No topo do Morro Dois Irmãos, a 500 metros de altura, brasileiros e estrangeiros se encantam com a vista das praias de Ipanema, São Conrado e Leblon. Inimaginável cinco anos atrás, a cena aconteceu no último fim de semana no Vidigal, quando visitantes subiram a favela para fazer uma caminhada repleta de belas paisagens.
A trilha é um dos
diversos passeios pela cidade que a campanha
Passaporte Verde dos Jogos Rio 2016 está promovendo, em parceria o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). O objetivo é usar o turismo como fonte de desenvolvimento sustentável em comunidades de baixa renda.
Os roteiros publicados no site e no aplicativo da campanha já incluem opções pelo Parque Nacional da Tijuca, pelo Morro dos Cabritos e Tabajaras em Copacabana e, em breve, apresentarão possibilidades de passeios no Morro Dona Marta em Botafogo e no Morro da Babilônia no Leme.
A trilha começa no ponto mais alto do Vidigal e, para chegar até lá, é possível subir de kombi ou mototáxis que cortam as ruelas da comunidade. Logo no início, os turistas se depararam com uma vista única da Pedra da Gávea, enquanto asas-deltas coloridas partiam do alto da Pedra Bonita.
Após uma hora de caminhada, o grupo foi recompensado com uma visão impressionante dos bairros de Ipanema, Leblon, Lagoa, Botafogo e Jardim Botânico. "O incrível dessa trilha é que há ângulos diferentes da cidade em todo lugar que você olha", disse a estudante italiana Rossana Sarra. Mais do que encantar visitantes, a iniciativa é um novo capítulo na longa história da comunidade.
Em paz e com mais negócio
Até a década de 1970, cantores, músicos e outros trabalhadores dividiam espaço no Vidigal. Porém, o crescimento de grupos ligados ao tráfico de drogas fez com que o Estado perdesse o controle da favela nas décadas seguintes. "Era comum ver vários jovens armados pelas ruas", afirma Edmilson Morais, de 44 anos, guia turístico e morador da comunidade.
Este cenário começou a mudar em 2011, quando uma grande operação policial abriu caminho para a instalação de uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) no ano seguinte. "Hoje, é um lugar muito melhor para criar meu filho e para fazer negócio", garante Edmilson. Em seus passeios, ele apresenta restaurantes, lojas, projetos sociais e ambientais, além de outras atrações do local onde vive, como a sede do grupo de teatro Nós do Morro.
Grupo de percussão Morenas de Sol se apresenta no Vidigal (Photo: Rio 2016/Gabriel Nascimento)
A paz rendeu bons frutos no Vidigal. Com a diminuição da violência nos últimos anos, vieram turistas do Brasil e do exterior. No topo da favela, bares passaram a abrigar algumas das festas mais animadas da cidade. A ideia de iniciativas como o Passaporte Verde é impulsionar ao máximo o potencial que o turismo tem de transformar a comunidade. "É importante para nós que os turistas não façam só a trilha dos Dois Irmãos e vão embora. Queremos que eles fiquem mais tempo aqui, vejam o que temos a oferecer", explica Edmilson.
Adam Newman, do Favela Experience, no Vidigal (Foto: Rio 2016/Gabriel Nascimento)
Para visitar, hospedar e morar
O passeio no Vidigal faz tanto sucesso que alguns visitantes acabam virando moradores. É o caso de Adam Newman, diretor executivo da firma Favela Experience. Há quatro anos, ele veio do Estado americano do Colorado para a comunidade, logo após terminar a faculdade. Ficou e não se arrepende. "A UPP transformou a segurança no Vidigal e o medo foi embora", afirma ele. "Isso deu aos negócios daqui a oportunidade de crescer e abriu a comunidade para o mundo."
De acordo com Adam, cinco por cento dos 30 mil moradores do Vidigal são de fora do Brasil. Muitos são estudantes e artistas para quem a favela combina vista de cartão-postal e localização privilegiada. Com a proximidade dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos, turistas de diversas partes do mundo e do país já estão reservando hospedagens locais, como em albergues e casas de moradores através do
site de compartilhamento Airbnb.