‘Tech-wondo’: tecnologia joga a favor do esporte em evento-teste dos Jogos Rio 2016
Árbitros contam com ajuda de recursos modernos para garantir eficiência e fair play durante as competições
Árbitros contam com ajuda de recursos modernos para garantir eficiência e fair play durante as competições
Sensores no capacete são ativados a partir do contato com as meias magnetizadas usadas pelos atletas (Rio 2016/Paulo Mumia)
Texto: Patricia da Matta
O taekwondo pode ser um esporte de origens milenares, mas se adaptou à modernidade como nenhum outro. Pontuação automática, vídeo replay... A tecnologia já está integrada à competição e divide a responsabilidade com árbitros para garantir embates justos para atletas e torcedores. Encerrado neste domingo (21) o Torneio Internacional de Taekwondo trouxe para dentro da Arena Carioca 1 as últimas novidades da arte marcial coreana para os Jogos Olímpicos, que incluem um novo formato de área de competição e mais tecnologia no sistema de pontuação: agora, até os protetores de cabeça vêm equipados com sensores eletrônicos.
Phillippe Bouedo, delegado-técnico da WTF
Antes dos Jogos Londres 2012, o sistema de pontuação dependia exclusivamente da avaliação dos árbitros, que atribuíam pontos de acordo com os golpes que testemunhavam. Isso abria precedentes para constantes reclamações de atletas e oficiais técnicos, que consideravam que o esporte pecava em transparência e imparcialidade – em Pequim 2008, Sarah Stevenson, da Grã-Bretanha, chegou a ser eliminada da competição após um golpe decisivo nos últimos segundos do embate não ter sido pontuado pela arbitragem. O resultado foi revertido após replays dos canais de televisão mostrarem que o golpe foi válido - e a britânica terminou o torneio Olímpico com a medalha de bronze.
O fato chamou a atenção do Comitê Olímpico Internacional (COI). E, para evitar que o esporte pudesse ser retirado do programa Olímpico das próximas edições, a Federação Internacional de Taekwondo (WTF) deu início à série de inovações que renovariam o esporte.

Myriam Baverel, ex-atleta Olímpica e treinadora da equipe da França
O objetivo dos atletas do taekwondo continua o mesmo de sempre: atingir tronco e cabeça do adversário com chutes e socos. A diferença é que agora eles vestem meias magnetizadas e sensores de impacto nos coletes e protetores de cabeça – este último, uma novidade nos Jogos Olímpicos do Rio.
O recurso era o que faltava para reduzir a quase zero a chance de erros na arbitragem, uma vez que chutes na cabeça valem três vezes mais do que golpes no tronco e muitas vezes decidem os embates. “As novas tecnologias deram transparência ao esporte. Em Londres, inserimos sensores nos coletes, mas não nos capacetes. No Rio, pela primeira vez na história dos Jogos, teremos ambos”, completou Bouedo.

A equipe do Rio 2016 opera em parceria com a Omega, parceira oficial dos Jogos Olímpicos para serviços de cronometragem, na gestão dos resultados. “São vários sistemas que funcionam de maneira integrada e a uma velocidade impressionante. Assim que o atleta dá o chute, os sensores transmitem o sinal automaticamente em uma frequência wireless, o que leva cerca de 0.1 a 0.2 décimos de segundo para ser computado em todos os nossos sistemas”, contou Rodrigo Silveira, coordenador de resultados do Comitê.
Desta forma, a tecnologia colocou a precisão acima da força nas regras do jogo, o que afetou inclusive a estratégia dos atletas e treinadores para as competições. “Fica mais simples treinar, pois os atletas precisam apenas se preocupar em ser eficientes e não em ter que mostrar a beleza dos movimentos para conseguir o ponto”, afirmou a treinadora francesa.
Outro recurso incluído para eliminar dúvidas na modalidade é a possibilidade de solicitar o vídeo replay durante os embates, recurso que permite a análise do golpe sempre que houver dúvida de dentro do tatame.

