Melhor do mundo, musa e mãe: a campeã olímpica Paula Pequeno e suas humanidades
Eleita a melhor jogadora de voleibol em Pequim 2008, brasileira fala das vitórias, das renúncias e da expectativa para Rio 2016
Eleita a melhor jogadora de voleibol em Pequim 2008, brasileira fala das vitórias, das renúncias e da expectativa para Rio 2016
Paula Pequeno abraça Mari: o Brasil é ouro em Pequim 2008 (Cameron Spencer/Getty Images)
Campeã olímpica, melhor do mundo. Renúncias. Momentos deixados para trás. Musa, mãe. Um infinito de oportunidades que não voltam. Ídolo, referência. A solidão das escolhas e das perdas. A glória do pódio. O preço a pagar. Para Paula Pequeno, ouro em Pequim 2008 no voleibol, eleita a jogadora mais valiosa da última edição dos Jogos, as respostas são muitas, mas a pergunta é só uma: até onde ceder para chegar ao topo?
Modelo aos quatro anos de idade, trocou as passarelas pelo esporte aos 12. Com 15, mudou de cidade pelo voleibol: de Brasília para São Paulo. Seleção brasileira juvenil aos 17, chegou ao time adulto dois anos depois. A mãe, também jogadora, atuou grávida até os oito meses. Outros tempos, mas nem tanto. Paula atuou até os cinco meses de gravidez de Mel, hoje com cinco anos. A vida de treinos, viagens e jogos exigiu distância. Ontem e hoje, antigas prioridades ficam para trás.
“Você abre mão de quase tudo. Primeiro, desde lá de trás, você larga seus estudos. Depois, você larga sua família, fica muito tempo sem ver seus amigos, seus familiares. Eu, que tenho uma filha, perdi boa parte da infância dela viajando. Para mim, é a coisa que... Eu tenho que fazer valer muito a pena isso aqui, porque esses momentinhos que eu não tive oportunidade de ficar com ela não voltam mais. Ou está aqui com muito amor, ou não está. É realmente muito sofrido. Mas não reclamo, pelo contrário. A gente faz isso porque ama”, conta a jogadora, em um intervalo entre os treinos no belo Centro de Desenvolvimento das seleções brasileiras, em Saquarema, estado do Rio.
Primeiros Jogos, primeiro ouro
O trauma de três derrotas seguidas em semifinais olímpicas exigiu doses extras de sacrifício das meninas do Brasil. Paula era uma estrela em ascensão quando uma lesão no joelho esquerdo a tirou de Atenas 2004. Assistiu pela TV à dolorosa vitória russa após sete match points desperdiçados pelas brasileiras. A partir dali, entre glórias e insucessos em outras competições, um foco apenas: o ouro em Pequim 2008. Foram oito jogos e apenas um set perdido, o segundo da final contra os Estados Unidos.

“Primeira coisa: o grupo se fechou muito. O trabalho foi realmente muito intenso, cada segundo foi aproveitado, tanto no treinamento tático quanto no técnico e no físico. O foco era muito grande, o brilho nos olhos, todo mundo tinha o mesmo objetivo. Sabia onde queria chegar. Isso tudo ajudou muito”, lembra a ponteira.
Do alto de seus 1,85m, longos cabelos lisos, escuros, presos cuidadosamente com uma fita branca, o estilo em quadra e a beleza já haviam rendido o título de musa. A lista de fiéis seguidores só fez aumentar. Exemplo para as mais novas, eleita melhor jogadora do mundo por duas vezes (2005 e 2008), mãe em 2006, as conquistas se multiplicaram. O ouro olímpico foi o auge. Londres 2012, após o trauma e a conquista, chega com sabor de vida nova.
Rumo ao Rio 2016
Aos 29 anos, Paula mostra fôlego, mas não faz previsões para Rio 2016. Para os Jogos Olímpicos em seu país, visualiza legados tangíveis e intangíveis. Já viajou o mundo representando o Brasil. Sabe que é hora e vez de o povo fazer sua parte.
“Muitas pessoas que não tinham curiosidade de conhecer o Brasil, o Rio de Janeiro, vão ter. Não tem outro jeito, vão ter que conhecer (risos). Tenho certeza que a gente, com a nossa hospitalidade, nosso calor, a gente vai conseguir agradar a maioria dessas pessoas. Espero que seja um atrativo para o turismo, que aumente muito. Isso trará conseqüências positivas para o Rio de Janeiro, para que se torne uma cidade muito melhor”, diz.
“O importante é a organização, é você confiar que o trabalho está sendo bem feito. Os ginásios terem uma boa estrutura, os hotéis terem conforto, a comida ser boa. Transporte organizado é outro ponto muito importante para o atleta. De uma maneira geral, um bom descanso, uma boa alimentação, um bom local para se trabalhar e um certo conforto e tranquilidade é o que pode ajudar a todos nós em um grande evento como este”, conclui.
Melhor do mundo, musa e mãe, Paula Pequeno é referência para milhões, mas mantém os pés no chão. Bela e consagrada, continua humana nas vitórias e derrotas. Diferencial do Brasil em Pequim 2008, é a jóia que faltava a uma geração de talento. Para chegar ao topo, soube ceder. Abrir mão pelo voleibol sempre trouxe recompensas.