Equador domina evento-teste da marcha atlética com três atletas no pódio
Com piso e percurso aprovados, marchadores sofreram com o calor: de 18, só sete completaram a prova
Com piso e percurso aprovados, marchadores sofreram com o calor: de 18, só sete completaram a prova
A prova de 50km de marcha atlética terá 50km nos Jogos Olímpicos (Alexandre Vidal/Rio 2016)
Com 30 graus na largada, ainda às 6h30, apenas sete dos 18 atletas inscritos para os 50km da Copa Brasil de Marcha, valendo como Campeonato Sul-Americano, terminaram a prova disputada na praia do Pontal, no Rio de Janeiro. E mesmo os equatorianos, marchadores tradicionais e acostumados ao calor, não esperavam tanto, como afirmou o vencedor Claudio Villanueva Flores, que fez a marca de 4h23min37. Para o Comitê Rio 2016, que tratou a competição como evento-teste para os Jogos Olímpicos, piso e percurso foram aprovados, assim como a tecnologia de cronometragem – os pontos principais para avaliação.
Para os atletas, de modo geral, o piso de asfalto novo, recapeado, e o circuito, plano e com apenas duas curvas no circuito fechado de dois quilômetros, é excelente porque permite uma prova rápida. O calor foi determinante para as desistências. Como resumiu o campeão Flores: “O piso está muito bem; a temperatura é que é demasiada”.
Claudio Flores (à direita) foi o vencedor da prova de 50km e sofreu muito com o calor (Foto: Alexandre Vidal/Rio 2016)
Em segundo e terceiro lugares chegaram Rolando Saquipay, com 4h34min09 e Jonnathan Cáceres Cabrera, com 4h46min21, ambos do Equador também. O único brasileiro que seguia na prova, Samir Sabadin, desmaiou no quilômetro 41, foi para a ambulância, tentou voltar, mas não conseguiu.
Para os Jogos Olímpicos, quando a marcha terá a prova de 20km em 12 de agosto e a de 50km no dia 19, a previsão é de temperatura mais amena - será inverno no Rio. Ainda assim, a largada dos 50km está confirmada para 8h30 e a dos 20km, para 14h30, segundo Luis Saladie, o delegado-técnico da IAAF (Associação Internacional das Federações de Atletismo).
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O evento-teste recebeu a aprovação de Saladie, que comentou: “Da organização, teremos de fazer alguns ajustes, mas tudo dentro do normal. É evento-teste para isso. Nos Jogos Olímpicos, a infraestrutura terá de ser maior, porque teremos TV. E a circulação também será mais restrita”.
O espanhol, que será o árbitro-geral no Rio 2016, elogiou o piso. “Ficou muito bom. As obras acabaram e ficou perfeito. O circuito terá de ser uma pouco mais largo, claro, porque aqui tivemos menos do que 20 competidores. Nos Jogos serão 60 e é mais complicado. Agora, a paisagem é belíssima. Para mim, será a marcha Olímpica mais bonita desde que participo dos Jogos, começando por Barcelona 1992”, avaliou Saladie.
A beleza do percurso no Pontal foi muito elogiada pelo delegado da Federação Internacional (Foto: Alex Ferro/Rio 2016)
Gerente de atletismo do Rio 2016, Martinho Nobre disse que o “buraco” a que uma atleta se referiu no sábado ficava fora do traçado e só foi percebido por ela ter feito uma curva mais aberta – mas ainda assim o trecho será nivelado.
“Do que nos propusemos a fazer, foi um sucesso. O percurso, que já havia sido aprovado pela IAAF, precisava passar por uma prova e o mais importante é que foi aprovado também pelos atletas, que o consideraram excelente e rápido. Não tivemos grandes resultados agora por causa do calor. Quem completou a prova já teve uma vitória. E, da parte da tecnologia com dispositivos eletrônicos para cronometragem, tudo funcionou perfeitamente”, comentou Nobre.
No caminho para a praia, Nelson Aguilar, com a filha Melissa, de nove anos, parou para ver a competição, como vários outros curiosos. E observou: “Devem trabalhar muito a mente, para continuar e continuar.... Não pode ser ansioso, né? E deve passar muita coisa na cabeça, como se estivessem em um divã particular. De onde será que tiram inspiração para começar em um esporte assim? Ser primeiro, segundo, terceiro é outra coisa. Porque vitoriosos já são. Na verdade, são heróis”.
O brasileiro Cláudio dos Santos, de Currais Novos (RN), que parou no quilômetro 22, responde: "A gente pensa em tudo, mesmo. Em parar, em continuar. É tanta coisa. Dependendo de como você está, dá até vontade de chorar. Dói o corpo todo, principalmente nesta área (mostra a região do estômago de lado a lado)".
O brasileiro Cláudio dos Santos diz que o corpo todo dói durante a prova (Foto: Alex Ferro/Rio 2016)
O vencedor, o equatoriano Flores, que como a maioria dos marchadores do país treina em Cuenca, a 2.500m de altitude, diz que durante a prova de 50km pensa na fam[ilia. “Revejo momento com minha mãe, minha mulher, meu filho, também Cláudio, que está com dez meses. Eles me motivam, me fazem ir adiante”.
Caio Bonfim, que participou da prova de 20km e esteve acompanhando a dos 50km, trava uma luta mental com ele mesmo: “É preciso muita concentração no movimento, mas às vezes parece que não vai dar, a gente fica no automático. Aí, fica aqui: hoje eu vou me vencer; hoje eu vou completar. No fim da prova, o cansaço mental é tão grande que a gente nem quer mais lembrar de como foi”.
Vários dos marchadores brasileiros irão para Dudince, na Eslováquia, para tentar índices Olímpicos, ou ainda melhorar sua marca, em 19 de março. Mário José dos Santos Júnior e Caio Bonfim são os únicos que já têm o índice de 4h06. Cláudio dos Santos ainda precisa fazer. Mas há chance até 8 de maio, na Copa do Mundo por Equipes de Marcha, em Roma, e irão aos Jogos Rio 2016 os três com as melhores marcas até lá.
Caio Bonfim – que foi sexto nos 20km do Mundial de Pequim 2015 – diz que, além da alta temperatura, a alta umidade do ar também ajuda a dificultar a vida dos marchadores. Assim, o garoto de Brasília, que treina mais com baixa umidade, está pensando em fazer as duas provas no Rio e em chegar pelo menos um mês antes dos Jogos Olímpicos. Para a aclimatação do corpo, mas também pela parte psicológica. “Nos 50km, com tempo seco, você `grelha`; com umidade, você cozinha. É muito sofrido", afirma Bonfim.