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Um mundo novo

Engenhão se curva ao mestre jamaicano

Por André Naddeo

Usain Bolt pode até não ganhar as mesmas medalhas do nadador Phelps, mas já é o campeão de poder e carisma dos Jogos Rio 2016

Engenhão se curva ao mestre jamaicano

Torcida lota o Estádio Olímpico do Engenhão para ver Bolt nas eliminatórias do atletismo (Getty Images/Cameron Spencer)

Central do Brasil, trem lotado para o Engenho de Dentro, o bairro pacato da Zona Norte do Rio de Janeiro onde fica o Estádio Olímpico. No meio do último vagão do trem expresso, um garotinho, mesmo espremido entre outros torcedores, ergue os braços e finge atirar uma flecha no ar, gesto que o homem mais rápido do mundo costuma fazer ao comemorar suas vitórias. Eufórica, a mãe do garoto tira uma foto. Aquele foi um primeiro indício de que o sábado (13), segundo dia do atletismo nos Jogos Rio 2016, prometia ser inteiramente dele, o jamaicano Usain Bolt. 

“Nem sei mais o que tem hoje, só sei que ele vai estrear, e por isso que viemos”, disse Gabriela Jesus, ao lado do marido, Washington Novaes, e do filho, Paulo, o garotinho da “flecha Bolt”.

A família de Paulo e outras milhares de pessoas foram ao Engenhão, como o Estádio Olímpico é conhecido, na manhã deste sábado para ver Bolt iniciar a tentativa de um feito inédito na história do atletismo Olímpico. Nunca ninguém foi tricampeão das três provas mais nobres: 100m e 200m rasos e revezamento 4x100m.  

Muitos levaram binóculos, um acessório até então inóspito para um público tão acostumado ao futebol. “Tem que ver bem de perto, né? Deve ser muito rápido, estou até com medo de ir ao banheiro e perder”, confessou o empresário Rodolfo Lopes, que levou a mulher, Gabriela, e os filhos Marina e Caio ao Engenhão. “O atletismo é a essência dos Jogos e queria que meus filhos tivessem essa experiência. Ainda mais com o Bolt na pista”, acrescentou. 

Quando as baterias dos 100m rasos recomeçaram, por volta do meia-dia, o Estádio Olímpico já estava lotado e em polvorosa. Justin Gatlin, americano que pode desbancar Bolt, voou para fazer o tempo de 10s01, o melhor do dia. Mas o rebuliço mesmo foi quando o telão mostrou o jamaicano no trabalho de aquecimento. Mestre da situação, ele acenou ao público e levou a torcida ao delírio. 

Pedido de silêncio: o astro faz o sinal, e o público obedece (Foto: Getty Images/Paul Gilham)

O domínio do jamaicano sobre o público é tão grande que, bastou ele botar o dedo em riste na boca pedindo silêncio momentos antes do início da prova, com direito a close de sua imagem no telão, e todo o estádio emudeceu. Os 10s07 percorridos lhe garantiram uma vaga na semifinal e o quarto melhor tempo da prova. A grande final, na noite de domingo, promete ser um dos grandes momentos dos Jogos Rio 2016. 

Após a prova, como um reles mortal, Bolt esperava um ônibus reservado aos atletas para voltar à Vila Olímpica. Ele não teve privilégios. Esperou por cerca de 20 minutos, acenando para todos que chamavam seu nome. Gente como a gente, ele finalmente entrou no ônibus e foi descansar. A noite de domingo promete, e como promete. 

Vitória na bateria, vaga na semi assegurada: que chegue logo domingo. (Foto: Getty Images/Paul Gilham)