“A inclusão desses recursos obriga o atleta a estar sempre se adaptando, o que é muito bom. Eu comecei no esporte em um momento que a tecnologia ainda não estava presente, então havia muita dúvida no resultado das lutas. Isso agora desapareceu, porque eliminou o erro humano. Com certeza é o caminho a se seguir”, disse o atleta português Rui Bragança, que ficou com a medalha de prata na categoria até 58kg no evento-teste.
Último dia de #EventoTeste de #Taekwondo e a tecnologia está em alta! Coletes e capacetes têm sensores eletrônicos, que computam os pontos de acordo com os golpes acertados.
Publicado por Aquece Rio em Domingo, 21 de fevereiro de 2016
Após atender às críticas de atletas e técnicos do esporte deixando a luta mais justa, a WTF voltou suas atenções para o público espectador. Algumas novidades que a entidade prepara para a competição Olímpica em agosto tem como objetivo cativar os torcedores por meio da música, performances acrobáticas ou simplesmente mais momentos de ação.
A área de competição, por exemplo, chega ao Rio com novo formato: o octógono, que evita que atletas utilizem as quinas do tatame para atuar na defensiva. Outra solução que a federação encontrou para tornar os competidores mais ativos no tatame foi mudar as regras para incluir penalidades toda vez que ficarem muito tempo sem atacar.

“Queremos os atletas lutando mais e mais. Por isso, penalizamos sempre que não há ação e damos pontos bônus para golpes mais complexos. O octógono também ajuda a manter a luta acontecendo sem forçar o atleta para fora”, contou Bouedo.
A apresentação do esporte também mudou. Agora, locutores, DJs e especialistas em música e esporte fazem da entrada dos atletas na arena um acontecimento dentro das competições, assim como já é feito nos embates de MMA e boxe.
Outra novidade para aprimorar o espetáculo esportivo é a inclusão, nos Jogos Olímpicos, de um show de exibição da modalidade com performances acrobáticas para os intervalos da competição.
Com tantas novidades, a equipe do Rio 2016 enfrentou dois dias agitados de competição no Parque Olímpico da Barra. Sistema de resultados, apresentação do esporte, voluntários e gestão da competição tiveram suas principais operações testadas e aprovadas ao longo dos dois dias de torneio.
Com três eventos de sucesso no currículo, a Arena Carioca 1 sediou o evento-teste do taekwondo. Durante os Jogos, a disputa da modalidade acontecerá na Arena Carioca 3, que segue os mesmos moldes da vizinha.
“Este é o quarto evento que realizamos na Arena 1, então já conhecemos todos os segredinhos da instalação. Ainda assim, o taekwondo trouxe algumas novidades para a nossa operação, como a montagem de uma área de competição elevada e o sistema de pontuação eletrônico. Tudo correu muito bem e estamos satisfeitos com o resultado”, afirmou Rodrigo Garcia, diretor de Esporte do Rio 2016.
Organizado pelo Comitê Rio 2016 em parceria com a Confederação Brasileira de Taekwondô (CBTKD), o Torneio Internacional de Taekwondo reuniu 64 atletas de 15 países em quatro das oito categorias dos Jogos (-49kg e -57kg feminino; e -58kg e +80kg masculino).
Na categoria até 49kg feminina, Iris Sing, única brasileira classificada para os Jogos, caiu nas eliminatórias, deixando para a conterrânea Talisca Reis a missão de subir no topo do pódio na Arena Carioca 1, o que ela fez após embate apertado contra Huai-Hsuan Huang, da Taipé Chinesa. A tailandesa Napaporn Charanawat e Yasmina Aziez, da França, fecharam o pódio da categoria com o bronze.

Talisca Reis, medalha de ouro no evento-teste
Já entre as mulheres da categoria até 57kg, a campeã mundial e quinta colocada em Londres 2012 Mayu Hamada, do Japão, confirmou o favoritismo ao vencer a final contra Yu Chuang Chen, que garantiu a segunda prata da competição para a Taipé Chinesa. Fenfen Shao, da China, e Evelyn Gonda, do Canadá, levaram o bronze para casa.
Mayu Hamada
No masculino, o iraniano Armin Hadipour levou a melhor sobre o português Rui Bragança e garantiu o ouro na categoria até 58kg. Ren-Wei Dong, da Taipé Chinesa, e Luisito Pie, da República Dominicana, fecharam a competição com a medalha de bronze.
Entre os mais pesados (categoria acima de 80kg), o bicampeão mundial e atual número 2 do ranking mundial, Dmitry Shokin, provou que tem condições de continuar a fazer história para o Uzbequistão e levou o ouro no torneio.
Dmitry Shokin

O pódio ficou completo com a prata de Jonathan Healy, dos Estados Unidos, e o bronze de Yassine Trabelsi, da Tunísia, e M’bar N’diaye, da França.
A série Aquece Rio de eventos-teste continua com a Copa do Mundo de Saltos Ornamentais no Centro Aquático Maria Lenk até a próxima quarta (24). Já a Arena Carioca 1 volta a ser palco de outro evento-teste ainda este mês (26 a 28), com o Campeonato Internacional de Rugby em Cadeira de Rodas.
