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28/10/2015

Educadora de mão cheia

Professora de Campinas não mede esforços para engrandecer suas aulas
 Educadora de mão cheia

Márcia Lomeu Castellano se desloca de Campinas ao Rio para poder ensinar esportes como o voleibol sentado e o goalball a seus alunos (Foto: Rio 2016/André Redlich)

A chave para a felicidade na vida é algo difícil de definir, mas um bom começo para se chegar a essa sensação é fazer com que sua profissão não seja apenas uma obrigação. A professora de Educação Física Márcia Lomeu Castellano, da Escola Municipal de Ensino Fundamental Professora Dulce Bento Nascimento e do Centro Municipal de Ensino Fundamental e Educação de Jovens e Adultos Pierre Bonhomme, de Campinas (SP), pode dar essa etapa como cumprida. As funções básicas normalmente estipuladas para o dia a dia letivo foram transformadas pela educadora em atividades inovadoras, possíveis apenas por sua vontade insaciável de adquirir novos conhecimentos. Longe de egoísta, o objetivo é o de sempre passar os aprendizados adiante. Esse ímpeto leva Márcia a usar até dinheiro do próprio bolso para ir da cidade onde mora, a cerca de 100 km da capital paulista, ao Rio participar das capacitações esportivas do Transforma. Na última delas, no dia 23/10, a professora teve seu primeiro contato com o tênis. Ela é bem objetiva ao explicar o que achou do esporte: “Amei!” Não deve tardar até a disciplina pintar em uma de suas lições.

O gosto recém-descoberto pelo esporte de rebatida, no entanto, vem depois de um longo tempo trabalhando com educação física adaptada, tema no qual Márcia centrou sua especialização e seu mestrado. Ela foi técnica de uma equipe de basquete sobre cadeira de rodas de alto rendimento e, durante oito anos, integrou a Secretaria Municipal de Esportes de Campinas. No órgão público desenvolveu, entre outras atividades, projetos com futsal para pessoas com síndrome de Down, natação para deficientes visuais e voleibol adaptado para a terceira idade. Foi um baque forte, portanto, quando seu ciclo como funcionária comissionada foi encerrado de forma “desrespeitosa”, como ela mesma descreve. “Foi chocante para mim, porque muitos grupos acabaram”, diz a educadora.

Do acontecimento desestimulante surgiram forças para adaptar a bagagem adquirida na secretaria ao ambiente escolar, ao qual retornou. Tudo recomeçou à medida que Márcia, após introduzir um novo esporte em suas lições, passou a levar aos alunos a versão adaptada daquela disciplina. Bons exemplos são as visitas à escola de times de handebol sobre cadeira de rodas e basquete Paralímpico, que incluíram uma etapa de vivência entre atletas e estudantes. “Aproveitei para fazer uma reflexão sobre o que os alunos haviam sentido assistindo à apresentação esportiva. Eles foram vendo que a educação física não é só dentro da quadra, é também na sala de aula”, lembra a professora, para explicar em seguida: “No início, houve respostas absurdas, chamando os deficientes de ‘coitados’, achando que não podem ter filhos ou trabalhar. Disse que não era nada daquilo, que eles exercem sua cidadania como qualquer outra pessoa.”

Além de não querer “engavetar” a experiência vivida na secretaria, Márcia tinha outro desejo: conhecer novas modalidades que pudessem ser desenvolvidas com materiais alternativos. Foi então que ela descobriu o Transforma em uma reportagem da revista do Cref (Conselho Regional de Educação Física) local. “Meu primeiro pensamento foi ‘poxa, quero muito isso, mas sou de São Paulo’”, conta. Prontamente, enviou um e-mail à equipe do programa perguntando sobre a possibilidade de comparecer às capacitações esportivas presenciais, concentradas no Rio de Janeiro. A rápida resposta foi um diferencial: “Disseram que eu era super bem-vinda. Isso foi muito gratificante para mim, me senti acolhida”, afirma a educadora.

Logo após a visita da tribo de índios Kariri Xocó à EMEF Professora Dulce Bento Nascimento, em que houve até Jogos Indígenas desenvolvidos junto com os alunos, Márcia se inscreveu na capacitação esportiva em tiro com arco. “Fiquei louca para vir!”, recorda ela. Ao voltar da capacitação no Rio e aproveitando o gancho da atividade feita pouco antes com os índios, a professora tratou de organizar uma oficina de construção de arcos, flechas e alvos. “A gente conseguiu fazer o implemento exatamente como aprendi na capacitação, com tubo de PVC”, afirma a campineira.

Márcia mantém um grosso caderno, cheio de descrições e fotos de atividades e desenhos de alunos. Os registros compõem uma relíquia que permite a continuidade de seu trabalho por onde quer que passe – e servem de base para uma bela biografia, diga-se de passagem. Ao se folhearem as páginas, surgem ora detalhes de trabalhos com slackline – esporte em que se anda e equilibra sobre uma faixa esticada entre dois objetos fixos, como árvores –, ora partes de pesquisas feitas por alunos sobre a origem de gírias futebolísticas, como “perna de pau”. O caderno guarda também uma imagem impressa do português Cristiano Ronaldo em um campo de futebol. “Durante a Copa do Mundo de 2014, levei as crianças ao treino da seleção portuguesa no estádio do Guarani”, explica ela. Uma excursão à capital paulista permitiu aos jovens conhecer também o Museu do Futebol, no estádio Pacaembu.

O trabalho de Márcia continua a todo vapor, indo sempre muito além do que é apenas obrigação. A entrega tão intensa ao papel de educadora espanta a possibilidade de qualquer acomodação, e a busca pelo aprimoramento individual culmina sempre em uma mão ainda mais acolhedora estendida ao próximo. Cada vez mais cheia de conceitos inovadores e muita diversidade esportiva: assim é a mão de uma educadora de ouro.