Com participação de 122 atletas de 26 países – e vários deles campeões Olímpicos e mundiais – foi um sucesso o Desafio Internacional de Canoagem Slalom, encerrado neste domingo (29), nas corredeiras do circuito construído para o esporte em Deodoro. Atletas e dirigentes que estiveram em Deodoro para o evento-teste elogiaram muito a pista de competição pelo percurso exigente, que requer técnica apurada e concentração para as descidas. E exigiu ainda mais dos canoístas nas finais deste domingo, com parte da competição disputada sob muita chuva.
Outro ponto de destaque foi a área verde em volta do local, que receberá o esporte nos Jogos Olímpicos Rio 2016. Ana Sátila, a principal canoísta brasileira, resumiu: “Já é a minha pista favorita. Para mim, a número 1 do mundo”.
Se a atleta de 19 anos, campeã mundial de K1 (caiaque individual, em que se usa remo de duas pás), se diz “apaixonada” por água e pela pista, principalmente pela exigência de “concentração total”, o secretário-geral da Federação Internacional de Canoagem (ICF, na sigla em inglês), Simon Toulson, declara: “A construção está aprovada, sim, o sistema de limpeza da água funcionou superbem. E ainda mais que temos essa paisagem de fundo. E a pista tem muita qualidade, é de um nível técnico muito alto. É uma das melhores do mundo, senão a melhor. Foi um sucesso. Estou feliz”.
Sexta colocada na final do evento-teste, Ana Sátila diz que aprendeu muito nesta semana e está evoluindo, mas ainda tem muito trabalho. “Agora vamos para cinco etapas de Copa do Mundo, mas teremos a vantagem de treinar bastante aqui, o que vai nos dar a experiência que precisamos para chegar bem aos Jogos", acredita a brasileira.
Bob Campbell, da empresa responsável pela construção do canal (White Water Parks), diz se sentir recompensado pela reação dos atletas. “John Felton, responsável pela colocação dos blocos, é muito bom para esse tipo de layout, essa ’escultura’, que precisa manter a água consistente, sem jogar o atleta para os lados. É uma arte. Assim, os competidores não precisam brigar com a água, pelo contrário. É uma pista técnica, para aqueles que têm o feeling da água, mas também para desfrutar da flutuação, das correntezas", analisa Champbell.
“Não sobra espaço para respirar”
Daniele Molmenti, campeão Olímpico de K1 em Londres 2012
Por ser mais estreito que o circuito de Londres 2012, a água desce com mais pressão em Deodoro. E, com o design na colocação dos obstáculos, é preciso que os atletas mostrem habilidades variadas e foco total.
Cameron Smedley, ouro na prova C1 no evento-teste, destaca a infinidade de leituras na descida da pista de Deodoro. “Ela ataca o tempo todo e você precisa ser mentalmente muito forte para saber o que fazer diante de tantes possibilidades. O que você tem de fazer é se adaptar rapidamente. Mas é muito legal. E foi bom vir ao Rio para este evento-teste”.
O italiano Daniele Molmenti, atual campeão Olímpico da prova K1 (caiaque individual) diz que a água é muito rápida: “Não sobra espaço para respirar. Daí que exige muito do físico e muito da mente, para se manter o foco”. Molmenti disse que veio ao evento-teste “para pegar todas as informações possíveis”.
Tony Estanguet, três vezes campeão Olímpico de C1 – foi ouro em Londres 2012 –, além de tricampeão mundial, esteve em Deodoro como membro da comissão de atletas do Comitê Olímpico Internacional (COI) e como um dos vice-presidentes da ICF, e aprovou a pista. “A cada cinco metros você tem algo diferente”, observa o francês. “A pista é muito exigente e foi um passo-chave para os atletas virem ao evento-teste. Assim, ganham confiança. Todos se mostraram muito sérios e muito focados. Vejo em seus olhos. Tive uma boa sensação em relação a todo o ambiente”.
"A cada cinco metros tem algo diferente. A pista é muito exigente"
Tony Estanguet, tricampeão Olímpico, membro do COI e da ICF
John MacLeod, gerente de competição da canoagem slalom do Comitê Rio 2016, tem 50 anos no esporte (foi atleta Olímpico em Munique 1972) e diz que essa pista de Deodoro foi muito bem construída e tecnicamente é desafiadora, como define. “Este local será um clássico do esporte. E é muito bonito também”.
Sobre o evento-teste, MacLeod assinala: “Aprendemos muita coisa e digo que houve uma energia fantástica das equipes técnicas envolvidas”.
“Este local será um clássico do esporte. E é muito bonito também”
John MacLeod, gerente de competição da canoagem slalom do Rio 2016
Gerente de canoagem do Rio 2016, Sebastián Cuattrin diz que “tudo transcorreu muito bem”. A pista, desafiadora, foi muito bem avaliada: “Os atletas, que são nosso principal termômetro, nos deram um feedback muito positivo”.
Outros pontos que funcionaram sem problemas, segundo Cuattrin, foram cronometragem, captação de vídeos para os árbitros, resgatistas – “com agradecimento ao apoio do Corpo de Bombeiros”. Sobre pessoal técnico e de organização, diz que o trabalho foi excelente.
Na crista da onda
Leonardo Curcel, brasileiro da C1, foi outro a elogiar: “Adorei. O fundo da canoa não bate, não quebramos material, e dentro da água dá para se trabalhar de diversas formas. Treinando aqui, vamos desenvolver muito nossas habilidades. Tem remanso, corredeira, borbulho (como uma bola de água, que gera instabilidade), espuma, refluxo. É muito desafiante. Essa pista vai bater de igual para igual com qualquer outra do mundo. Se não for a melhor”.
"Já é a minha pista favorita. Para mim, a número 1 do mundo"
Ana Sátila, 19 anos, campeã mundial júnior de C1
Para Guillermo Diez Canedo, espanhol que é auxiliar-técnico da seleção brasileira, a pista de Deodoro engana, por ser, por exemplo, menos rápida que a de Londres. “Na corredeira mais forte, a sorte pode influir mais. A pista daqui permite um slalom mais técnico e mais fluido”. É como diz o sorridente Jean-Pierre Bourhis, canoísta do Senegal: “Você tem de deslizar em cima da água, acelerando, acelerando. Senão, cai”.
Serviços também aprovados
Construção das mais complexas para os Jogos Olímpicos Rio 2016, o Estádio Olímpico de Canoagem Slalom terá locais divididos para as delegações, além de salas para vários setores – que ainda estão sendo construídos.
O evento-teste também serviu para avaliar todo o sistema de resultados eletrônicos, com cronômetros e câmeras de vídeo, nas 18 a 25 portas da descida da corredeira, até placar e alimentação de resultados por internet. E também o trabalho de oficiais técnicos, como os árbitros de pista e os responsáveis pela medição de barcos, e de equipes de serviços diversos – de resgatistas a locutor, de informática a alimentação, de segurança a voluntários.