, diretor de Comunicação do Rio 2016:
“Brasileiros são muito apaixonados e ruidosos no esporte. Eles importaram as vaias da cultura do futebol, que é unilateral: meu time contra o seu. O Rio 2016 é uma oportunidade de aprenderem a amar diferentes esportes e a torcer por eles. É uma curva de aprendizado e queremos ajudar nesse processo”.
Há quatro meses morando no Brasil, Christophe Dubi, diretor executivo do Comitê Olímpico Internacional (COI), garante que o saldo é positivo: “Qualquer um que vier de fora do Rio e de outros países vai querer uma experiência carioca, e é isso que encontra aqui. As instalações têm uma atmosfera incrível. Você anda pelo parque e você não vê nada além de sorrisos”.