É fogo: fascínio pela chama existe desde a Antiguidade
Simbologia faz parte da mitologia, das artes e do misticismo
Simbologia faz parte da mitologia, das artes e do misticismo
Rio2016/Andre Luiz Mello
Depois de uma semana no Brasil, a chama Olímpica continua arrastando multidões ao atravessar cidades com malabarismos por terra, água e ar – já teve gente que conduziu a tocha em uma descida de rapel ou dentro de um balão nas alturas. Por onde passa, o maior símbolo dos Jogos provoca fascínio e desperta admiração.
O deslumbramento diante do fogo é tão antigo quanto a própria humanidade – desde a época das cavernas, ele protege, aquece e ajuda a alimentar. Na Antiguidade, os gregos o consideravam um elemento divino e mantinham chamas acesas em frente a seus principais templos. Um deles, o santuário de Olímpia, foi palco dos Jogos originais. Para assegurar sua pureza, as chamas eram acesas por meio de uma “skaphia”, espécie de espelho côncavo que converge os raios do sol para um ponto específico.
Foto: Rio2016/Andre Mourao
Atualmente, sem o peso dos deuses, o fogo ainda inspira atletas, artistas e místicos, mas com uma simbologia tão maleável quanto suas chamas dançantes. “Os rituais e signos de ontem não são usados hoje de forma consciente, mas transmitem uma sensação de familiaridade. Existe uma memória coletiva, algo humano que precisamos sempre resgatar”, diz o antropólogo Jorge Claudio Ribeiro, professor de ciência da religião da PUC-SP. “E ficar vendo um fogo, uma lareira, é muito mais legal do que ver televisão. A tevê é uma avacalhação da fogueira primordial”, brinca.
Além de trazer uma trégua temporária nas guerras, a pira Olímpica servia como alegoria para o próprio esforço do atleta. “O fogo precisa ser conservado, ou se apaga. Traz um pouco a ideia de mortalidade, da nossa fragilidade”, afirma Ribeiro. “É como nossa condição humana: se a gente não se esforçar, tanto no esporte quanto no resto, a chama apaga”. O professor lembra do mito grego de Prometeu, que roubou o fogo dos deuses para dar aos mortais e acabou punido por Zeus, amarrado a uma rocha enquanto um pássaro comia seu fígado, regenerado todos os dias para que pudesse ser devorado novamente.
Pedaço do sol
As referências culturais se multiplicam, com simbologias diversas. No cinema, o fogo é força destruidora, como no incêndio planejado num cinema para matar nazistas em Bastardos inglórios (2009), ou de esperança, a exemplo da passagem em que o personagem de Tom Hanks, perdido numa ilha, consegue fazer uma fogueira com o atrito de gravetos em Náufrago (2000).
Na música brasileira, a chama avança além das incontáveis letras de canções para tomar o palco numa espécie de ritual que virou a assinatura do cantor e compositor José Paes de Lira quando ele liderava o grupo Cordel do Fogo Encantado, antes de abraçar a carreira solo. O artista entrava em cena segurando um candeeiro, recipiente feito de lata, querosene e pavio de algodão, e ficava o show inteiro manipulando as labaredas. “A arte é uma alquimia e o fogo é o principal elemento dos alquimistas”, diz. Ele conta que o candeeiro era muito comum no interior do Nordeste, onde nasceu, como principal fonte de iluminação antes da chegada da luz elétrica. “No sertão, o fogo é um pedaço do sol, mágico e encantado. Lá, as fogueiras e festas estão ligadas ao movimento do sol.”
Durante os Jogos Olímpicos, Lira quer acompanhar o atletismo, pois é fã do recordista jamaicano Usain Bolt. O medalhista virou até mesmo “muso” de uma canção, Memória, incluída no primeiro disco solo, de 2011, e que traz o verso “Como uma flecha nas mãos de Bolt”.
José Paes de Lira em show do Cordel do Fogo Encantado (Foto: Divulgação)
Nas cartas de tarô
Entre os místicos, o fogo carrega simbolismos ao lado dos elementos água, terra e ar. A astróloga Adriana Kastrup, autora do livro A vida pelo tarot (editora Rocco), explica que as 14 cartas com naipe de paus são regidas pelo fogo e representam uma energia transformadora, algo bastante conveniente para atletas Olímpicos. “Ele dá a força para lidar com os fatos do dia a dia, convertendo as ideias e possibilidades em feitos”, acredita.
A melhor carta, segundo ela, é o ás de paus, que traz muito sucesso. Mas nem tudo que é fogo brilha no tarô. “O dez de paus exprime o oposto, o fracasso. É uma carta que fala de opressão.” Ao jogar o baralho para ver como serão os Jogos Olímpicos, Kastrup não viu nenhum dez de paus. “Na Copa do Mundo, cismei que seria um mico e foi. Para o Rio 2016, vi um resultado positivo, com superação de atletas e mais medalhas do que o esperado.”

Cartas do ás de paus no tarô