República da Coreia, o país do... tiro com arco
Preparo de comida típica e treinamentos inusitados explicam desempenho de sul-coreanos no esporte
Preparo de comida típica e treinamentos inusitados explicam desempenho de sul-coreanos no esporte
Sensibilidade nos dedos das sul-coreanas viria de gerações amassando o apimentado Kimchi (Getty Images/Brendon Thome)
Texto: Denise Mirás
O sucesso do tiro com arco na República da Coreia - principlamente entre as mulheres - tem raízes milenares. E uma série de ações ajudou a consolidar o país como uma potência do esporte: a introdução de crianças na modalidade ainda na escola primária (com as mais talentosas treinando duas horas por dia – não por diversão, mas para competir), patrocínios de mais de 30 empresas aos arqueiros profissionais - que recebem salários como funcionários -, além de hábitos culturais e folclóricos.
Saiba mais sobre o tiro com arco
Em Jogos Olímpicos, o maior número de medalhas da República da Coreia foi conquistado no tiro com arco: entre a primeira participação, em Los Angeles 1984, e Londres 2012, somam 34 medalhas - 19 de ouro, nove de prata e seis de bronze. E, desde a introdução da competição por equipes, em Seul 1988, as garotas sul-coreanas seguem invictas, com sete medalhas Olímpicas de ouro (os homens têm quatro, nas sete participações).
Esse sucesso depende de treinamento duro, determinação, muita disciplina e foco – o que também faz parte do caráter dos povos asiáticos em geral. Para os Jogos de Londres 2012, por exemplo, os sul-coreanos começaram a treinar um ano antes em uma arena-réplica da utilizada em Pequim 2008, com cinco mil lugares, conhecida como Taeneung Training Centre, em Nowon-gu, distrito da capital Seul. Só que, além de estratégias de treinamentos como essa, os sul-coreanos colecionam uma série de hábitos culturais que favorecem o desempenho no tiro com arco.
Dois hábitos sul-coreanos que facilitam a prática do tiro com arco:
1. A habilidade das sul-coreanas com as mãos teria se acentuado durante gerações com o preparo do tradicional prato kimchi, feito de vegetais picados e uma pasta de farinha de arroz, açúcar e pimenta, que é esfregada nas folhas para fermentar.

Baek Woong-gi, técnico sul-coreano, disse à BBC antes da viagem da equipe para Londres 2012 que “as mulheres sul-coreanas têm as mãos mais sensíveis de todo o mundo”.
2. A destreza adquirida por causa dos chopsticks, os “pauzinhos” usados como talheres nas refeições coreanas. Em outros países asiáticos, eles são mais compridos, muitas vezes feitos de madeira e mais fáceis de manusear (como os hashi japoneses), enquanto os coreanos (chamados jeotgalag) são de aço, mais finos e escorregadios.
Baek Woong-gi, técnico sul-coreano
A ciência também tem sua parte no tiro com arco da República da Coreia. “Comecei a trabalhar diretamente com nosso Departamento de Ciências do Esporte em 1983 e estudamos profundamente como conseguir mais eficiência das técnicas de nossos arqueiros”, disse Lee Ki-sik. Técnico-chefe da equipe nacional entre 1981 e 1997 e depois da equipe norte-americana, Lee disse à BBC que “em cada esporte é importante que as técnicas de treinamento sejam aperfeiçoadas o tempo todo” assim como “se enxergar o esporte de maneiras diferentes” para se evoluir.
Na República da Coreia, os treinamentos físicos são muitas vezes feitos em campos militares, como na Base Naval de Jinhae, com homens e mulheres passando noites em claro, carregando barcos de 80 quilos montanha acima e nadando no mar até a temperatura do corpo despencar. O objetivo é aprender a controlar o corpo, trabalhando sob pressão.

O treino mental é tão importante quanto o físico, como destacou o técnico Baek. Para os Jogos de Sydney 2000, por exemplo, a equipe da República da Coreia treinou em um estádio de beisebol de Seul, com a multidão aplaudindo arqueiros a cada tiro certo e vaiando aqueles que erravam os alvos.
Ainda há histórias bizarras sobre vivências mais radicais para que atletas controlem a mente em momentos de estresse: dormir em cemitérios, visitar necrotérios, casas “assombradas” por atores se passando por fantasmas e até manipulação de serpentes!
Folcore ou não, a República da Coreia segue praticando e colecionando medalhas no tiro com arco.