O empenho fez a diferença. No caso, não apenas nos treinamentos e nas competições. No Prêmio Paralímpicos 2015, o trabalho de campanha em redes sociais e ao vivo foi decisivo para a vitória de dois nomes surpreendentes na votação popular que apontou os atletas Paralímpicos brasileiros do ano. A festa no hotel Sofitel, em Copacabana, no Rio de Janeiro, consagrou a sul-matogrossense Silvania Costa, campeã do salto em distância no Mundial de Atletismo, em outubro, e medalha de ouro nos Jogos Parapan-Americanos de Toronto, e o canoísta piauiense Luís Carlos Cardoso, também ouro em Toronto 2015 e campeão mundial em duas modalidades, 200m KL1 e 200m VL1.
No coquetel que antecedeu a cerimônia, Luís Carlos já estava exultante: "Eu fiz campanha mesmo, mobilizei as pessoas à minha volta, chamei o apoio do Nordeste. É a primeira vez que escolhem um atleta da canoagem, acho importante representar bem".
O Comitê Paralímpico Brasileiro, responsável pelas escolhas, o tinha colocado
entre os três destaques que disputaram no voto popular, pela internet, ao lado do velocista Felipe Gomes e de Daniel Dias, maior astro do esporte Paralímpico nacional. O nadador, que em 2015 ganhou oito ouros no Parapan e sete no Mundial de Glasgow, não parecia tão preocupado em vencer. "Eu sou mais no meu estilo, fico mais na minha. O importante é que vários esportes e atletas ganhem atenção", minimizou.
"Já fico muito contente pela indicação. Mas sou competitivo, gosto de vencer"
Luís Carlos Cardoso, vencedor do Prêmio Paralímpicos 2015
No fim das contas, Daniel ficou em terceiro, com 25,43% dos votos, Felipe levou 26,43%, e Luís Carlos teve 48,14% dos votos. Ao ser chamado para receber o prêmio, o canoísta lembrou que em 2015 fez uma difícil transição, adaptando-se a competição também em caiaques, mas vibrou muito. Teve até língua de fora ao ouvir a notícia ao ouvir o ex-judoca Flávio Canto, apresentador da cerimônia, chamar seu nome.
Luís Carlos Cardoso, que completa 31 anos nesta sexta, 11 de dezembro, tem apenas quatro anos na
canoagem Paralímpica. Além do potencial de crescimento esportivo, também se mostra bem articulado e carismático. Ao dar entrevista para a SporTV, já com o troféu na mão, arriscou uma dancinha, sem tirar a cadeira de rodas do lugar. Até os 25 anos, ele foi professor e dançarino profissional de forró.
De dançarino de palco de Frank Aguiar a campeão mundial em Milão
Quando trabalhava para o cantor Frank Aguiar, em 2010, foi internado com fortes dores. Os médicos descobriram, já depois que ele havia perdido os movimentos das pernas, que sua séria infecção na medula havia sido causada por uma esquistossomose - provavelmente contraída na infância. "Eu não tinha nenhuma experiência com canoagem antes, mas desde 2011 encontrei no esporte uma força maior, um chamado para a vida".
Silvania Costa, do salto em distância, foi eleita a melhor atleta do ano entre as mulheres (Foto: Alexandre Loureiro/Rio 2016)
Silvania Costa, 28 anos, chegou com discurso humilde, mas vestida com estilo e personalidade - de acordo com o papel que lhe seria concedido, de estrela da noite. Quando foi chamada ao palco para receber o troféu, recebeu elogios dos apresentadores da cerimônia, o ex-judoca Flávio Canto e a jornalista Juliana Sana, pela elegância. Emocionada, agradeceu ao time por que compete, o São Paulo, e todos os apoiadores do esporte Paralímpico brasileiro. "Sem apoio, o atleta não chega a lugar nenhum. Convido todos a estarem nos Jogos Olímpicos Rio 2016", disse, levantando a plateia.
