Um dia de mecânico de bicicleta: nos bastidores, profissionais podem ter o futuro e a segurança dos atletas nas mãos
Por Rio 2016
Função sofreu mudanças com a incorporação de novidades tecnológicas no ciclismo, mas companheirismo e responsabilidade continuam intactos
Para Eduardo Oliveira, seu trabalho faz a diferença: "Se na corrida soltar o guidão ou o selim, ou se o câmbio desregula, é caso de falta de atenção do mecânico" (Rio 2016)
Ele não pedala, mas pode ter uma medalha Olímpica e até uma vida nas mãos. Os mecânicos de bicicleta estão desde sempre nos bastidores das provas de ciclismo, em especial do ciclismo de estrada, e são fundamentais na rotina dos atletas. Se o trabalho não for bem executado - se um freio ou uma marcha não forem corretamente reguladas, se uma roda não for fixada da forma adequada, se um pneu não tiver a calibragem ideal em relação ao terreno - a consequência pode ser a eliminação da prova por quebra do equipamento ou até mesmo um grave acidente que pode por fim ao sonho de uma medalha nos Jogos Olímpicos Rio 2016.
A responsabilidade aumenta em tempos de alta tecnologia. Atualmente as bicicletas de competição são feitas de fibra de carbono e as marchas são reguladas no computador. Segundo o mecânico Mateus Ferraz, que fez parte da equipe neutra de assistência no evento-teste do ciclismo de estrada no Aquece Rio, hoje todo o trabalho exige atenção e alta precisão. “A bicicleta de fibra de carbono é mais delicada do que a de alumínio ou aço e a gente não pode apertar muito (o parafuso). Se a gente passar do torque certo (a força empregada no movimento de torção) pode danificar a peça”. Ele conta que checa duas vezes a fixação de 20 a 30 parafusos por bicicleta antes de entregá-la ao dono ou colocá-la no suporte dos carros de apoio.
As marchas merecem o mesmo nível de atenção. A diferença é que atualmente as peças estão cada vez mais parecidas com a dos carros, nos quais a regulagem é feita por computador. Os quadros onde são fixadas todas as peças são quase personalizados para que o atleta fique mais confortável. “Em geral, quando viajamos, trazemos cinco tamanhos diferentes de quadros para atender tanto o atleta mais alto, quanto o mais baixo”.
O trabalho não é encerrado quando o atleta sai com a bicicleta para linha de largada. No ciclismo de estrada, os mecânicos viajam como copilotos dos motoristas especializados em socorro dos atletas acidentados e podem fazer reparos. A velocidade na troca de um pneu furado – reparo levaria tempo demais – pode fazer a diferença entre uma vitória e uma derrota. Em casos mais sérios, a bicicleta toda pode ser substituída.
Mateus Ferraz ressalta que, em uma prova, a troca de um pneu furado com eficiência pode fazer a diferença entre vitória ou derrota do atleta. Foto: Julio Stotz/Rio 2016
Veterano de provas internacionais como a Volta da Espanha e da França, o motorista espanhol Julio Galego tem muitas histórias. “Uma vez tivemos um acidente grande, com muitos atletas, e fomos socorrê-los. Depois que atendemos os mais graves olhamos para os carros e... cadê as bicicletas? Os atletas tiraram eles mesmos do suporte e saíram pedalando. Tinha grandão todo encolhido pedalando bicicleta de baixinho”, conta, rindo.
Quando um mecânico atende uma equipe específica, a sintonia pode ser tão grande que ultrapassa os limites da relação profissional. “Tem atleta que convida mecânico para churrasco em família na casa dele. Tem mecânico que convida atleta para padrinho de casamento, de batismo dos filhos ou ainda que vira cunhado. É uma família mesmo”, conta Eduardo Oliveira, da seleção brasileira de ciclismo. A proximidade aumenta a responsabilidade, já que é necessário conhecer as preferências do ciclista na hora da regulagem da bicicleta. “Se na corrida soltar o guidão ou o selim, ou se o câmbio desregula, é caso de falta de atenção do mecânico. Já o furo de pneu é sorte”.