Mídias sociais no esporte: vilãs ou mocinhas?
Atletas e dirigentes vivem dilema entre os benefícios das ferramentas de comunicação e a capacidade que elas têm de causar problemas
Atletas e dirigentes vivem dilema entre os benefícios das ferramentas de comunicação e a capacidade que elas têm de causar problemas
Smartphones são unanimidade entre os atletas fora de quadra (Rio 2016/Alex Ferro)
Mídias sociais. Facebook, Twitter, Whatsapp, Instagram, Snapchat. Vilãs ou mocinhas? No esporte o assunto é polêmico. As ferramentas que ajudam a aproximar atletas de fãs e família também podem causar confusões. Que o diga a seleção feminina de basquetebol da Austrália, que está disputando o Torneio Internacional, evento-teste dos Jogos Rio 2016. Recentemente a comissão técnica teve de administrar uma turbulência quando duas de suas jogadoras se desentenderam com direito a declarações pelo Facebook. O caso foi resolvido de forma interna, mas deixou dirigentes em alerta.
Não foi o único. Tanto que o Comitê Olímpico Australiano teve reunião com os atletas no ano passado no qual, entre outros assuntos, fez vários alertas sobre os perigos das mídias sociais. No depoimento mais dramático, a nadadora Emily Seebohm declarou que o exagero em acompanhar e publicar na internet fizeram com que perdesse a medalha de ouro. As preocupações com o fato de os atletas possam perder a concentração em momentos decisivos é grande.
O país-sede dos Jogos Rio 2016 não ficou ileso de problemas. Em Londres 2012, a judoca brasileira Rafaela Silva se desentendeu com críticos via Twitter e o caso acabou em ofensas. Dois anos depois, antes dos Jogos Olímpicos da Juventude Nanquim 2014, o Comitê Olímpico do Brasil deu orientações à delegação para evitar dores de cabeça.
Na seleção feminina de basquetebol da Austrália algumas regras são evidentes. Fotos em quadra, só feitas pela supervisora, que encaminha às atletas. Esta não é exatamente uma situação rara – em muitas delegações esportivas há a mentalidade de que a arena de competição é ambiente de trabalho, que deve ser blindado de distrações. O técnico Brendan Joyce usa de um ditado bem brasileiro para resumir a política interna no seu time.
O treinador australiano, no entanto, reconhece que controlar as mídias sociais é tarefa ingrata – tem quatro filhos que usam bastante as ferramentas de comunicação. “Hoje é diferente do meu tempo de atleta onde a gente usava fichas para telefonar para os pais uma vez por mês”. No entanto, se adequar às inovações é necessário e por isso as mídias sociais não são proibidas ou controladas no time australiano fora da quadra. “É preciso confiar".

Rachel Jerry, que se envolveu no imbróglio com uma companheira de time, diz que a questão já foi superada. Falou dos prós e contras das mídias sociais. “Alguns acham distração, outros uma boa ferramenta para se comunicar com os fãs. Acho que a questão é ter sensibilidade com que você faz". A australiana conta que, apesar de não ter ouvido as palestras do Comitê Olímpico Australiano, já ouviu histórias de outros atletas de seu país sobre as armadilhas que as ferramentas de comunicação reservam.
O técnico brasileiro Antônio Carlos Barbosa reconhece que por vezes as mídias sociais trazem problemas, principalmente quando é veículo de difamações. O treinador revela que não gosta de atletas que se expõem muito ou que divulgam publicamente problemas internos da equipe. “É ridículo expor demais a vida pessoal e dar indiretas. Isso é baixaria", decreta. Mas o treinador ressaltou um efeito mais do que positivo das redes sociais nas atletas brasilieiras da nova geração.
A brasileira Iziane diz que não tinha muito interesse nas mídias sociais, mas se rendeu à necessidade de melhorar o contato com os pais e, posteriormente com os fãs. O lado bom, segundo ela, é receber carinho. Mas tem um lado difícil. “É preciso ter controle”, diz a atleta, lembrando das responsabilidades de sua posição de pessoa exposta na mídia - não dá para ser igual a todo mundo.

Quando o assunto é tempo online, a nova geração, diz Iziane, tem mais dificuldade de se controlar. “De vez em quando a gente dá uma puxada na orelha. Desliga aí! Presta atenção! Mas elas entendem. É tranquilo”.
O técnico da Argentina, Cristian Santander, também acha que controle total das redes sociais é impossível. “Sugerimos um cuidado com alguns tipos de declaração, com respeito às organizações esportivas, a política”, explica o treinador, que diz nunca ter tido problemas disciplinares envolvendo mídias sociais. Segundo ele, na Argentina e no mundo a internet está incorporada à rotina diária e anualmente o Comitê Olímpico dá orientação sobre o assunto aos atletas.
Santander revela que, se não é possível controlar, usa a tecnologia a seu favor. “Temos uma página fechada no Facebook onde informamos coisas como horário de treinos, rivais, estatísticas e vídeos. É um grupo privado. Também temos um grupo de Whatsapp para comunicados, lições e orientações dos médicos".
A jogadora argentina Sandra Pavon diz que é preciso pensar antes de publicar. “Por exemplo, não vou postar durante uma competição uma foto minha na praia porque aí podem dizer que não estava treinando". Mas as ferramentas podem ser usadas de forma positiva. Segundo ela, por exemplo, as mídias sociais fizeram com que tivessem mais informações da equipe da Austrália, inclusive com vídeos. “Falamos com jogadoras na Itália e na Espanha que as conhecem".
O técnico da Venezuela, Oscar Silva, explica que em sua equipe não há regras para uso das ferramentas de comunicação online no grupo que está no evento-teste pois há um consenso geral de que questões internas não devem ser resolvidas publicamente. “Na equipe principal nunca tive problemas, as meninas sabem de suas responsabilidades, sabem se comportar. No entanto, de vez em quando, o mesmo não acontece com as equipes de base. Algumas das atletas mais jovens exageram no tempo que ficam online e, quando isso acontece, chamamos a atenção. Se não adiantar, pode acontecer de ficar sem o smartphone por 24 ou 48 horas. Quem administra isso é minha assistente". Mas nem tudo é problema. Assim como na Argentina, Silva mantém um grupo fechado no Whatsapp no qual se comunica com suas jogadoras.
A capitã seleção venezuelana, Yvaney Marquez, acredita nas redes sociais como uma forma de aproximar o público da realidade.
Mas a jogadora ressalta que há um lado bastante complicado de administrar: as críticas. “Você tem de prestar atenção e aprender a recebê-las de forma construtiva. O que não te serve, melhor deixar para lá".