Durante o coquetel, a saltadora se mostrava tímida, porém esperançosa: "Eu nem sou tanto de internet, sou um pouco caipira, mas falei com todo mundo, fui a eventos, visitei prefeituras pedindo para as pessoas votarem no site. Sei que é difícil, mas... ah, eu quero ganhar, né?". A vitória acabou sendo folgada: ela teve 63.98% dos votos, contra 20,06% da nadadora Joana Neves, e 15.96% da arremessadora e lançadora Shirlene Coelho.
"Minha mãe nunca me tratou como deficiente. Isso foi muito importante. Eu era uma criança atentada, não deixei de ser"
Silvania Costa, que teve a visão comprometida aos 10 anos
Desde os 10 anos, Silvania tem a visão comprometida. Na época, ela e seus dois irmãos foram diagnosticados com a doença de Stargardt, que leva progressivamente à cegueira. "Enxergo apenas vultos", diz. "Mas minha mãe nunca me tratou como deficiente. Isso foi muito importante. Eu era uma criança atentada, não deixei de ser... (risos) Apertava campainha das casas e saía correndo", lembra.
Atleta desde os 18 anos, ela se orgulha da filha de 10 anos, Letícia Gabriela, que cedo se interessou pelo esporte: "Ela já tem medalha. E é saltadora também!" Nos Jogos Paralímpicos Rio 2016, sonha impressionar a menina com resultados ainda melhores do que os conquistados até agora. "Quero ganhar três ouros. O objetivo é este!", vibra.
Andrew Parsons, presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro, comemorou os resultados do paradesporto brasileiro neste ano. "Foi espetacular. A cereja do bolo foram os Jogos Parapan-Americanos, quando ganhamos 257 medalhas. Só não subimos ao pódio em uma das modalidades", disse. O dirigente explicou a campanha oficial para os Jogos Olímpicos Rio 2016, com o slogan "Na mesma batida do coração Paralímpica", e pediu o apoio nacional, depois de dar o
endereço virtual para compra de ingressos: "Serão cerca de 250 atletas brasileiros com 200 milhões de torcedores na mesma batida".
Confira abaixo a lista completa dos premiados, escolhidos por diretores e chefes técnicos do Comitê Paralímpico Brasileiro e representantes do Conselho dos Atletas.
Daniel Tavares, o atleta Paralímpico revelação de 2015 (Foto: Alexandre Loureiro/Rio 2016)
Confira abaixo a lista de vencedores do Prêmio Paralímpicos 2015:
Melhor atleta do ano (feminino) - Silvania Costa (atletismo)
Melhor atleta do ano (masculino) - Luis Carlos Cardoso (canoagem)
Atleta reveleção - Daniel Tavares (atletismo)
Atletismo - Felipe de Souza Gomes
Basquete em cadeira de rodas - Lia Maria Soares Martins
Bocha - Maciel Sousa Santos
Canoagem - Luis Carlos Cardoso da Silva
Ciclismo - Lauro César Mouro Chaman
Esgrima em cadeira de rodas - Jovane Silva Guissone
Futebol de 5 - Ricardo Steinmetz Alves
Futebol de 7 - Marcos dos Santos Ferreira
Goalball - Victoria Amorim do Nascimento
Halterofilismo - Maria Rizonaide da Silva
Hipismo - Sérgio Froés Ribeiro de Oliva
Judô - Wilians Silva de Araújo
Natação - Daniel de Faria Dias
Remo - Josiane Dias de Lima
Rugby em cadeira de rodas - Alexandre Vitor Giuriato
Tênis de mesa - Cátia Cristina da Silva Oliveira
Tênis em cadeira de rodas - Natália Mayara Azevedo da Costa
Tiro com arco - Jane Karla Rodrigues Gogel
Tiro esportivo - Geraldo von Rosenthal
Triatlo - Fernando Aranha Rocha
Vela - Tui Francisco Andrade de Oliveira
Voleibol sentado - Suellen Cristine Dellangelica Lima
Melhor técnico individual - Fábio Dias (atletismo)
Melhor técnico coletivo - Dailton Freitas (seleção brasileira feminina de goalball)
Prêmio Aldo Miccolis - David Farias Costa