No alvo dos Jogos Rio 2016: um raio X das armas das 15 provas do tiro do esportivo
Tecnologia e ajustes milimétricos significam medalhas no esporte que segue em disputa no Parque Olímpico de Deodoro até domingo
Tecnologia e ajustes milimétricos significam medalhas no esporte que segue em disputa no Parque Olímpico de Deodoro até domingo
Carabina para a prova 3 posições: ajustes para ombro, axila, malar, bochecha, olho... (Getty Images/David Ramos)
Texto: Denise Mirás
O princípio é simples: cada arma - seja pistola, carabina ou espingarada - tem desenho e características diferentes, adaptadas às 15 provas do tiro esportivo que são disputadas nos Jogos Olímpicos. O complicado começa nos detalhes, que incluem ajustes de peças, angulações no apoio de ombro e bochecha, adaptações para mãos que incham e perdem a perfeição milimétrica da empunhadura, e também para variáveis como vento e claridade. Tudo para servir cada vez melhor à precisão humana. Bruno Heck, atleta brasileiro, compara sua carabina Olímpica a uma máquina de extrema complexidade: “Para mim, é igualzinho a um carro de Fórmula 1”.
Bruno é um dos quase 700 inscritos, entre atiradores de 88 países, na etapa do Rio de Janeiro da Copa do Mundo, evento-teste que segue até domingo (24), no Centro Nacional de Tiro Esportivo, em Deodoro, e que pode definir vagas Olímpicas.
Conheça o brasileiro Felipe Wu, líder do ranking mundial da pistola 10m
Muitas armas customizadas – e também munição garimpada pelos atletas em fábricas na Europa para contar com um lote que seja o mais adequado possível – circulam pelos estandes, em meio ao barulho dos tiros.
As cinco provas Olímpicas da carabina são: carabina de ar masculina e feminina, carabina três posições masculina e feminina e carabina deitado masculina. Há variações de revezamento dos atletas, do número de tiros e também de tempo para atirar.
Saiba mais sobre todas as provas do tiro esportivo
Confira aqui o sistema de classificação para o Rio 2016

Há dois modelos básicos de carabina: para a prova de 10m, a arma é standard e tem um cilindro de ar comprimido; para a prova de 50m, não – a arma pode ser ajustada (dentro de uns poucos parâmetros) e o tiro é com munição mesmo (e não com chumbinho), calibre 22.
O “chassi” do F-1, como Bruno Heck explica, tem duas peças parafusadas: a coronha e a ação (que seria o cano, em linguagem simplificada). A soleira, que é o apoio para o ombro, é específica para cada prova ou para cada posição (deitado, ajoelhado e em pé).
Bruno Heck, atleta brasileiro do tiro esportivo nas provas de carabina
São soleiras diferentes e, no caso da prova três posições, trocadas dentro dos segundos permitidos. Variam em altura, curvaturas e ângulos, conforme o ombro do atleta, e também de acordo com a posição em que ele fica.
A soleira é acompanhada pelo apoio de bochecha ("cheek piece", em inglês), formatado a cada prova, mais para frente ou para trás, de acordo com o osso malar e o tamanho da face (mais cheinha ou seca), a altura do olho e a inclinação em que a cabeça fica. Sob a axila, fica um garfo acoplado, também anatômico, para dar mais firmeza, e também o punho e o gatilho.
Quando o atirador está deitado ou de joelhos, usa uma bandoleira - faixa que segura braço e antebraço em ângulo determinado. Afinal, a carabina 50m pesa até oito quilos e dois milímetros diferentes na posição mudam tudo.

Existem duas miras na carabina: a alça e a maça de mira. A alça (mais próxima do olho), tem filtros de até 12 cores a ser usados de acordo com condições climáticas e de luz (azul para neve, cinza para tempo claro, âmbar para tempo escuro, por exemplo). A maça de mira tem aros interiores que também variam de tamanho – menor, quando se está deitado, pela maior estabilidade, ou maior, quando se está em pé. As duas podem ser ajustadas.

No caso da pistola, há três tipos de armas para cinco provas Olímpicas: pistola de ar masculina e feminina, pistola 50m masculina, pistola 25m feminina e pistola tiro rápido masculina.
A pistola de ar tem tamanho limitado e pesa 1,4 quilo. O “peso” do gatilho – a força que se faz com o dedo – é de 500 gramas. A pistola 50m – com munição de calibre 22 –, tem tamanho, formato do cabo e peso do gatilho "livres" - o atirador escolhe.
C molde da empunhadura é importantíssimo, como explica o brasileiro Júlio Almeida: “É de madeira, mas a gente reveste com massa para lanternagem em carro para ficar no formato da mão, bem firme. Conforme vamos treinando, fazemos o ajuste fino”. O problema, diz Júlio, é que “a mão muda”.
Júlio Almeida, atleta brasileiro do tiro esportivo nas provas de pistola
Na prova que dura mais de uma hora, não é permitido que o atirador se apoie. O atleta usa apenas uma das mãos, levantando a arma de 2,3 quilos mais de 60 vezes.
No tiro rápido, o tempo é determinado pelo árbitro, com intervalos de oito a quatro segundos para cada série de cinco tiros. “É um limitador, assim como o peso do gatilho de 1000 gramas”, diz Júlio.
Para permitir maior rapidez, a arma do tiro rápido é mais curta. Não é necessária tanta precisão como na pistola de ar e na livre – que tem o cano mais longo. “As armas são desenhadas para cada prova.”

