França, o país do... ciclismo
Líder em medalhas Olímpicas no esporte também tem na paixão pela bicicleta um importante traço da cultura nacional
Líder em medalhas Olímpicas no esporte também tem na paixão pela bicicleta um importante traço da cultura nacional
Brigitte Bardot, com sua bicicleta azul, em cena do filme "E Deus criou a mulher", de 1956 (Reprodução)
Texto: Denise Mirás
A participação da atriz Brigitte Bardot com uma bicicleta azul no filme E Deus criou a mulher, de 1956, de Roger Vadim (1928-2000), é mais que emblemática. A bicicleta azul também é título do livro em que a escritora Régine Desforges (1935-2014) satiriza a sociedade francesa na Segunda Guerra Mundial. Não por acaso, o cantor Yves Montand (1921-1991), outro ícone do país, tem "La bicyclette" (de Francis Lai, com letra de Pierre Barouh) entre suas canções de maior sucesso.
Essas são apenas algumas das peças que se encaixam em uma imensa paixão francesa. O país domina as competições Olímpicas no ciclismo - até hoje, foram 90 medalhas no esporte - e todos os anos literalmente para a fim de acompanhar a tradicionalíssima Volta da França.
Vem de país a invenção do “cavalinho-de-pau”, precursor da bicicleta (dava a maior canseira, porque não tinha pedais), que teria surgido em 1818, em Paris. Já com pedais (ufa!), o meio de transporte apareceu na Alemanha, em 1817. Mas foram os franceses que o batizaram de bicicleta e iniciaram sua popularização por volta de 1860.
Conheça nosso infográfico sobre ciclismo de estrada
Corridas de bicicleta como esporte foram organizadas a partir de 1868 – o britânico James Moore foi o ganhador da prova de 1.200 metros, realizada em 31 de maio, no Parc de Saint-Cloud, em Paris. O primeiro Mundial de Pista foi disputado em Chicago (Estados Unidos), em 1893, após a fundação da Associação Internacional de Ciclismo, em 1892. O ciclismo também entrou no programa dos primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna, em Atenas 1896.
A era das grandes “voltas” por países europeus também começou pela França. Em 1892, foi realizada uma disputa entre Liège e Bastogne, com retorno a Liège. Quatro anos depois, surgia a Paris-Roubaix.
Logo depois da virada para o século 20, uma primeira edição da Volta da França é organizada em 1903.

Dois anos depois a Itália promove a prova Milão-San Remo e a Volta da Lombardia. A Volta da Itália começou na sequência, em 1909. A da Espanha, uma das mais valorizadas nos dias de hoje, começou um pouco mais tarde, em 1935.
Mas a mais tradicional corrida de longo percurso é, sem dúvida, a Volta da França, com chegada sempre em Paris. Só não foi disputada durante as duas Guerras Mundiais. A primeira edição, em 1903, seria de 31 de maio a 5 de julho, saindo de Paris para Lyon, Marselha, Bordéus e Nantes – depois Toulouse foi acrescentada no trajeto – com retorno a Paris. As etapas durariam noites inteiras, com dias de descanso intervalados. Pela dificuldade e também pelos custos, se inscreveram apenas 15 ciclistas.
Foi preciso mudar: a disputa passou a ser de 1º a 19 de julho, e os ciclistas, que dormiam ao lado da estrada, teriam ajuda de custo para um mínimo de 20 quilômetros diários percorridos. Sessenta se inscreveram. Maurice Garin ganhou. Na edição seguinte, em 1904, alguns ciclistas foram desclassificados por pegar carona em um trem.

Com o tempo, o formato e as regras da Volta da França foram sofrendo alterações.
A partir de 1919, o corredor em primeiro lugar na classificação individual passou a usar uma camiseta amarela (referência à cor das páginas do L’Auto-Journal, publicação fundamental para a criação da prova).
O primeiro ciclista a usar a amarelinha foi Eugène Christophe, que terminou aquela edição em terceiro lugar.
Há outras camisetas especiais na Volta da França. A de bolinhas vermelhas é usada pelo corredor com mais pontos a cada topo de montanha. A camiseta verde vai para aquele que tem mais pontos nas arrancadas para as melhores colocações a cada etapa. Há ainda uma camiseta branca, equivalente à amarela, mas para os atletas mais jovens, com no máximo 25 anos.
Já houve casos de ciclistas que usaram as camisetas branca e amarela na mesma edição da Volta da França: o francês Laurent Fignon, em 1983; o alemão Jan Ulrich, em 1997; o espanhol Alberto Contador, que acabou vencendo a prova, em 2007; e o luxemburguês Andy Schleck, em 2010.

Dos nomes mais conhecidos da Volta da França, o espanhol Miguel Induráin venceu cinco edições seguidas, de 1991 a 1995. O belga Eddy Merckx só perdeu em 1973, entre 1969 e 1974.
Dos franceses, Jacques Anquetil ganhou em 1957 e voltou a vencer quatro vezes seguidas, de 1961 a 1964. Entre 1978 e 1985, o domínio foi de Bernard Hinault, que venceu a Volta da França em 1978, 1979, 1981, 1982 e 1985. Também sagrou-se campeão nesse período da Volta da Itália em 1980, 1982 e 1985, e da Volta da Espanha em 1978 e 1983. Hinault é um dos seis ciclistas que venceram as três grandes voltas europeias. Em Campeonatos Mundiais, levou o ouro da prova de estrada em Salanches 1980 e o bronze em Praga 1981.
Vale lembrar que o norte-americano Lance Armstrong foi excluído da lista de destaques da Volta da França pelo maior escândalo de doping que o ciclismo já conheceu.
Nos Jogos Olímpicos, onde há provas de pista (em velódromos), além das provas de estrada e, mais recentemente, de mountain bike e BMX, o domínio de medalhas também é francês. São 90 medalhas na soma geral, com 41 ouros, 27 pratas e 22 bronzes, bem mais que a segunda colocada Itália, com total de 59 (32 ouros, 17 pratas e 10 bronzes).
Mas a paixão francesa pelas bicicletas não se restringe às competições esportivas. Paris, por exemplo, tem seu programa Vélib’ (palavra que junta veló e liberté - bicicleta e liberdade, em francês) desde 2007, para que a população utilize ainda mais esse meio de transporte. Em 2015 a iniciativa já contabilizava 1.230 estações, com perto de 100 mil usuários por dia.