Gastronomia, música, literatura: é a cultura nordestina ao alcance do público nos Jogos Rio 2016
Da Feira de São Cristóvão às ladeiras da Rocinha, turistas podem apreciar tradições da região Nordeste nos quatro cantos do Rio de Janeiro
Da Feira de São Cristóvão às ladeiras da Rocinha, turistas podem apreciar tradições da região Nordeste nos quatro cantos do Rio de Janeiro
Bonecos em exposição na Feira de São Cristóvão (Rio 2016/Saulo Pereira Guimarães)
A tocha Olímpica está no Nordeste até o próximo dia 14 de junho. Com aproximadamente 45 milhões de habitantes, a região tem representantes espalhados por todo Brasil, muitos deles no Rio de Janeiro. Por isso, quem assistir aos Jogos Olímpicos e Paralímpicos pode conhecer um pouquinho da cultura nordestina sem se afastar muito das arenas de competição.
O acendimento não de uma tocha, mas de uma fogueira, abre o São João no Centro Municipal Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, na próxima sexta-feira (3). Do começo de junho até o fim de agosto, mais de 500 grupos de quadrilha se apresentam no local, popularmente conhecido como Feira de São Cristóvão. Outra atração, trazida diretamente do Nordeste, é uma maquete com mais de 100 bonecos em movimento representando uma festa junina.
Feira de São Cristóvão recebe mais de 500 grupos de quadrilha (Rio 2016/Saulo Pereira Guimarães)
Helismar Leite, presidente da Feira de São Cristóvão
Com público mensal de 300 mil pessoas, a feira é hoje o espaço cultural que recebe o maior número de visitantes na cidade do Rio de Janeiro. Nascido em Pentecoste, no Ceará, Helismar Pereira vive há 25 no Rio e dispensa a modéstia na hora de falar de seu local de trabalho. “Aqui temos a melhor comida, a melhor bebida e a maior segurança para o turista”, diz ele. E o melhor: a Feira de São Cristóvão fica a apenas quatro quilômetros do Maracanã, que receberá partidas decisivas do futebol durante os Jogos Olímpicos.
Escultura de Luiz Gonzaga no Centro de Tradições Nordestinas (Rio 2016/Saulo Pereira Guimarães)
O chamado bairro imperial não é o único a contar com centros de cultura nordestina. Há 28 anos, Gonçalo Ferreira da Silva abriga a sede da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC) na garagem de sua casa, em Santa Teresa. A sete quilômetros da Marina da Glória, onde acontecerão as provas de vela, o local reúne mais de 10 máquinas de escrever das décadas de 1940 e 1950 e 13 mil cordéis disponíveis para consulta. "É uma das maiores coleções do gênero no mundo", afirma Gonçalo, fundador e presidente da ABLC.
Tocha Olímpica chega a Pernambuco no clima das festas de São João
O poeta de 79 anos nasceu na cidade cearense de Ipu, mas vive no Rio há 65 anos. Ele lembra que não é qualquer texto que pode fazer parte da literatura de cordel. "A rima dá a harmonia, e a métrica dá o ritmo excepcional. Não pode rimar José com mulher, por exemplo", explica. Trazidos para o Brasil pelos portugueses, os cordéis se difundiram a partir de Salvador e se tornaram uma das marcas do Nordeste. O registro mais antigo de uma obra do gênero é de 1899. Cego Aderaldo (1878-1967) e Patativa do Assaré (1909-2002) foram mestres no tema.
Folhetos de Cordel na Feira de São Cristóvão (Saulo Pereira Guimarães/Rio 2016)
Quem estiver na Zona Sul também poderá apreciar a cultura nordestina sem fazer muito esforço. A cinco quilômetros do Estádio da Lagoa, que receberá as provas de remo e canoagem, fica a Rocinha. Uma das maiores favelas da cidade, recebeu um grande número de migrantes do Nordeste no passado e oferece hoje vários restaurantes com a gastronomia típica da região. O morador Antônio Lima, de 49 anos de idade e há mais de 20 no Rio, trabalha num deles e aguarda a chegada dos visitantes. “Temos muita coisa boa para mostrar aos turistas e atletas", diz ele, que nasceu em São Benedito, no Ceará, e todo ano volta à cidade natal.