Quando eles ainda não eram reis
Boxe Olímpico marca a carreira e a vida de grandes campeões como Muhammad Ali, Joe Frazier e Evander Holyfield
Boxe Olímpico marca a carreira e a vida de grandes campeões como Muhammad Ali, Joe Frazier e Evander Holyfield
Muhammad Ali (ao centro) no pódio dos Jogos Olímpicos Roma 1960, ladeado pelos demais medalhistas na categoria até 81kg (Getty Images)
Os americanos Floyd Mayweather, George Foreman, Sugar Ray Leonard, Floyd Patterson e Leon Spinks, todos lendas do boxe que chegaram ao título mundial profissional, têm outro ponto em comum em suas carreiras: possuem medalhas Olímpicas no seu currículo. Mas para um outro grupo de pugilistas americanos que chegou à glória máxima no esporte profissional, formado por Muhammad Ali, Evander Holyfield e Joe Frazier, a participação nos Jogos Olímpicos foi algo muito maior: transformou suas vidas. Seja por proporcionar o reencontro com o pai, por superar um forte trauma ou por ampliar o repertório de golpes.
Evander Holyfield foi dos nomes dominantes no boxe profissional dos anos 1990, sendo campeão mundial dos cruzadores e dos pesados. Ele conseguiu vitórias marcantes sobre atletas legendários como Mike Tyson e George Foreman. Mas a experiência que teve nos Jogos Olímpicos Los Angeles 1984, literalmente, mudou a sua vida.
Nascido no interior do Alabama, mais moço de nove irmãos, Holyfield cresceu sem conhecer o pai, que teve com sua mãe uma ligação breve (os oito irmãos eram fruto de outro relacionamento da mãe). Apelidado de Chubby (Bochechudo), começou no boxe aos oito anos, já morando em Atlanta, e projetou-se mundialmente na categoria meio-pesado, justamente a partir de 1984.
Naquele ano, o boicote de soviéticos e seus aliados privou o boxe Olímpico de bons lutadores cubanos e de parte da Europa Oriental. Na semifinal, diante do neozelandês Kevin Barry, Holyfield se impôs desde o primeiro minuto, mas foi punido pela arbitragem, que entendeu que ele teria socado o rival após o sinal do fim do segundo round.
Restou-lhe vencer a disputa pelo bronze. A celebridade, porém, o colocou no caminho do pai. Convencido pela mãe, Evander Holyfield finalmente aceitou conhecer Ison Coley, lenhador analfabeto que rapidamente demonstrou não estar interessado no dinheiro do filho. Comovido, Holyfield fez questão de amparar o pai humilde – comprou-lhe uma casa e um caminhão - e manteve com ele o que descreveu como “um ótimo relacionamento” até sua morte, em 2007, por ataque cardíaco.

Esta semana haverá o Torneio Internacional de Boxe, evento-teste dos Jogos Rio 2016
Um dos maiores mitos do esporte do século 20, Muhammad Ali decolou para a fama em 1960, quando, depois de muito relutar, venceu um bloqueio psicológico e embarcou para os Jogos Olímpicos de Roma. Cassius Marcellus Clay Jr. (seu nome de batismo) morria de medo de voar. Aos 18 anos, já era uma estrela do boxe amador americano, com 100 vitórias em 108 lutas na categoria até 81 kg. Porém, após um voo particularmente traumático para a Califórnia, durante as seletivas Olímpicas, passou a entrar em pânico só de pensar em botar os pés em um avião. “Ele queria ir de barco, disse que não voaria de jeito nenhum”, lembrou o treinador Joe Martin, em documentário da HBO.
Persuadido após longa conversa, o jovem Clay comprou um paraquedas e passou o tempo todo a bordo vestido com ele. Vencida essa etapa, não foi tão difícil. O temperamento extrovertido o levou a ser apelidado de “prefeito da Vila Olímpica”: cumprimentava todos, fazia brincadeiras. Já na segunda luta, mostrou que não era apenas um fanfarrão ao derrubar o soviético Gennadiy Shatkov, que havia sido ouro em Melbourne 1956. À medida que avançava no torneio, seu estilo pouco ortodoxo no ringue conquistava a torcida italiana.
Na semifinal, porém, a vitória sobre o australiano Tony Madigan não foi tão convincente. E na decisão, contra o polonês Zbigniew Pietrzykowski, enfrentou uma situação adversa. Na luta anterior, valendo o ouro para os pesos-médios, um americano, Eddie Crook, havia ganhado de outro polonês, Tadeusz Walasek, em decisão polêmica. O público vaiou por cinco minutos. Foi debaixo de uivos antiamericanos que Cassius Clay terminou seus preparativos no vestiário. Naquelas condições, ele sabia que teria que vencer com uma superioridade que não deixasse margem de dúvidas.
No primeiro assalto, o jovem lutador sentiu a pressão: deixou-se castigar pela esquerda do polonês e, por um momento, até fechou os olhos. Só acordou para valer no minuto final do segundo round, quando encaixou quatro golpes seguidos. No terceiro, ciente de que precisava fazer mais para não perder por pontos, Cassius demoliu Pietrzykowski. O medo ficou definitivamente para trás, e um dos gigantes do esporte voou para a glória.

Conheça o nosso infográfico de boxe
Caçula de onze filhos de um casal de lavradores do interior da Carolina do Sul, Joe Frazier (1944-2011) saiu de casa ainda menino, junto com um irmão, para tentar a sorte nas ruas de Nova York. Depois, partiu para a Filadélfia. Considerado baixo demais (1,82m) para um peso-pesado, alimentou o sonho de ser como seu ídolo, o grande campeão Joe Louis (1914-1981), esmurrando peças de carne no matadouro e frigorífico onde trabalhava. Desse costume veio a inspiração para uma cena de Rocky, clássico filme de 1976, em que Frazier faz, em outro momento do longa-metragem, festejada ponta interpretando a si mesmo, quando é chamado ao ringue pelo apelido de Smokin’ Joe.
Convocado como reserva para os Jogos Olímpicos Tóquio 1964, o canhoto Frazier só entrou no ringue porque outro atleta americano, Buster Mathis, se lesionou. Após duas vitórias fáceis, Joe Frazier encontrou pela frente o forte soviético Vadim Emelyanov. Mesmo tendo sofrido uma fratura no dedão esquerdo, acabou com a luta. Precisou esconder a lesão dos médicos para poder disputar a final, em que derrotou o alemão Hans Huber usando o punho direito bem mais do que o usual.
Com isso, passou a contar com novas armas em seu repertório de golpes, apesar do mais famoso deles ter sido seu poderoso gancho de esquerda, que em março de 1971 proporcionou a Muhammad Ali sua primeira derrota como profissional, diante de um Madison Square Garden lotado de celebridades, em Nova York, no chamado "Combate do Século”.

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