Mulheres em pauta: atletas que venceram preconceito no esporte conduzem a tocha Olímpica Rio 2016 em Salvador
Suzy Bittencourt, Margarete Piovensan e Érica Santos contam como quebraram paradigmas em esportes tidos como masculinos
Suzy Bittencourt, Margarete Piovensan e Érica Santos contam como quebraram paradigmas em esportes tidos como masculinos
A boxeadora Érica Santos é um dos exemplos do empoderamento feminino no esporte Olímpicos (Foto: Rio 2016)
Pelé, Éder Jofre, Neymar, Popó... O Brasil já viu muitos atletas despontarem no futebol e no boxe, dois esportes Olímpicos populares no país, e se tornarem ídolos nacionais. Para as mulheres destas modalidades, no entanto, o caminho rumo ao estrelato costuma contar com barreiras a mais, como a discriminação e o estranhamento de dirigentes e público em relação à participação feminina. Após conduzirem a tocha Olímpica Rio 2016 nesta terça-feira (24), em Salvador, Suzy Bittencourt, Margarete Piovensan e Érika Matos contam como quebraram paradigmas para fazer história no esporte Olímpico brasileiro.
Suzy Bittencourt com a tocha Olímpica em Salvador (Foto: Rio 2016)
A baiana de 49 anos fez parte do time que levou a seleção feminina aos Jogos Olímpicos pela primeira vez. “Nós abrimos os trabalhos para o futebol feminino em Atlanta (1996). Está fazendo 20 anos que levamos a seleção aos Jogos”, lembra a ex-atleta, que hoje é fisioterapeuta e professora de Educação Física em Salvador.
Suzy entrou para o esporte jogando em clubes de Salvador. Para ela, o preconceito em relação às mulheres no futebol é uma questão cultural. “As mulheres sofrem preconceito sempre que se debruçam em carreiras majoritariamente masculinas. Seja como motorista de ônibus, de táxis e até dirigindo uma empresa. No futebol isso ficou ainda mais estigmatizado. Sabemos que o que difere mais os homens das mulheres é a força. Agilidade, coordenação e saber intelectual são os mesmos”, analisa.
Em Salvador, Suzy passou a chama Olímpica para outra craque do futebol feminino: a ex-goleira Margarete Pioresan.
A ex-goleira Mag Pioresan com a tocha Olímpica Rio 2016 em Salvador (Foto: Rio 2016)
Mag, como é conhecida no esporte, fez história não apenas em uma, mas em duas modalidades Olímpicas. A paraense de 60 anos sentiu na pele o estigma do futebol feminino quando decidiu trocar a defesa da seleção feminina de handebol, em 1991.
“Nunca sofri preconceitos jogando handebol, mas quando fui para o futebol senti a diferença. As pessoas falam como se a mulher não pudesse jogar bola com os pés. Nunca dei ouvidos e não deixei de ir atrás do meu sonho”, contou a ex-goleira, para quem a discriminação no Brasil é maior do que em outros países. “Quando saíamos para jogar fora, não sentia nada (de preconceito). Pelo contrário, as pessoas aplaudiam”, completou.
“Vai ter uma hora em que as pessoas não vão achar mais graça em ter preconceito. Vão ficar sozinhas levantando essa bandeira”
Margarete Pioresan
Para Meg, a discriminação não acontece apenas dentro do campo, mas dentro dos próprios clubes. “No Brasil, o corpo técnico dos times femininos são formados por homens em sua maioria. Mas a mulher vem derrubando os tabus aos poucos. Primeiro, ela não votava, não trabalhava, não fazia faculdade. Hoje ela faz tudo, é até piloto de avião", disse.
Meg já tinha 40 anos quando defendeu a seleção brasileira de futebol feminino em Atlanta 1996. “Depois que disputei os Jogos Olímpicos, disse que poderia até morrer. Ser goleira das duas seleções (handebol e futebol) foi um presente de Deus. Ajudei outras meninas com essa sementinha”, disse, orgulhosa de sua história.
Erika Mattos durante Mundial de boxe em 2012 (Foto: Getty Images)
Boxeadora há 13 anos, a baiana Érika Mattos já provou o gosto do sucesso diversas vezes: são onze títulos brasileiros, cinco pan-americanos e um sul-americano, além de ter integrado o time que levou o boxe feminino brasileiro aos Jogos Olímpicos pela primeira vez, em Londres 2012.
“Em Londres, o Brasil levou três mulheres e eu fui uma delas. Hoje já têm muitas mulheres praticando boxe nas academias, acho que o preconceito já diminuiu bastante. Ainda existe quem ache o boxe masculinizado ou violento, mas já conseguimos mudar essa impressão”, conta ela, que admite ter hesitado em entrar para a luta por medo. Mas, depois de praticar, viu que os benefícios físicos e emocionais da modalidade eram muitos.
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