Entrevistas

Gustavo Nascimento

Enviar para um amigo

As melhores instalações esportivas para os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos Rio 2016 já estão prontas. Há milhares de anos. Talvez milhões. Não levaram cimento, aço ou concreto. Para manter o clima ameno, não gastam energia. Não há bilheteria, nem ingressos. A capacidade de público é incontável. Sem efeitos especiais, a cobertura é azul, mas muda de cor ao pôr-do-sol. Nem por isso, faltará trabalho ao arquiteto Gustavo Nascimento e sua equipe pelos próximos cinco anos.

Carioca de 32 anos, o Gerente de Arquitetura de Instalações Esportivas do Comitê Organizador não encontrou paralelo ao rodar o mundo nos últimos tempos. Ninguém jamais construiu algo parecido.

“Os destaques em termos de instalações serão, em primeiro lugar, as da Praia de Copacabana, Vôlei de Praia e Triatlo, e da Lagoa Rodrigo de Freitas, o Remo e a Canoagem de Velocidade – esportes que são geralmente realizados em áreas distantes da sede olímpica. Serão disputados no coração da cidade e terão toda a atmosfera do Rio de Janeiro e dos Jogos. Na Lagoa, você vai ter 7,8km de gente podendo assistir às provas”, comemora o responsável pelos projetos das áreas de competição dos Jogos, uma interseção entre o Departamento de Esporte e o Departamento de Instalações.

“Nós precisamos de instalações que se submetam à iconicidade da nossa cidade. O Rio de Janeiro não precisa de mais ícones. Temos o Corcovado, o Pão de Açúcar, o Maracanã, a natureza, o nosso povo. Esses são os nossos ícones. O arquiteto que trabalha no Rio tem que ter essa consciência como obrigação. Não pode jamais ousar fazer algo que não se encaixe neste cenário, na atmosfera informal, bela, que é o invólucro desses locais. É diferente projetar estádio no Rio, em Londres e em Pequim”, afirma.

Experiências olímpicas

O ineditismo de estádios diferentes dedicados ao Atletismo (Engenhão) e às Cerimônias de Abertura e Encerramento (Maracanã) e a excelência técnica do Centro Nacional de Tiro Esportivo, referência mundial no esporte, são apontados por ele como destaques dos Jogos do Rio. São instalações já existentes, como 47% das que serão utilizadas em 2016. Serão 28% de novas instalações permanentes e 25% temporárias.

“O Movimento Olímpico tende hoje ao maior uso possível de instalações temporárias. Não é mais possível ter sua marca vinculada a elefantes brancos. Se você não consegue dar uso para aquilo, achar uma finalidade com um ciclo de vida de 30, 40, 50 anos para determinada instalação, que faça ela temporária, por mais cara que possa parecer”, diz o arquiteto, mestre em Engenharia Civil, que tem no currículo passagens pelo Comitê Organizador dos Jogos Pan-Americanos Rio 2007 e pelo Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos de Inverno de Vancouver 2010, projetos de onde trouxe experiências essenciais.

“Dentro do Departamento de Instalações, o ‘tempo’ de Esporte é dividido com todas as necessidades das outras áreas funcionais. O gerente de alimentação precisa de um determinado espaço, um determinado fluxo, precisa acomodar certo tipo de equipamento. O gerente de televisão, o mesmo, e assim vai. Quando combinam-se todas as demandas, é necessário ponderar. A finalidade é obter excelência técnica no esporte. Por isso, as áreas de competição não podem falhar. Em Vancouver, o orçamento, a abrangência e a visibilidade eram menores, mas o processo é exatamente o mesmo. Entender como funcionam e quais as necessidades das áreas funcionais dentro de um Comitê Organizador, e as relações com os governos, a iniciativa privada e o COI, foi o primeiro passo para esta ponderação de o que é mais importante no contexto de uma instalação de competição. Isso, eu trouxe de Vancouver”.

Vantagem de jogar em casa

Um dos objetivos da gerência de Arquitetura de Instalações Esportivas é entregar para os atletas brasileiros o quanto antes as instalações cuja aclimatação e familiaridade dos competidores com elas sejam fundamentais para o desempenho e os resultados. São os casos do golfe e do Ciclismo Estrada, por exemplo. É o chamado home advantage, ou a “vantagem de jogar em casa”. Segundo Gustavo, as vantagens para os compatriotas terminam aí.

“As propostas em relação às instalações vêm do Comitê Organizador, são submetidas às Federações Internacionais e são aprovadas com o Comitê Olímpico Internacional. No caso do tênis, por exemplo, onde a escolha do piso é um diferencial, a Federação sofre enorme pressão para que o piso esteja de acordo com a época da temporada do circuito profissional, sob pena de grandes estrelas optarem por não jogar. É uma decisão política”, relata.

“No Ciclismo Estrada, você vai estar no fim de temporada. Os atletas estão cansados, contundidos. No circuito olímpico, como você tem atletas de países com muita tradição no esporte e de outros com muito pouca, se você colocar um circuito muito difícil, a discrepância no resultado é muito alta, ao ponto de retardatários se tornarem problemas para o evento. O cara termina tão depois que se torna um problema. Isso tudo é pensado na hora de fazer o percurso”, completa.

O que não se pode medir

Para Gustavo, a chegada da Maratona em Atenas 2004, no histórico estádio Panathinaikos, serve de inspiração pelo simbolismo. O novo estádio do New York Yankees, time de beisebol dos EUA, o novo Wembley, a pista de Jump em Innsbruck, na Áustria, e o Velódromo de Londres – “obra de arte de tirar o fôlego”, em suas palavras – são referências. Mais do que a estética, a funcionalidade é o caminho do sucesso em todas elas. Para 2016, porém, o ideal vai além.

“Sucesso será olhar para trás e ver o que a gente fez por essa cidade, mas não pelas obras, pela infraestrutura. Será ver que fizemos parte também daquilo que não se pode medir, que é você trazer de volta o amor pela sua cidade-natal para cada carioca. Tenho certeza que seremos lembrados daqui a 20, 30 anos, como um grande divisor de águas no Rio de Janeiro. Tem coisas que vão e vêm na vida, mas isso não vai sair nunca”.

Pelos próximos cinco anos, Gustavo e sua equipe terão a cidade como laboratório. Sua missão é projetar o Rio para o mundo. Para quem vê, o pôr-do-sol é o pano de fundo. Para quem sente, os efeitos especiais são desnecessários. O cenário dos brasileiros para 2016 está pronto há milênios.

Confira mais entrevistas com Quem Faz os Jogos Rio 2016:

Agberto Guimarães

Carlos Arthur Nuzman

Colaboradores Rio 2016

Mariana Mello

Ricardo Prado

Enviar para um amigo

Filtrar em Entrevistas

Newsletter

Cadastre-se e receba por e-mail as últimas notícias do Rio 2016™.

+