A 200 dias dos Jogos Paralímpicos, ajustes e corrida para engajar o público do Rio
Quatro eventos-teste e operação delicada durante o período pós-Jogos Olímpicos vão marcar a reta final dos preparativos
Quatro eventos-teste e operação delicada durante o período pós-Jogos Olímpicos vão marcar a reta final dos preparativos
O Brasil bateu o Canadá e foi o primeiro no quadro de medalhas do Parapan de Toronto 2015 (CPB/Divulgação)
“Agora, entramos de vez no espírito e no ritmo dos Jogos Paralímpicos. A gente passa a respirar Jogos. Vive, fala, acorda de noite e anota mais alguma coisa...” Quem define o que representa esta reta final dos 200 dias para os Jogos Paralímpicos, que serão disputados de 7 a 18 de setembro, é Edílson Alves da Rocha, o Tubiba, diretor técnico do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB).
Verônica Hipólito, campeão mundial dos 200m no Mundial de Atletismo de Lyon 2013 e vice dos 100m
Nesta semana, estiveram no Rio de Janeiro os coordenadores de todas as modalidades que distribuirão 528 medalhas, a ser disputadas por 4.350 atletas de 176 países. Além de encontros com os gerentes esportivos do Comitê Rio 2016, fizeram visitas a locais de treinamento e competição e simulações para medir o tempo necessário para deslocamentos.
“Na reta final, nos voltamos para aspectos específicos de cada modalidade. Assim vamos moldando toda a operação”, diz Tubiba.
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“Estamos mais tranquilos, com as definições de vagas que teremos”, explica Tubiba, o diretor técnico do CPB. “No caso da natação, batemos recorde [encerrado o prazo para se obter vaga pelo ranking, o Brasil garantiu 32 atletas, 12 a mais que em Londres 2012]. Devemos bater recorde no atletismo também. Conforme essas vagas são asseguradas, temos menos estresse”, afirma.
“Tecnicamente, o trabalho está feito”, diz. “Agora, o CPB passa a alinhar ações para o polimento dos atletas e voltadas para o aspecto mental, com os prós e contras de competir em casa.”
A delegação brasileira para os Jogos Paralímpicos deve ter em torno de 280 atletas, com a convocação oficial marcada para 19 de julho.
Até os Jogos, serão mais quatro eventos-teste, para avaliações e ajustes: ainda em fevereiro, de 26 a 28, haverá o Campeonato Internacional de Rugby em Cadeira de Rodas, na Arena Carioca 1, do Parque Olímpico da Barra. De 22 a 24 de abril, a natação Paralímpica terá seu Open Internacional no Estádio Aquático Olímpico, também na Barra.
Ainda na Barra, em 4 e 5 de maio será disputado o Torneio Internacional de Goalball na Arena do Futuro.

E de 18 a 21 de maio haverá o Open Internacional de Atletismo Paralímpico, com provas no Estádio Olímpico, na região do Maracanã – e esse será um evento-teste completo, com avaliação de todas as áreas funcionais.
Essas competições são importantes tecnicamente para atletas e técnicos avaliarem planejamento e estágios de treinamento em relação a adversários. Entre os Paralímpicos, elas ganham dimensão ainda maior, por causa de pontos específicos, como testes relacionados a mobilidade e necessidades especiais.
Leomon Moreno, do goalball, a modalidade Paralímpica que mais cresce, sobre Finlândia, Estados Unidos e Lituânia, que ficaram atrás do Brasil no Mundial 2014
Para o coordenador de Acessibilidade do Comitê Rio 2016, Augusto Fernandes, os eventos-teste são fundamentais para a percepção de detalhes relacionados aos atletas Paralímpicos. “É preciso cuidado na finalização das obras, com atenção e consciência”, diz Augusto. “Além de estruturas como rampas, checamos rotas e sinalizações para pessoas com deficiências físicas, visuais e auditivas.” Esse trabalho não se restringe a locais de competição e Vila dos Atletas: hotéis, por exemplo, também devem ser inspecionados.
