Entrevistas

Agberto Guimarães

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Quando há obstáculos, a distância mais curta entre dois pontos pode ser uma linha tortuosa. O aforismo atribuído ao dramaturgo alemão Bertolt Brecht encaixa bem na carreira de Agberto Guimarães. “É um processo. Você não sai de zero para cem em um pulo só. Tem que ser por etapas, porque a possibilidade de dar com os burros n’água quando pulam etapas é muito grande”, ensina o paraense de Tucuruí, três Jogos Olímpicos no currículo como atleta, mais de 20 anos de experiência na administração esportiva e atual Diretor de Esportes do Comitê Organizador Rio 2016.

“O esporte sempre foi um meio para eu chegar a algum lugar, acho que essa é a diferença. Eu quis fazer o que eu estou fazendo, eu investi. Trabalhei para isso. Fiz o processo começando de baixo, aprendendo, escutando. Não foi por acaso”, lembra o primeiro corredor brasileiro a obter patrocínio fora do país, a participar de um meeting internacional e a ganhar bolsa de estudos nos EUA.

Foram menos de seis anos entre o carente interior do Pará e as melhores pistas do mundo. Descoberto aos 17, em uma aula de educação física em 1974, já despontava como principal atleta do país nos 800 metros no ano seguinte. Em 1976, bateu o recorde brasileiro adulto pela primeira vez, ainda como juvenil. Mais um ano e a marca sul-americana era pulverizada. Em 1980, Agberto chegava à final olímpica dos 800 metros em Moscou.

“Além de talentoso, ele sempre foi muito disciplinado. Tinha vontade de vencer. Seguia os treinamentos à risca. Se pedia dez repetições de 200 metros, ele ia lá e fazia no tempo. Em 1974, fui para a Alemanha e disse que, se ele fizesse 2m15s nos 800 metros quando eu voltasse, ele iria para Brasília [disputar o Torneio Colegial]. Quando voltei, ele fez 2m12s”, comenta Alberto de Oliveira, primeiro treinador, incentivador e mestre de Agberto, que o acompanhou por mais de dez anos.

Confira a galeria de fotos da vitoriosa carreira de Agberto Guimarães

“Diria que eu sou uma ponte”

“Aquela cena do Agberto dando entrevista chorando com o quarto lugar em Moscou, depois de liderar parte da prova, mexeu muito comigo. Pensei que, quando chegasse aos Jogos Olímpicos, traria a medalha para acabar com aquele sentimento”, lembra Joaquim Cruz, seis anos mais jovem que Agberto, ouro na mesma prova, na edição seguinte, em Los Angeles. “Ele era como um irmão mais velho. Usou e usa o esporte para servir as pessoas. Curtiu o atletismo e alcançou o sonho de utilizar o esporte para a educação, para a preparação para o fim da carreira”.

Com a ajuda de Agberto, Joaquim conheceu a estrutura disponível nas universidades dos EUA, onde desenvolveu seu potencial até a medalha olímpica e o diploma de Educação Física. Em comum, o técnico brasileiro. Nesta altura, Alberto de Oliveira ficara no Brasil, e Luiz Alberto de Oliveira assumira a missão de treinar Agberto, Joaquim Cruz e outro ícone das corridas de meio-fundo na década de 1980: Zequinha Barbosa.

“Este, então, eu literalmente botei debaixo das asas e levei comigo”, brinca Agberto. “Nem se eu desse 100 milhões de reais, isso não seria o bastante para agradecer. Agberto era o nosso ídolo, o nosso exemplo”, diz Zequinha, quatro edições de Jogos Olímpicos (1984 a 1996) no currículo, medalhista em Mundiais e diplomado em Jornalismo, Marketing e Educação Física.

“O Agberto é um cara muito agradável de lidar. Como atleta, sempre esteve entre os melhores do mundo. Colocava muita pressão nele mesmo. As derrotas eram um desastre, mas ele levantava. E o mais importante, que é priorizar a educação, todos eles fizeram”, afirma Luiz Alberto, amigo e compadre do ex-pupilo, conhecido pela inovação dos treinamentos em circuitos.

Líder de uma geração memorável do atletismo brasileiro, Agberto estendeu as mãos a atletas que competiam contra ele na mesma época, nas mesmas provas. “Isso é meu. Faço questão de criar o melhor ambiente para o meu grupo, para que possam executar o que fazem de melhor. Me sinto gratificado. Se tivesse feito todo o resto e não isso, não teria sido tão especial. Até hoje, meu papel é ser um facilitador. Se pudesse me definir, diria que sou uma ponte. Crio um elo entre um ponto e outro, tento guiar as pessoas no caminho”.

Educação como prioridade rumo ao topo olímpico

Em 1999, a aposentadoria das pistas completou dez anos. A experiência na organização de eventos do porte do Mundial de Voleibol Feminino 1994 culminou com o convite do COB para planejar um Centro de Treinamento para Jovens. Dirigiu ainda o projeto Solidariedade Olímpica - conjunto de iniciativas financiadas pelo COI com a finalidade de diminuir a disparidade de rendimento entre os países. Classifica a fase como fundamental na carreira. O contato com atletas, técnicos e dirigentes na área de formação e capacitação, e a oportunidade de interlocução com outros países, deram frutos a curto prazo.

Já na área de Desenvolvimento Esportivo do COB, ficou responsável, entre outras tarefas, pela orientação de transição de carreira de atletas: “Eu e muito poucos atletas fizemos essa passagem de forma pensada. Sempre fiz esporte como um meio, não abandonei nada da minha formação acadêmica para fazer esporte. Jamais faria isso. Acredito ser fundamental para as pessoas e para o país que a educação seja prioridade”.

O sucesso dos Jogos Pan e Parapan-Americanos Rio 2007, do qual foi gerente-geral de Esportes, e a vitória na campanha de candidatura para 2016 são símbolos de uma trajetória ambiciosa. “Vamos chegar em 2016 com uma base muito melhor. Os Jogos deixarão, como legado esportivo, os Centros de Treinamento no Rio de Janeiro, que reunirão os atletas, treinadores e administradores em um só lugar. O Brasil terá uma nova cara para apresentar ao mundo. Oito anos após os Jogos do Rio, a continuar nesse processo, seremos uma das cinco maiores potências do mundo”.

No esporte e na vida, Agberto Guimarães confunde sua história com a do país que optou por ajudar a construir. Por linhas tortuosas, foi pioneiro e continua abrindo portas. De Tucuruí para o Brasil e o mundo, a distância mais curta entre o passado e o futuro é uma ponte. Construída etapa por etapa.

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