Atletas refugiados: Abdoulaye Kaba, da Guiné para o revezamento da tocha Olímpica
Jogador de futebol da segunda divisão do Campeonato Carioca Sub-20 sonha com carreira cheia de gols importantes
Jogador de futebol da segunda divisão do Campeonato Carioca Sub-20 sonha com carreira cheia de gols importantes
Abdou faz parte do Time Olímpico de Refugiados, que compete no Rio 2016 sob a bandeira do COI (Foto: Rio 2016/André Naddeo)
No campo de futebol do São Gonçalense, clube da segunda divisão do Campeonato Carioca Sub-20, o jogador Abdoulaye Kaba abre um sorriso e se diverte: “Vai ter um monte de gente me vendo na televisão. Acho que serei famoso também”. Abdou, como é chamado pelos companheiros de time, foi convidado para conduzir a tocha Olímpica em Curitiba nesta quinta-feira (14). “Durmo, sonho e acordo pensando nessa felicidade”, comemora.
Depois de dar entrevistas e fazer fotos, Abdou conduziu a tocha feliz: "O Brasil é um grande país".(Foto: Rio2016/Andre Luiz Mello)
Diante da maior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial, quando a ONU aponta para o número de 65 milhões de pessoas em deslocamento fugindo de conflitos e violações de direitos humanos pelo mundo, o revezamento da chama Olímpica presta homenagens a quem busca um novo local para reconstruir a vida de forma pacífica, bem longe das guerras. Antes mesmo de chegar ao Brasil, a tocha foi conduzida pelo refugiado sírio Ibrahim al-Hussein, na Grécia, e, no mês passado, em Manaus, pelo haitiano Abdias Dolce.
“É o maior evento do mundo, quem não gostaria de estar em meu lugar no revezamento da tocha?”, diz Abdou. Quando tinha 14 anos, ele deixou Conacri, capital da Guiné, e veio parar no Brasil no final de 2012, depois de passar por Senegal e Espanha. “Não conhecia ninguém e não falava o idioma”, conta. “Fiquei ali no aeroporto do Rio de Janeiro, pensando no que fazer”.
Teve a sorte de ser apresentado para outro guineense, morador de Niterói, por um senegalês que conhecera no avião. Instalado na casa do conterrâneo, Abdou começou a jogar futebol por meio do projeto sócio-esportivo Karanba, idealizado por um ex-jogador norueguês. Na Guiné, a família ainda vivia em lugares escondidos e o pai continuava preso. Foi quando achou, de fato, um porto seguro em território brasileiro: a casa do técnico Diego Reis, comandante do São Gonçalense, time que passou a defender.
Com o "pai", o treinador Diego Reis: família adotiva (Foto: Rio 2016/André Naddeo)
No dia em que Abdou desmaiou em campo durante um treino por não ter tomado café da manhã, o treinador o convidou para morar com sua família. “Contei a história dele para minha mulher e ela topou recebê-lo”, diz. Já são quase três anos de convivência. “Minha filha de sete meses o considera um irmão mais velho”, conta o Reis. “Ele é meu pai brasileiro”, afirma o atleta. “Sinto-me em casa e feliz, pronto para correr atrás de meu sonho”. No último domingo (10), o jovem guineense ganhou uma inspiração e tanto: natural da Guiné-Bissau, país vizinho ao seu, o atacante Éder carimbou o placar que deu a Eurocopa à seleção de Portugal, no jogo contra a França. “Ele também é um imigrante, fiquei muito feliz”, diz Abdou. “Quem sabe um dia eu não consiga marcar um gol tão importante assim?”
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