No caso do tiro ao prato, são espingardas de calibre 12, com pratos lançados por máquinas a angulações mais ou menos estreitas, velocidade e distância diferentes, de acordo com as provas Olímpicas - que são fossa Olímpica masculina e feminina, fossa double masculina, skeet masculino e feminino.
O atleta Emanuel Munaretto explica que nas provas de fossa double e skeet saem dois pratos das máquinas ao mesmo tempo, com diferença de angulação. Na fossa Olímpica, sai um prato e o atirador têm dois tiros, mas a distância é maior – com voo a 76 metros, a 90 ou 100 km/h e com uma amplitude de saída maior (45 graus).
Os campos do tiro ao prato são ao ar livre, chamados de pedanas e “arrematados” no horizonte – é o caso de Deodoro – com muro verde ou elevação do gramado. O próprio espaço interfere na prova. Além da luminosidade e do vento, há o calor. “Ficamos pelo menos 30 minutos debaixo do sol direto. Não se pode ter um guarda-sol por causa das imagens de TV”, conta Emanuel.
A espingarda do skeet é mais leve (quatro quilos) e mais curta. No caso da fossa (até cinco quilos), a espingarda da double tem sobre o cano o que se chama de fita ou varilha para ajudar na visualização do prato.
A coronha é feita sob medida, “emagrecida” ou “engordada” conforme o osso do ombro e a bochecha do atleta. À exceção desse detalhe, não há variação na espingarda do tiro ao prato de dois tiros de repetição. “É assim há um século. Tem gente usando a mesma arma há 40 anos.”
Emanuel Munarretto, atleta brasileiro do tiro ao prato
Cerca de 700 atletas de 88 países se inscreveram para a etapa do Rio de Janeiro da Copa do Mundo de Tiro Esportivo, No Parque Olímpico de Deodoro. Além de pontos para o ranking mundial - que para alguns poderão valer vaga nos Jogos Olímpicos Rio 2016 -, o objetivo também é conhecer as instalações e as condições climáticas - temperatura e ventos -, semelhantes às que deverão encontrar em agosto no torneio Olímpico. “Foi bom vir agora para sentir o quanto teremos de cuidar da hidratação. Nós, europeus, chegamos do frio”, disse Pablo Carrera, espanhol sexto lugar nos Jogos Londres 2012 que levou a medalha de ouro da pistola de ar 10m em Deodoro.
A Federação Internacional de Tiro (ISSF, na sigla em inglês) agora permite animação sonora na arena de competição. Música, DJs, locutores, aplausos e gritos de torcida foram testadas nas provas de classificação. O atirador Júlio Almeida, que ficou em 26º lugar no evento-teste em Deodoro, comentou que treinou muito ouvindo barulho e palmas, mas não sabia que música também seria usada. “Eu adoro música, mas foi só tocar um rock’n’roll dos meus preferidos que perdi a concentração”, disse. Outro ponto que exige adaptação dos atiradores, para Felipe Wu - que acabou em 16º lugar -, é a movimentação de câmeras de TV próximas aos competidores.
Não foram apenas os brasileiros que estranharam as novidades. O sul-coreano Jin Jong-oh, que é considerado um fenômeno do tiro esportivo, com cinco medalhas Olímpicas (três de ouro e duas de prata), também não foi para a final, com oito atletas. Ficou em 12º e admitiu a dificuldade de se concentrar com o som alto. “Todos sentimos a mesma coisa”, comentou. “Vamos ter de trabalhar duro.”
Sábado (16)
Carabina de ar 10m feminina – 1) Du Li (China), 2) Daria Vdovina (Rússia), 3) Selina Gschwandtner (Alemanha)
Fossa Olímpica feminina – 1) Lin Yi Chun (Taipé), 2) Ray Bassil (Líbano), 3) Sonja Scheibl (Alemanha)
Pistola de ar 10m masculina – 1) Pablo Carrera (Espanha), 2) Damir Mikec (Sérvia), 3) Juraj Tuzinsky (Eslováquia)
Domingo (17)
Pistola de ar 10m feminina – 1) Olena Kostevych (), 2) Antoaneta Boneva (Bulgária), 3) Teo Shun Xie (Cingapura)
Fossa Olímpica masculina – 1) Alberto Fernandez (Espanha), 2) Jiri Liptak (República Tcheca), 3) Jean Pierre Brol (Guatemala).
Em uma etapa de Copa do Mundo com 50 campeões mundiais e olímpicos em ação, não devem faltar surpresas. As instalações Olímpicas estão abertas pela primeira vez a todos e os atletas estão se adaptando e aproveitando para evoluir nos treinos.
Nesta segunda-feira (18), tem a final feminina da carabina 10m. E, nesta terça (19), acontecem as finais masculinas de pistola 50m e de fossa double masculina.
Na quarta-feira (20), a disputa é pelas medalhas da pistola 25m feminina e, na quinta (21), da carabina deitada masculina. A sexta-feira (22) é mais uma vez das mulheres, com a final da carabina 3 posições.
No sábado (23), é a final feminina do skeet e da pistola de ar 25m masculina. Encerrando a competição, no domingo (24), tem as finais masculinas da carabina 3 posições e do skeet.