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08/06/2016

Criatividade e inclusão, do RJ ao Acre

Professores ensinam esportes Olímpicos e Paralímpicos e lançam mão de materiais alternativos em suas aulas
Criatividade e inclusão, do RJ ao Acre

Professor Francisco Juvenal (esq.) aplica o rugby em Assis Brasil (AC); ele também trabalhou a bocha Paralímpica (Foto: Reprodução/Facebook)

Quem é membro do grupo do Transforma Rio 2016 no Facebook já sabe, mas nunca é demais dar um destaque aos professores que inovaram em suas aulas de educação física com esportes Olímpicos e Paralímpicos pouco difundidos pelo Brasil. As soluções criativas na linha do “faça você mesmo” para substituir equipamentos esportivos oficiais, que muitas vezes têm custo elevado, variam da aplicação de capacitações esportivas e de vídeos “Aprenda a Ensinar” a invenções incríveis com material escolar.

O professor Rogério Sebastião, do município de Votuporanga (SP), se enquadra neste último caso. Para incrementar a prática do basquete nas suas lições, ele resolveu apresentar a modalidade Paralímpica do esporte aos seus alunos. Em vez de cadeiras de rodas, usou cadeiras giratórias (como as que se encontram em escritórios). Para permitir a movimentação dos jogadores, formou duplas em que um estudante empurrava a cadeira e o outro conduzia a bola posicionado no assento. “Peguei a ideia do Transforma e trouxe para a nossa realidade, que é escola de interior, cidade pequena, com bons alunos. Falei ‘vamo tentar’”, explica o docente.

O sucesso da atividade não veio sem algumas prevenções, revela Rogério: “Tinha medo do aluno se machucar, porque a cadeira é estreita, ou que quem estivesse conduzindo fizesse algum tipo de graça. Por isso, fiz uma socialização no início e no término da atividade, para eles terem esse cuidado.” Nessa roda de discussão, os alunos também se questionaram se daria certo. Mas, por conta da criatividade da atividade e a abertura para o diálogo, o resultado foi o melhor possível. “Eles amaram e não queriam mais parar. Teve um menino que até cruzou as pernas e incorporou a pessoa com deficiência física. Abraçou a causa”, conta o professor.

Para completar o espírito de soluções alternativas, algumas informações importantes: Rogério também é professor de matemática e já aplicou esportes cooperativos curiosos em suas lições, como “volençol” (tipo de vôlei jogado não com as mãos, mas com lençóis seguros em grupo) e futebol com vassouras.

Do computador para as mãos dos alunos

A mais de 1.000 km de Votuporanga, uma colega de profissão de Rogério tirou conhecimento do mundo virtual e o tornou concreto nas mãos de seus alunos. Veruska Vieira dá aula na Escola Sesi de Itaperuna (RJ) e afirma que “só estando lá” daria para sentir a emoção ao ver o sucesso do tiro com arco entre os estudantes do 9º ano. Para tornar isso possível, a docente assistiu ao vídeo “Aprenda a Ensinar” sobre o esporte e, seguindo o conteúdo virtual, organizou a confecção do arco com tubo de PVC e cordas de varal pelos próprios alunos e seus responsáveis.

Em entrevista ao Transforma, ela explicou o desenvolvimento do seu trabalho na escola. “Estou contextualizando os esportes Olímpicos e Paralímpicos em minhas aulas e os apresentando aos alunos de acordo com o interesse. Eles amaram o tiro com arco e sua história, pois iniciei a introdução com um trecho do filme ‘Robin Hood’. Foi muito motivador”, diz Veruska. “Na aula seguinte eles sabiam mais coisas do que eu e acrescentavam a minha fala!”

Se o manejo de cadeiras com pessoas sentadas já requeria uma série de cuidados, é imprescindível pedir atenção redobrada dos jovens quando há flechas envolvidas. “Quando pesquisamos as regras e equipamentos oficiais, foram abordados e discutidos os cuidados para a prática, não só para quem está atirando, como também para quem assiste. Então, relembramos que, entre outras coisas, nunca devemos apontar para o colega e não podemos correr para recolher as flechas”, ensina a professora.

A ampliação do cardápio esportivo das aulas muitas vezes abre espaço para a integração de jovens que, antes, não se interessavam muito pela educação física. Um dos alunos de Veruska no 9º ano tem diagnóstico de transtorno comportamental e, por uma herança cultural familiar, se mostrou muito interessado no tiro com arco: “Ele disse ser descendente de índios e que índios usam arco. Nesse momento, diferenciamos os arcos dos índios para os arcos Olímpicos e, depois, ele trouxe uma pesquisa sobre tipos de arcos. Realizou a prática com a maior empolgação e é um dos que a querem novamente.”

Esporte sem fronteiras

No canto noroeste do país está a cidade acreana de Assis Brasil. Este é um dos municípios que compõem a fronteira tríplice compartilhada por Brasil, Peru e Bolívia. Há algum tempo, Ricardo, um aluno cadeirante com deficiência motora chegou à Escola Professora Iris Celia Cabanellas Zannini, situada na cidade.

Diante do ímpeto de incluí-lo em suas aulas de educação física, o professor Francisco Juvenal mobilizou pais de alunos e a coordenação escolar para adquirir material para fazer uma calha de bocha Paralímpica. Há alguns meses, postou no grupo do Transforma no Facebook o vídeo de Ricardo praticando o esporte no corredor da escola.

“Esse aluno tem um brilho nos olhos que nos contagia. Os pais dele nos procuraram com o relatório de acompanhamento que ele faz na Rede Sarah no Amapá, que incentivou o Ricardo a jogar boccia. Conseguimos realizar esse sonho”, celebra Francisco. Com orientação da mesma rede de neuroreabilitação, o pai do estudante construiu a calha.

Conquistas como essa evidenciam como é importante a educação ser uma via aberta de mão dupla, e não uma imposição rígida. “Todo dia aprendo com Ricardo. Eu me sinto engrandecido como profissional de educação física”, afirma o professor, que também introduziu o rugby aos seus alunos.