Filhos heróis
É preciso ter coração forte para ser pai e mãe de atleta nos Jogos Rio 2016
É preciso ter coração forte para ser pai e mãe de atleta nos Jogos Rio 2016
Bruno Schmidt comemora o ouro no vôlei de praia com o pai, Luiz Felipe, seu principal incentivador (Foto: FIVB)
Na Lagoa Rodrigo de Freitas, os olhares de boa parte da torcida estavam voltados para a raia cinco, do brasileiro Isaquias Queiroz. Ele disputava a final da canoa individual 200m. Mas provavelmente ninguém estava mais ansioso que dona Dilma, 53, mãe do canoísta. Quando a prova acabou e Isaquias se jogou na água, chateado por não ter ficado com o ouro, ela juntou as mãos em sinal de preocupação. "Cadê meu filho?", perguntava, em um vídeo feito pelo canal Sportv. Depois que a medalha de bronze foi confirmada, ela se ajoelhou e ergueu as mesmas mãos ao céu para agradecer. "Pensei que ele tinha morrido" disse, caindo no choro em seguida.
A reação de dona Dilma é um exemplo dos sentimentos que pais e mães de atletas vivem durante os Jogos Olímpicos. Se o torcedor sofre, imagine a família! O pai da judoca Rafaela Silva, Luiz Carlos, ficou tão nervoso que preferiu não ver os primeiros combates. Mas mostrou que é pé quente na semifinal e na final, sentado ao lado da mulher Zenilda e da sobrinha de Rafaela, Ana Carolina. "Não é porque é minha filha, mas ela merece muito. Uma pessoa do bem, humilde, uma guerreira única. Uma guerreira de ouro", vibrou a mãe. Rafaela dedicou a medalha ao pai, que não deixou que a filha desistisse do esporte. "90% dessa medalha é dele".
A família de Rafaela Silva na torcida pela atleta (Foto: Rio 2016/André Naddeo)
A mãe do nadador brasileiro Thiago Pereira encontrou uma forma de extravasar o nervosismo. Durante o Pan 2007, também no Rio, os gritos de "Vai, Thiago" ecoaram no Parque Aquático Maria Lenk e deixaram Rose Vilela famosa no país inteiro. Nos Jogos Rio 2016, ela foi a comandante da torcida organizada pelo filho, que terminou em 7º lugar na final dos 200m medley.
Não é raro encontrar pais e mães que roubam a cena nas arquibacanadas. O vídeo que mostra a família da ginasta americana Aly Raisman já foi visto por milhares de pessoas na internet. Lynn e Rick se contorcem durante a apresentação da filha, como se estivessem competindo com ela.
Martine Grael, filha do medalhista Olímpico Torben Grael e da também ex-velejadora Andrea Grael, já participava de competições na barriga da mãe. Quando Andrea fez uma regata de Santos para o Rio, em 1990, grávida de sete meses, não imaginou que 26 anos depois, veria a filha ganhar o ouro Olímpico, ao lado de Kahena Kunze. A acirradíssima chegada da última regata da classe 49er FX foi um teste para o coração. "Ela sempre deixou tudo para o finalzinho", revelou a mãe, ao canal Sportv. "Para mim, vê-la ganhar é muito mais emocionante do que as minhas conquistas", disse o pai Torben.
Festa na chegada de Martine e Kahena (Foto: Rio 2016/Valeria Zukeran)
Mas, e quando a medalha não vem? Depois de ser eliminada pela China, a bicampeã Olímpica de vôlei Jaqueline correu para abraçar Josiane Costa, e recebeu o consolo da mãe: "Seja forte, minha filha. Não é fácil ser invencível. Tenho muito orgulho de você".
Josiane consola Jaqueline (Foto: Getty Images/David Ramos)
Para alguns atletas, a presença dos pais nas situações mais difíceis é fundamental. "Quando ele não me liga, é bom sinal", diz Luiz Felipe, pai de Bruno Schmidt, campeão Olímpico de vôlei de praia no Jogos Rio 2016. Luiz Felipe conta que o filho sempre procura a família quando precisa de apoio. A luta pela classificação para os Jogos foi um desses momentos complicados. "Ele e o Alison estavam muito mal no ranking depois das quatro primeiras etapas do Circuito Mundial, que valiam ponto para a corrida Olímpica. O Bruno me ligou desesperado dos Estados Unidos perguntando o que deveria fazer. Por isso, nós fomos apoiá-los no Mundial, que foi realizado logo depois. Eles acabaram campeões. Também estivemos na etapa seguinte do circuito, na Suíça, que eles também venceram. E, partir daí, a dupla embalou", lembra Luiz Felipe.
Luiz e Bruno, na comemoração do título mundial de 2015
Durante os Jogos Rio 2016, Luiz Felipe precisou usar calmantes nos dias das partidas do filho. Supersticioso, ele não comprou ingressos antecipadamente. Só pensava no assunto quando a classificação para cada fase estava garantida. Depois do histórico ouro, conquistado em Copacabana, Bruno reconheceu o apoio que recebeu: "Pai, obrigado. Eu quase parei de jogar três vezes. Só estou aqui por sua causa", disse, em entrevista à TV Globo.
Bruno abraça o pai depois do ouro nos Jogos Rio 2016 (Foto: FIVB)
Os Jogos Rio 2016 mostram que ser pai e mãe de atleta é padecer – e comemorar – no paraíso.
Colaborou Adriana Maximiliano