Evento-teste de marcha atlética no Pontal vale como ensaio para a torcida carioca
Neste fim de semana, atletas de 7 países encaram provas duríssimas em circuito montado na orla imortalizada por Tim Maia
Neste fim de semana, atletas de 7 países encaram provas duríssimas em circuito montado na orla imortalizada por Tim Maia
A marcha de 50km é uma prova que exige altíssima resistência dos atletas (Getty Images/Alexander Hassenstein)
Texto: Denise Mirás
A Praia do Pontal, no Recreio dos Bandeirantes, recebe neste fim de semana a Copa Brasil de Marcha, uma das modalidades mais desgastantes e impressionantes do atletismo, e o público poderá acompanhar, de graça, brasileiros e estrangeiros na prova "do rebolado" - e reparar como é muito mais difícil do que a corrida. No sábado (27), com largada às 6h30, serão várias faixas etárias largando para 20km. No domingo (28), também a partir das 6h30, serão os 50km (só para homens), valendo como Campeonato Sul-Americano e também como evento-teste para os Jogos Olímpicos Rio 2016. O percurso montado é de dois quilômetros de asfalto, com largada/chegada na Praça Tim Maia. Parafraseando o sucesso do cantor (1942-1998) popular, "Do Leme ao Pontal", eles irão do Pontal ao... Pontal.
Marchar é andar em ritmo acelerado e exige técnica muito precisa, porque o atleta não pode ficar “no ar”. Por regra, é preciso que o marchador esteja sempre tocando o chão com um dos pés, assentando o calcanhar primeiro a cada passo e estendendo a perna de apoio em certo momento do ciclo. Daí o “gingado”, que exige muito mais esforço do que a corrida, dando a impressão de que os marchadores estão flutuando no asfalto, por horas e horas, vigiados por árbitros por todo o percurso e pelo tempo todo. Três advertências para o atleta resultam em desclassificação.
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Assista ao vídeo da prova masculina de 20km em Londres 2012
Essencial para os marchadores, a reidratação ao longo da prova precisa ser muito bem planejada. Há perigo de hiponatremia, queda extrema da taxa de sódio, o que pode causar sequelas neurológicas graves e até matar, segundo o fisiologista Turíbio Leite de Barros Neto. Outro risco é hipertemia, elevação acentuada da temperatura corporal, que pode afetar funções do cérebro. Além disso, a marcha requer resistência também no aspecto psicológico.

Nos Jogos Olímpicos Rio 2016 haverá três provas de marcha atlética - em 12 de agosto, os 20km para homens, e em 19 de agosto, os 20km para mulheres e os 50km para homens. Para assistir a esses eventos, não será necessário comprar ingresso, bastam acompanhar o percurso pelas ruas. No evento-teste deste fim de semana, a torcida pode ir se familiarizando com a modalidade, que não é tão conhecida popularmente.
"Ter a marcha no Pontal é muito bacana. O público da praia vai aparecer para espiar"
Martinho Nobre, gerente de Atletismo
Prova histórica
Se as inscrições para os 50km se confirmarem, será um marco para o atletismo brasileiro. Até hoje, no máximo 13 atletas participaram de uma prova dessas no país (foi nos Jogos Pan-Americanos do Rio 2007). Desta vez, a expectativa é pelo recorde de competidores, com pelo menos 15 largando, na conta do gerente de atletismo do Comitê Rio 2016, Martinho Nobre.
Além dos quatro da seleção brasileira, vêm atletas de Colômbia (dois), Equador (quatro), Peru (um) e Venezuela (um). Participam como convidados, para reconhecimento do percurso Olímpico, mais um atleta do Congo e dois da China.
Os brasileiros inscritos e seus respectivos clubes são Rudney Dias Nogueira (USIPA-MG), Luiz Felipe dos Santos (ASSEM-SP), Samir Cesar Sabadin (Curitiba SMELJ-PR) e Cláudio Richardson dos Santos (AABB Currais Novos-RN). O técnico será Judson José de Lima (RN).
Martinho Nobre diz que, quanto à logística, ter a marcha na rua, em circuito cercado, "até ajuda" na organização. "O público pode chegar e já ter uma ideia de como será nos Jogos Olímpicos. E, como é de graça, não vamos precisar nem de área nem de pessoal para ficar recebendo ingressos."
Confira no mapa de instalações Olímpicas onde serão realizadas as competições de cada esporte
Tentativas na Europa
Cláudio dos Santos, 38 anos, que compete desde 1997 e tem dez títulos da Copa Brasil, segue tentando índice (4h06min) para os Jogos Olímpicos Rio 2016, mas em uma prova em Dudince, na Eslováquia, em 19 de março. No Rio de Janeiro é muito mais difícil chegar às 4h06min do índice, porque a cidade é ao nível do mar, o calor pode chegar a 40 graus e há alto grau de umidade.
Para os marchadores dos 50km de domingo, o tempo obtido não é o principal, mas o reconhecimento do local e da cidade onde vão enfrentar a prova Olímpica, marcada para 19 de agosto.
Há outros brasileiros treinando fora do país (na altitude) para tentar índice Olímpico até 8 de maio (como Jonathan Rieckmann) ou melhorar marcas (como Mário José dos Santos Júnior e Moacir Zimmermann), em provas na Europa. Treinar na altitude faz o organismo produzir mais glóbulos vermelhos, o que melhora a oxigenação do sangue (e, portanto, a resistência).
Asfalto novo
No evento-teste serão várias as áreas funcionais a ser avaliadas, segundo Paulo Funke, gerente de competição: centro de operações, local de competição, logística (colocação de grades e cones na demarcação do percurso, por exemplo), tecnologia (basicamente a questão de cronometragem e de resultados) e segurança.
“Um dia para os testes é suficiente. Escolhemos aquele da prova mais longa. Vamos conferir principalmente o asfalto"
Paulo Funke, gerente de competição do atletismo do Rio 2016