Guerreira forjada no quintal
Iris Tang Sing vence resistência da família e dificuldades para conquistar vaga Olímpica no taekwondo
Iris Tang Sing vence resistência da família e dificuldades para conquistar vaga Olímpica no taekwondo
Iris foi bronze no Pan-Americano Toronto 2015 e no Mundial. Quer mais para os Jogos Rio 2016 (Exemplus/COB/Saulo Cruz)
Iris Tang Sing. Um nome original, uma história digna de roteiro de cinema. A lutadora conquistou uma vaga para o taekwondo do Brasil nos Jogos Rio 2016 via ranking mundial recentemente no México e foi confirmada na equipe brasileira pela Confederação Brasileira de Taekwondo (CBTKD). “A vaga brasileira até 49kg para os Jogos é da atleta Iris Silva Tang Sing”, anuncia o diretor técnico da entidade, Alexandre Lima. Nem a origem humilde, nem as modestas condições de treinamento (no quintal da casa do treinador), nem a forte resistência da mãe e a doença do pai... Nada impediu esta neta de chinês de progredir no esporte.
A FICHA AINDA NÃO CAIU !! #RIO2016 um sonho realizado .Muito obrigada meu Deus#Felizzzzzzzzzzzzzzzz
Posted by Iris Tang Sing on Sábado, 5 de dezembro de 2015
A classificação, segundo ela, trouxe à tona uma mistura de sentimentos. “Eu me sacrifiquei muito para conseguir essa vaga e me senti muito feliz e aliviada quando realmente se concretizou. Parece que saiu um peso das minhas costas”, revela. “Tinha muita pressão, pois eu tinha o que perder se não conseguisse. Sofri muito e tinha medo de dar errado, pois aí teria que disputar uma seletiva no Brasil, e estaria em desvantagem - além de ter a pressão toda em cima de mim, eu estaria destreinada e muito cansada de tudo que fiz este ano.”

Iris progredia, mas ao mesmo tempo enfrentava mais do que uma simples resistência da mãe, que preferia ver a filha empregada em um supermercado. O pai intervinha favoravelmente à filha quando estava em boas condições de saúde, mas, vez por outra, internações para tratar da saúde eram necessárias e ele não podia ajudar. Sem apoio da mãe, praticamente todo o dinheiro para competir era obtido com rifas. E cada derrota era recebida com um “bem feito, desiste disso” de Marli. Com o tempo, o conflito familiar atingiu o ápice. Como conta Ribeiro, que naquela atura já era treinador da menina:
Depois de passar uma temporada morando com uma amiga, Iris se mudou a casa da família Ribeiro. “Se fosse para a casa de parentes, que moram no Rio, não conseguiria continuar treinando por causa da distância de Itaboraí”, explicou o técnico. Trabalhou com afinco no quintal da residência e, na temporada 2015, os resultados mais expressivos chegaram. Primeiro veio a medalha de bronze no Mundial da Rússia, depois novo bronze nos Jogos Pan-Americanos e o ouro nos Jogos Mundiais Militares. Agora, a vaga Olímpica. E Iris quer que seu exemplo tenha algum efeito nas pessoas que vivem ao seu redor. “Isso foi uma das minhas maiores motivações para buscar essa vaga: mostrar que nós podemos tudo, basta se dedicar e batalhar por isso”, diz.
A atleta tem uma parceria com a prefeitura de sua cidade. Treina crianças das escolas da rede municipal gratuitamente “Eu dou aula como voluntária sempre que posso e sou madrinha deste projeto. Eles pagam meu treinador por isso, o que nos ajuda nas viagens. Eu tenho certeza que esse status de atleta olímpica vai ajudar, sim, a convencer os pais a não tirarem as crianças do projeto", espera Iris. A lutadora não quer ver jovens talentos desestimulados dentro de casa. “Eu sofri muito com isso e tento passar para os pais das crianças que conheço para sempre apoiar seus filhos, seja no que for, contanto que seja para algo do bem”, reflete.
Sobre a mãe, o discurso está menos amargurado do que no Mundial e no Pan, quando nas entrevistas fazia questão de recordar os vários momentos de falta de apoio em casa. Diz que ainda não sabe se ela terá alguma reação em relação à sua participação nos Jogos Olímpicos. “Ela acha que não fez nada de mais por não me apoiar quando mais nova e nem se arrepende de nada, pois pensa que estava querendo o melhor para mim”, observa Iris. “Eu a entendo, pois não é uma pessoa com muita cultura e foi criada na roça, sem nenhum estudo, e isso acabou fazendo com que pensasse que eu tinha que trabalhar quando adolescente, apesar de não precisar, pois meu pai era aposentado e meus avós (por parte de pai) e minha tia (irmã do meu pai) sempre nos ajudaram com tudo".
Para os Jogos ela prefere se apegar à lembrança do pai, que morreu há dois anos. "Meu sonho era estar lutando em casa com ele assistindo os Jogos. Vou realizar o sonho, mas infelizmente ele não vai me ver lutar, pois ele se foi... mas vou brigar muito por essa medalha e será com certeza em homenagem a ele." Ela acredita que ele previu seu destino.
Iris ainda não planejou o trabalho até os Jogos Rio 2016. “Vou tirar duas semanas de férias e depois vou começar os trabalhos. Meu treinador nesse tempo vai organizar tudo para termos o melhor resultado possível. Até agora cumprimos todas as metas e espero que consiga cumprir ano que vem também". Certa é a mudança em breve para uma casinha, construída estrategicamente próxima à do técnico. Aos 25 anos, quer continuar treinando no quintal que a fez vitoriosa.
Com o fim da temporada e a definição do ranking Olímpico de 2015, a WTF anunciou os primeiros classificados para os Jogos.
Feminino:
Até 49kg: Brasil, China, Croácia, França, Tailândia, e República da Coreia.
Até 57kg: Grã-Bretanha, Espanha, Egito, Japão, Taipé Chinesa e Croácia
Até 67kg: França, Suécia, Taipé Chinesa, República da Coreia, Rússia e Turquia
Acima de 67kg: China, Sérvia, Grã-Bretanha, França, Estados Unidos e México
Masculino:
Até 58kg: República da Coreia, Irã, Portugal, Alemanha, México e Bélgica
Até 68kg: República da Coreia, Rússia, Bélgica, México, Turquia e Espanha
Até 80kg: Irã, Moldávia, Grã-Bretanha, Rússia, Alemanha e Costa do Marfim
Acima 80kg: Uzbequistão, Azerbaijão, Irã, Gabão, França, e República da Coreia.