Há também situações curiosas, como a definição dos locais que servirão de “banheirinho” para os cães-guia que atuam com os deficientes visuais.
A cada evento-teste há treinamento de voluntários. No caso dos esportes Paralímpicos, “um vídeo mostra como não se portar e como agir de maneiro correta”, observa Augusto. Ele também cita outro vídeo, direcionado para voluntários no atendimento ao público – que também terá pessoas com algum tipo de deficiência.
Rodrigo Garcia, gerente de Esportes do Rio 2016, lembra que “estes 200 dias são aqueles em que tudo o que planejamentos começa a acontecer”. Além das avaliações das diversas áreas funcionais, os eventos-teste também serão uma grande oportunidade para engajamento de público. “Chegamos à hora do 'esquenta’ da população. Mesmo porque dois dos grandes eventos-teste Paralímpicos – da natação e do atletismo – de alguma forma contarão com espectadores.”
O período entre os Jogos Olímpicos e os Jogos Paralímpicos exigirá total atenção. Serão 16 dias, entre 22 de agosto e 6 de setembro: os Jogos Olímpicos, que começam em 5 de agosto, vão até o dia 21 - mas alguns atletas ainda podem ficar na Vila Olímpica até 22.
Conforme as provas Olímpicas vão terminando e os locais de competição sendo liberados, serão iniciados os trabalhos para os Paralímpicos. No caso da transformação da Vila Olímpica em Vila Paralímpica – que inclui mudança total do visual –, a operação prevê trabalhos em ritmo intenso, sem margem para atrasos.
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Nessa semana, estará em jogo todo o planejamento de transporte, incluindo saída de Olímpicos e chegada de Paralímpicos nos aeroportos do Galeão e no Santos Dumont (já foram feitos treinamentos com funcionários de companhias aéreas in loco). E isso tudo de maneira que os aspectos visuais de sinalização diferentes não causem ruído na comunicação.
A saída da Vila Paralímpica, no dia 19, merece planejamento detalhado. Diferentemente dos atletas Olímpicos, que saem pouco a pouco, conforme são encerradas as competições das respectivas modalidades, os Paralímpicos desocupam a área praticamente juntos – só ao fim do evento.
Nestes 200 dias também é acelarada a preparação das cerimônias Paralímpicas – que, apesar de ter cerca de metade de atletas (5 mil para mais de 10 mil) dos Olímpicos, envolvem um número maior de profissionais, pela variedade das classes funcionais (sistema de categorização que divide os atletas em grupos para competir - sempre a partir de suas capacidades esportivas, que são influenciadas, mas não determinadas pelas limitações de cada um). Leonardo Caetano, diretor de Cerimônias, situa: “Depois da produção de conteúdo e da roteirização, passamos à produção e à construção, com os ensaios dos participantes, confecção de figurinos.”
Cerca de dez dias antes da abertura dos Jogos (no caso dos Paralímpicos o tempo é mais apertado, pelo fim dos Olímpicos e a semana de transição), são realizados dois ou três ensaios gerais das cerimônias. “Os participantes já estão maquiados e vestidos. São projeções reais, no palco real”, observa Leonardo.
Com relação a tochas, o revezamento Paralímpico é bem diferente do Olímpico, como explica Marco Elias, responsável por toda a ação. Cada uma de cinco cidades, representando as regiões brasileiras, terá um revezamento próprio. São elas Brasília, Belém, Natal, são Paulo e Joinville, uma de cada vez, em ordem ainda a ser determinada, mas iniciando em 1º de setembro.
No Rio de Janeiro, haverá dois dias de revezamento – 6 e 7, quando será a cerimônia de abertura.

Para o presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), Andrew Parsons, um dos principais desafios nestes 200 dias será motivar a participação do público, fazer a população a entender a importância dessa oportunidade e quebrar barreiras.
“As pessoas começam a perceber que a deficiência é apenas uma característica de um indivíduo. E passam a ver que pessoas com deficiência são produtivas, felizes, grandes profissionais, pais e mães, amigos”, diz Parsons, que também é vice-presidente do Comitê Paralímpico Internacional (IPC, na sigla em inglês).