Instalações pensadas com o carinho de quem já esteve do outro lado
Diretores do Comitê Rio 2016 usam experiência dos tempos de atleta para garantir o conforto de competidores durante os Jogos
Diretores do Comitê Rio 2016 usam experiência dos tempos de atleta para garantir o conforto de competidores durante os Jogos
Bicampeão olímpico de vôlei, Giovane quer uns "mimos anti-estresse" para os atletas (Rio 2016/Alex Ferro)
Texto: Denise Mirás
Giovane Gávio, bicampeão Olímpico com a seleção de voleibol (Barcelona 1992 e Atenas 2004), atua como gerente do esporte no Comitê Rio 2016. Assim como Agberto Guimarães, ex-meio-fundista, que é diretor executivo de esportes; Sebástian Cuattrin, gerente da canoagem, e Paulo Villas Boas, do basquetebol, o ex-atacante de ponta é um dos líderes do Comitê Organizador Rio 2016 que podem contribuir para o sucesso dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos não apenas com visão técnica, mas também com percepção de atleta. Todos eles trabalham tendo em mente a diferença que certos detalhes fazem para aqueles que passam por momentos de tensão antes de competir.
Giovane diz que esses momentos são mágicos, mas de muita ansiedade. Para enfrentá-los, acredita, o atleta precisa de um vestiário humanizado – segundo um conceito que vai um além de luz e limpeza.
Pode ser que o preparador físico não goste muito, mas nesse momento, "uma hora antes do jogo, é sempre bom ter algo para mastigar", justifica o ex-jogador.
No vestiário do voleibol, atletas costumam seguir todo um ritual: ouvem música, fazem bota de esparadrapo, enfaixam dedos, colocam kinesio tape no ombro, no joelho. Alguns tomam banho antes, outros vão querer tomar depois. Ali, segundo Giovane, precisam ter tudo na mão: toalha, gelo, coolers (as garrafinhas têm conteúdo individualizado): “O negócio é garantir o antes e o depois. Porque na quadra é foco. Ali, o bicho vai pegar."
Agberto Guimarães, que competiu no atletismo dos Jogos Olímpicos Moscou 1980 e Los Angeles 1984, lembra da sinalização como aspecto fundamental: “Essa fluidez nos locais de competição é muito importante para o atleta. É preciso que tudo esteja muito bem sinalizado para que todos saibam para onde deve ir e como. A falta de boa sinalização é uma das grandes pragas nos Jogos”. O diretor executivo de esportes do Rio 2016 exemplifica: “Não adianta gastar um monte de dinheiro e ter umas placas que ninguém consegue enxergar. O sujeito anda um quilômetro para enxergar a placa e não chega aonde precisa estar!”.
As especificações técnicas não geram preocupação, “porque o diretor técnico vai lá com a trena e mede tudo”. Agberto prefere que sejam lembradas coisas mais básicas: “É melhor pensar menos no look para a foto e mais na eficiência da orientação.”
Os atletas saem do “castelinho”, como Agberto chama a Vila Olímpica, e são levados para o local de competição. Lá, a porta de entrada é uma só. “Mas dentro, se o lugar é grande, com espaços envelopados dentro de espaços maiores, como no Excel em Londres 2012 ou aqui no Riocentro, fica pior. São vários os locais por onde o atleta vai circular: vestiário, lounge dos atletas, quadra, cerimônia, antidoping, departamento médico, tribuna de atletas nas arquibancadas...”
Agberto Guimarães, diretor executivo de esportes do Rio 2016, sobre uma boa sinalização

Atleta Olímpico da canoagem velocidade nos Jogos Olímpicos Atenas 2004 e agora gerente de canoagem no Comitê Rio 2016, Sebastián Cuattrin defende pequenos gestos que levem bem-estar para o “cliente principal” – no caso, o atleta. Ele mesmo lembra de seu toque pessoal no evento-teste da canoagem slalom, no Parque Radical de Deodoro, em novembro: “Cada atleta que encerrava a descida da pista recebia uma garrafinha de água – lacrada, claro –, de um voluntário”.
Tratar os atletas com esse tipo de gentileza “faz uma diferença danada”, segundo Cuattrin. “Os atletas se sentem bem. Nossa competição contou com uma equipe treinada para atender a todos.”

No vestiário, por exemplo, uma toalha para cada atleta é o mínimo, por questão de higiene, segue Giovane Gávio. “Ou mais de uma. Se tiver xampu e sabonete, melhor. Não é uma questão nada de ficar exigindo excentricidades. É só um conforto.”
Agberto Guimarães concorda que muitas vezes os vestiários não recebem a devida atenção, mas quer o básico: “Chuveiro precisa ter água quente. Aliás, precisa ter água! Os sanitários precisam estar funcionando e limpos. E precisa ter papel higiênico.”
Bancos e armários com chave também são necessários, assim como um local bem iluminado, como um camarim, para a maquiagem das garotas do nado sincronizado e da ginástica. “Além do mínimo, podemos pensar em uma tevê exibindo as competições ao vivo”, cita o diretor executivo.

Paulo Villas Boas, da seleção de basquetebol nos Jogos Olímpicos de Seul 1988 e Barcelona 1992 e é gerente de basquetebol do Rio 2016, tem o que acrescentar nos vestiários: um relógio da partida que está sendo jogada, preliminar, e uma tevê para os técnicos passarem vídeos.
Paulo Villas Boas, da seleção brasileira de basquetebol em Seul 1988 e Barcelona 1992
Depois de jogar por 30 anos, "dos 9 aos 39”, Paulinho - como ficou conhecido no basquetebol - ficou uma década no Comitê Olímpico do Brasil (COB) na gestão de todas as modalidades. “Eu me considero superprivilegiado por isso. É importante termos ex-atletas aqui no Rio 2016 para apontar para as áreas funcionais o que gostaríamos que os atletas tivessem - e também o que não tivessem.”
Além de transporte o mais próximo possível da porta das arenas, os getores de esporte indicam que deve-se verificar a alimentação, lounge com informações de jogos, wi-fi e sofás. E um detalhe muito importante: o fluxo de pessoas para que os jogadores não cruzem com árbitros ou com o animado pessoal das apresentações, que podem atrapalhar na concentração antes das competições.
Paulinho destaca ainda os testes com equipamentos para os atletas, incluindo os da Vila Olímpica, junto com o departamento de compras do Comitê Organizador Rio 2016. “Isso é inédito: testamos as camas, por exemplo, e vimos que precisaríamos de algumas com 2,20m de comprimento, mas seria inviável para o mobiliário passar por elevadores e portas. Assim, optamos pelas camas com 2,00m com prolongamentos, que chegam ao tamanho ideal.”
Ricardo Prado, medalha de prata em Los Angeles 1984 e gerente de esportes aquáticos do Rio 2016, resume: “Na Vila Olímpica, o atleta precisa de três coisas básicas: instalações ótimas, comida boa e descanso”. Fora da Vila, o ideal é facilitar o transporte para o local de competição e a entrada. Para o gerente, dentro da instalação, a fluidez entre locais por onde o atleta precisa passar é fundamental para que o foco da competição não seja desviado.
“Na natação e também no atletismo, cada delegação arma sua tenda, com equipamentos próprios. São caixas de bebidas – água e isotônicos –, aparelhagem de fisioterapia, banheira de gelo para recuperação, uma ou duas macas para massagem. Por isso é importante termos um espaço bem amplo, reservado para isso.” Prado ainda cita a importância de um lugar para os atletas nas arenas.
