Se há uma pessoa que as equipes que nutrem a esperança de acabar com o domínio dos Estados Unidos no futebol feminino Olímpico não gostariam de ver sair do túnel no Estádio do Maracanã em 19 de agosto do ano que vem, dia da final dos Jogos Rio 2016, é Carli Lloyd. A meia-atacante norte-americana faz dos gols em momentos decisivos uma marca.
Foi dela, por exemplo, o da vitória por 1 a 0 na prorrogação da decisão da medalha de ouro dos Jogos Pequim 2008, contra o Brasil (veja aqui). Os dois gols na vitória por 2 a 1 sobre o Japão em Londres 2012 também foram dela. E Lloyd continua em forma: marcou três vezes na vitória por 5 a 2 sobre o Japão na final da Copa do Mundo deste ano, no Canadá.
O que passa pela cabeça dessa atleta, de 33 anos, tão forte mentalmente em grandes decisões? “Acho que apenas os anos de preparação e a ideia de ser competitivamente feroz, dar tudo de mim quando estou em campo", disse, em entrevista exclusiva para o rio2016.com. "São anos e anos de trabalho duro, tanto no aspecto físico, quanto no aspecto mental. É o que eu sempre fiz e o que quero continuar a fazer".
A única grande decepção significativa de Lloyd aconteceu na final da Copa do Mundo de 2011, quando ela perdeu um pênalti em disputa dramática contra o Japão. De lá para cá, vingou essa derrota duas vezes: em Londres 2012, e este ano, no Canadá, de onde saiu com os prêmios de melhor jogadora e de gol mais bonito da Copa, esse último graças a um chute incrível a partir da linha do meio-de-campo que colocou os Estados Unidos em vantagem por 3 a 0 (veja aqui). "Foi definitivamente o meu gol mais bonito, especialmente vindo em uma final de Copa do Mundo", afirmou a craque norte-americana.

Espírito de equipe: Lloyd (10) é cercada pelas companheiras de equipe depois de marcar contra o Japão na final da Copa do Mundo do Canadá (Getty Images/Jeff Vinnick)
Lloyd - que cresceu em Delran, cidade de população operária de Nova Jersey, e costumava jogar futebol contra imigrantes turcos do sexo masculino - poderá desfrutar da vantagem de disputar em casa a vaga para o Rio 2016, em fevereiro. O Torneio Pré-Olímpico feminino da Concacaf será jogado no Texas, e uma das arenas da competição é o local onde o clube da meia-atacante, o Dash Houston, manda seus jogos.
"Ainda estamos surfando na onda da Copa do Mundo. Estamos fazendo uma turnê de dez jogos de celebração com a seleção nacional e vamos dar sequência até o fim do ano. Mas gostaria de dizer que a partir do início de janeiro estaremos 110% focadas na classificação para os Jogos Olímpicos e nos preparando para isso ", destaca Lloyd. "Ainda há muito espaço para melhorias".
Esse último comentário sem dúvida será motivo de preocupação para as seleções rivais dos EUA quando o assunto é a briga pelo lugar mais alto do pódio no Rio. As norte-americanas conquistaram as últimas três medalhas de ouro Olímpicas e quatro dos cinco torneios femininos de futebol disputados em Jogos, ficando com a prata apenas em Sydney 2000.
"Nós temos orgulho de vencer", disse Lloyd. "Nunca iremos a uma competição tentando o segundo lugar. Sabemos que vai ser difícil, temos enfrentado muitos desafios e a viagem nem sempre tem sido fácil, mas somos capazes de permanecer juntas e unidas. Isso é o que nos torna especiais. Mesmo vencendo as últimas três (finais Olímpicas), sabemos que nunca vai ser fácil. As equipes estão no nosso encalço".
A camisa 10 diz que sempre teve de responder questões sobre o que é mais importante - a Copa do Mundo ou Jogos Olímpicos - mas diz que são torneios diferentes. "Os Jogos Olímpicos são enormes", ressalta ela. "Jogar a Copa do Mundo e vencer é o sonho de todo o jogador de futebol, é puramente futebol. Nos Jogos Olímpicos, porém, o mundo inteiro é cativado. Todos ficam em frente à televisão e cada pessoa apoia seu país, seja ela fã de futebol ou não. E não há também muitas pessoas que possam dizer que foram campeãs Olímpicas".
Lloyd tem duas medalhas de ouro no currículo e conquistar mais uma está entre suas metas. "Seria uma tremenda realização. Eu gostaria de acrescentar uma terceira - seria um sonho tornado realidade. Mas você não pode ficar muito focada no resultado final. Você tem que se concentrar em todo o ano e nos preparativos. Deste ponto em diante você tem que fazer todas as coisas certas e se você fizer isso, as coisas tendem a se encaixar".
A craque norte-americana ouviu coisas boas dentro do mundo do futebol sobre a Copa do Mundo masculina realizada no Brasil no ano passado e espera "fantásticos Jogos Olímpicos" no Rio. Muitos pensam que aos 34 anos e três ouros seria um bom momento para anunciar aposentadoria. Sem chance.
"Estou me sentindo muito bem e um outro ciclo de Copa do Mundo e Jogos Olímpicos está definitivamente em meus planos", disse ela. "Vou continuar até que eu não possa ir adiante. Diria que há uma chance de 95% de estar disponível para Tóquio 2020".
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