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25/04/2016

'Rio Ama Esgrima' encanta público do Leme

Dezenas de estudantes puderam experimentar o esporte em evento da federação internacional
'Rio Ama Esgrima' encanta público do Leme

Arthur Verissimo, aluno cadeirante de 6 anos, experimentou a esgrima Paralímpica no Rio Loves Fencing (Foto: Rio 2016/Paulo Múmia)

O nome do evento organizado nos dias 20 e 21 de abril pela Federação Internacional de Esgrima (FIE) - Rio Loves Fencing, que, em inglês, significa Rio Ama Esgrima - podia, inicialmente, ser visto mais como uma aposta do que como um fato consumado. Depois do sucesso da ação estruturada em parceria com o Transforma na praça Almirante Júlio de Noronha, no Leme, zona sul do Rio, a afirmação saiu do campo do desejo e assumiu ares de realidade concreta. Dezenas de crianças da escola São Tomás de Aquino, situada ao lado da praça, se encantaram ao vestir equipamentos de proteção profissionais, empunhar floretes de plástico e, já no primeiro contato com a esgrima, participar de combates com os colegas. "O uso de espadas já está no imaginário das crianças por meio de filmes como Zorro, Guerra nas Estrelas e Os Três Mosqueteiros. Ver essa energia delas aplicada na esgrima é muito gratificante", disse o atleta Luciano Rossato, que fez as vezes de árbitro nos duelos entre os estudantes e participa constantemente de festivais esportivos do Transforma.

O próprio Rossato, aliás, vestiu seu uniforme de jogo e encarou o também esgrimista Eduardo Britto na pista estendida na arena redonda da praça. Com as mesmas crianças que uma hora antes experimentavam o esporte sentadas na arquibancada, os dois atletas protagonizaram um duelo empolgante. Chegando ao 9 a 9 e, portanto, ao momento do ponto decisivo, Britto atendeu os cantos de incentivo da criançada, partiu para a ofensiva, conseguiu tocar o dorso do adversário com a ponta de sua arma e garantiu a vitória. Diante dos gritos a cada ponto comemorado e da dinamicidade do embate, até quem pedalava pela orla ou caminhava nas proximidades parou para ver a apresentação. "Foi muito bom ter esse contato com a esgrima, que eu só conhecia pela televisão. Eu não entendia muito bem as regras, mas agora já fico mais preparado para acompanhar as competições nos Jogos aqui no Rio", afirmou o cabeleireiro Edmilson Martins, apoiado em sua bicicleta.

As atividades de experimentação envolviam as crianças com o esporte de várias maneiras. Em uma delas, elas eram desafiadas a escrever seu nome em um quadro branco usando uma caneta presa na ponta de um florete. Na estação ao lado, a tarefa era tentar acertar bolas de diferentes tamanhos suspensas no ar. Para os pequenos, havia ainda recreadores enchendo balões e os transformando em espadas. Um momento de destaque foi quando o aluno Arthur Verissimo, de 6 anos, que é cadeirante, entrou na fila dos duelos. Na hora de jogar, sua adversária também se sentou e completou o modelo de esgrima Paralímpica. A mãe do menino, Maialisa Verissimo, contou ter ficado muito feliz com a possibilidade de participação: "Sinto que, hoje, os horizontes para pessoas com deficiência estão se ampliando. Ele já participa da aula de educação física, e agora experimentou a esgrima, que eu não sabia que era esporte Paralímpico, também. A gente vê, então, que ele pode socializar, e que não é visto como um pobre coitado."

As atletas Clarisse Menezes e Amanda Netto Simeão, ambas em busca de vagas nos Jogos Rio 2016 - a classificação está sendo decidida no evento-teste de esgrima, entre 23 e 27 de abril, na Arena Carioca 3 -, aproveitaram a ocasião para interagir com a garotada. "Um evento como esse é muito legal para as pessoas conhecerem a gente. Também é ótimo para as crianças, as meninas terem acesso à esgrima. Quando eu comecei, os investimentos eram quase só em atletas homens", falou Clarisse, que foi a primeira atleta feminina de esgrima a conseguir uma medalha para o Brasil, no Pan do Rio-2007.

O palco estava montado, portanto, para mais uma capacitação esportiva do Transforma. Entre atividades em que cada participante tentava, usando apenas a mão de combate, arrancar uma faixa presa na cintura do oponente e jogos de fato com os floretes para iniciantes, professoras e professores de educação física aprenderam a ensinar a esgrima em suas aulas. “A gente sabe que toda nova aprendizagem é válida, e fico muito feliz de poder levar mais um esporte para os meus alunos”, disse Janne Viterbo, docente da Escola Municipal Professor Affonso Várzea.

Se ainda havia uma pecha de "elitista" pairando sobre a esgrima, o mito caiu por terra na pesquisa feita pela atleta Amanda Netto Simeão durante seis meses, antes de abrir uma academia voltada para o esporte em Curitiba (PR). "Descobri que, para praticar esgrima, você precisa gastar entre R$ 150 e R$ 300 por mês, até porque o clube ou a academia oferecem todo o equipamento. Esse valor é igual ou menor do que o custo de uma chuteira de futebol ou de aulas de tênis, que são esportes mais populares no Brasil", pontuou a medalhista de bronze na categoria por equipe no Pan de Toronto-2015. Assim como as atletas tiveram que deixar o evento no Leme para retomar seus treinamentos, a alegria trazida pela interação com as crianças deu lugar ao foco no evento-teste para o Rio 2016. "Estamos na expectativa de conseguir a classificação para os Jogos. Se atingirmos essa meta, vamos, como sempre, dar o nosso máximo para representar o Brasil", finalizou Amanda.

Todas as fotos foram feitas por Paulo Múmia.